O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione.
Da fábrica à farmácia em muito menos tempo: como a produção contínua de comprimidos está a tornar os tratamentos mais rápidos, robustos e acessíveis para quem mais precisa.
Ouça aqui o quarto episódio do podcast, com João Ventura, diretor sénior da área de produto farmacêutico na Hovione.
[Transcrição]
E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta".
Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo a "A próxima descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas do desenvolvimento farmacêutico global feito a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vamos conhecer esta tecnologia que está a transformar a forma como os medicamentos são produzidos e a acelerar o acesso dos pacientes a novos tratamentos. Para nos guiar nesta viagem, recebemos hoje João Ventura, diretor sénior da área de produto farmacêutico na Hovione.
NF: Olá, João, muito bem-vindo. Durante décadas, a indústria funcionou através da chamada produção em lote. Como é que funcionava este método tradicional e por que a produção contínua representa, de facto, uma mudança tão significativa para a indústria farmacêutica?
João Ventura (JV): Obrigado, Nelson, pelo convite e também por esta pergunta, para começarmos a falar desta inovação. Com efeito, como o Nelson referiu, durante muitas décadas, a indústria realizou a produção de medicamentos em forma de comprimidos através do método tradicional, que é a produção em lote. Este método consiste na produção de uma quantidade muito bem definida, o lote de produto de cada vez, e a execução de cada passo unitário do processo produtivo de forma discreta. Isto quer dizer que cada passo unitário seguinte só começa tipicamente quando todo o lote material do passo anterior já terminou de ser fabricado, processado, recolhido e amostrado para verificação de qualidade. No caso da produção de comprimidos, o processo produtivo inclui passos de pesagem, de mistura, granulação, compressão do próprio comprimido e, finalmente, de revestimento do exterior do comprimido. Embora esteja bem compreendido, amadurecido e implementado do ponto de vista industrial e regulatório, este método, na verdade, Nelson, pode tornar-se ineficiente, uma vez que o material pode passar uma grande quantidade de tempo entre cada passo unitário do processo, simplesmente à espera. À espera da verificação de qualidade ou simplesmente à espera de disponibilidade do equipamento do passo seguinte. Ao contrário, a produção em contínuo de comprimidos permite mover todo o material de forma contínua, automatizada, entre cada passo unitário deste processo, assim como averiguar a qualidade de cada comprimido produzido. Isto permite à produção em contínuo alcançar benefícios inalcançáveis pelos métodos tradicionais da produção em lote.
NF: Mas, João, esta ideia de produzir de forma contínua parece, de facto, mais lógica, mas na indústria farmacêutica, pelo que percebi, é uma tecnologia recente. Quando é que o mercado começou a aceitar esta mudança?
JV: Com efeito, Nelson, como sabe, a indústria farmacêutica, por boas razões, tem que ser uma indústria conservadora, que dá passos de inovação com muitos cuidados. Com efeito, foi apenas a partir do início dos anos 2000, que a própria FDA, a Agência Regulatória dos Estados Unidos da América, iniciou a promoção junto da indústria do desenvolvimento destas tecnologias alternativas, mais ágeis e simultaneamente mais robustas do ponto de vista da qualidade, baseadas, como eu referi, nesta integração e automatização de todo o processo em contínuo dos passos unitários utilizados na produção dos comprimidos. Isto necessitou, de facto, do desenvolvimento de um novo tipo de equipamento produtivo, de nova maquinaria, que realizasse todo o processo mecânico em contínuo, de forma automática, assim como o desenvolvimento dos componentes de eletrônica e do software, que fizesse o controle e inspeção da qualidade do produto, tanto nos passos intermédios como no próprio comprimido final. Depois deste desenvolvimento tecnológico inicial, foi apenas depois, durante a década de 2010, que a FDA aprovou os primeiros produtos desenvolvidos em contínuo por grandes farmacêuticas, como a Vertex ou a Janssen. E isto marcou um ponto decisivo de inflexão na aceleração da curva de adoção desta tecnologia de produção em contínuo de comprimidos.
NF: E que problemas práticos é que este novo sistema vem resolver no dia a dia desta indústria? Imagino que há também aqui ganhos em termos de controle de qualidade. Ainda agora falava que este processo permite essa avaliação da qualidade no meio e no final do comprimido final, neste caso.
JV: Sim, é verdade. A comercialização desta primeira onda de medicamentos produzidos em contínuo por estas empresas que eu referi, a Vertex e a Janssen, de facto, foi muito importante, pois mostrou à indústria como um todo que esta nova tecnologia de produção em contínuo era capaz de criar grandes benefícios, tanto para os pacientes como para a indústria em geral. Em primeiro lugar, por conseguir encurtar os tempos de desenvolvimento e de produção dos novos medicamentos, o que permite avançar as inovações terapêuticas, os novos fármacos em si, que são importantes para melhorar a saúde dos pacientes muito mais rápido do que antes.
NF: Chegam mais rápido ao mercado, se calhar, também.
JV: Exatamente. E adicionalmente, como o Nelson referiu, esta tecnologia permite, de facto, verificar a qualidade de cada comprimido produzido, e não apenas uma pequena amostra, como na tecnologia em lote, o que garante por si só maior robustez em termos de controle de qualidade do produto final, o que é benéfico para a sociedade como um todo.
NF: Claro. E essa vantagem da velocidade, digamos, é verdade que em casos de emergência médica ou de saúde pública, este sistema também é mais favorável porque responde mais rapidamente ao mercado. Isto já aconteceu?
