O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione.
De antibióticos difíceis de produzir a terapias inovadoras, a Hovione usa química complexa e sustentável para levar medicamentos seguros a doentes em todo o mundo.
Ouça aqui o segundo episódio do podcast, com Rui Loureiro, cientista na Hovione.
[Transcrição]
E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A Próxima Descoberta".
Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao podcast "A Próxima Descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas de uma multinacional farmacêutica de origem portuguesa para contar histórias reais de ciência, inovação e impacto global. Eu sou o Nelson Ferreira e se no primeiro episódio conhecemos a história da cave onde tudo começou há mais de 65 anos, hoje vamos perceber o que se faz dentro desta empresa. Vamos falar de química complexa, porque é na química que começa a jornada de muitos medicamentos que passam pela Hovione. Vamos descobrir como a ciência laboratorial se transforma em processos industriais, como a sustentabilidade faz parte desta transformação e como tudo isto contribui para produzir medicamentos que ajudam, de facto, a melhorar e salvar vidas. Para nos guiar nesta viagem, recebo hoje Rui Loureiro, é cientista do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione. Olá, Rui. Bem-vindo à Rádio Observador.
NF: Rui, a maioria das pessoas pode nunca ter ouvido falar da Hovione, mas pode estar a tomar um medicamento onde a Hovione teve um papel importante. Onde é que vocês entram exatamente nesta longa viagem que leva um medicamento até ao doente?
Rui Loureiro (RL): Olá, Nelson. Bom dia. Nelson, obrigado pela pergunta. Realmente, o caminho para um medicamento chegar a um paciente é longo e começa com uma primeira produção de uma pequena quantidade de um fármaco, que depois, com o seu normal desenvolvimento, vai acabar por precisar de quilos. Se pudermos utilizar aqui um exemplo, que eu gosto muito de exemplos, imaginemos se