JV: Sim, essa é uma das grandes vantagens potenciais desta tecnologia. O facto de conseguirmos produzir em apenas minutos em processo contínuo, o que tradicionalmente na produção em lote levaria várias semanas, pelo facto de existirem estes tempos de paragem no processo tradicional, para além do benefício econômico, tem essa vantagem adicional de que, em caso de emergências médicas ou de saúde pública, em que é preciso Escalar a produção de novos medicamentos para responder a situações de emergência. Isto permite fazê-lo muito mais rápido do que anteriormente.
NF: A Covid-19 é um exemplo disso?
JV: É um exemplo perfeito.
NF: Beneficiou já desta rapidez?
JV: Ainda não, mas antecipamos que, no futuro, em próximas situações de emergências pandêmicas, esta tecnologia desempenhará um papel fundamental nesse processo de, tal como vimos no caso das vacinas, ter que escalar a produção industrial muito mais rapidamente.
NF: João, a Hovione posicionou-se como pioneira global nesta tecnologia, muito através de uma parceria estratégica com a Vertex, de que já falou aqui, isto aconteceu em 2016. Como é que uma empresa portuguesa se tornou a primeira do seu género a adotar um avanço tão importante à escala industrial e nos Estados Unidos?
JV: Desde a sua fundação, Nelson, a história da Hovione tem estado muito ligada à adoção e à utilização de novas tecnologias de produção de produtos farmacêuticos, com o potencial de fornecerem grandes vantagens de desempenho econômicas à escala industrial. Este tem sido um dos segredos de sucesso da Hovione. E de fato, durante a década dos anos 2010, como falamos há pouco, a Hovione reconheceu cedo o potencial e as vantagens da tecnologia de produção de comprimidos em contínuo. E como o Nelson referiu, em 2016, a Hovione avançou para fechar esta parceria estratégica com a empresa Vertex, para estabelecer capacidade de produção de comprimidos em contínuo à escala industrial nos Estados Unidos. A Hovione foi provavelmente a primeira empresa da sua tipologia a adotar esta nova tecnologia. Este avanço foi importante não só para suportar a adoção da tecnologia na indústria, mas em particular, neste caso, na parceria com a Vertex, contribuiu também de uma forma fundamental para o desenvolvimento de um novo fármaco, como se adapta a Vertex, mais eficaz para o tratamento da fibrose quística, que é uma doença absolutamente terrível e afeta principalmente as crianças e é ainda incurável.
NF: Sem dúvida. Há pouco o João falava que do ponto de vista industrial, isto criou desafios. Foi preciso, imagino, desenhar, instalar máquinas mais complexas para que tudo isto funcione?
JV: Sim, é verdade, Nelson. Os desafios foram enormes nessa primeira instalação à escala industrial desta tecnologia de produção em contínuo de comprimidos. A equipe da Ovione levou o projeto desde a fase de conceção e desenho da instalação e do novo equipamento, como o Nelson referiu, até à própria construção do edifício, a instalação desse novo equipamento e depois a execução operacional de toda a produção desse novo medicamento para a Vertex, que teve essa grande importância também para o tratamento de uma doença incurável, muito complicada para os pacientes que infelizmente dela sofrem.
NF: Creio que depois dessa primeira unidade nos Estados Unidos, esta é uma tecnologia que já trouxeram para Portugal, para Loures, onde tem uma segunda linha já há alguns anos. Isto de alguma forma fecha o ciclo para a Hovione, já conseguem trabalhar da molécula ao comprimido final.
JV: Sim, é isso mesmo. Após essa primeira instalação industrial e a experiência adquirida, em virtude também da observação de uma maior procura e interesse do mercado por esta tecnologia, a Hovione expandiu e investiu no início dos anos 2020 a sua capacidade de produção através da construção e instalação de uma segunda unidade de produção de comprimidos em contínuo na fábrica de Loures, aqui em Portugal. Como referiu, a fábrica da Hovione de Loures é de fato capaz de realizar o ciclo completo de desenvolvimento, desde a produção química da nova molécula, a entidade inovadora, até depois à sua formulação e ao fabrico do comprimido final.
NF: João, nós estamos aqui em alturas de mundial de futebol, em que se apela muito também ao orgulho nacional. Imagino que quando um doente toma um comprimido inovador, e pode estar a fazê-lo em qualquer parte do mundo, há um orgulho nacional também em saber que a engenharia e a tecnologia que o tornaram possível passaram por equipes portuguesas.
JV: Sem dúvida, Nelson. É através desta combinação da nossa capacidade aqui em Portugal de estar atentos à adoção de novas tecnologias inovadoras, investir na capacidade de produção baseada nestas tecnologias de vanguarda, que conseguimos afirmar nos nossos respectivos setores, nas nossas indústrias, como parceiros de confiança dos nossos clientes. Tem sido esse o caso da Hovione e de fato temos conseguido contribuir para, como o Nelson referiu, produzir medicamentos inovadores que tratam e melhoram a qualidade de vida de milhões de pessoas pelo mundo fora. Isto deve ser motivo de orgulho para todos nós aqui em Portugal, à semelhança da nossa grande seleção.
NF: João, muito obrigado por nos explicar como é que esta tecnologia está de fato a desafiar a tradição, a acelerar também a produção de medicamentos que salvam vidas. João Ventura é diretor sénior da área de produto farmacêutico na Hovione. Fica por aqui o quarto episódio da próxima descoberta. Nas próximas semanas, vamos mudar de rotas. Vamos perceber, por exemplo, como é que o nosso sistema respiratório e nasal podem também ser utilizados para levar medicamentos de forma mais eficaz, quer aos pulmões e em alguns casos funcionar também como uma autêntica autoestrada para o cérebro.
Não perca os próximos episódios em Observador.pt e também nas habituais plataformas de podcast. Até à próxima descoberta.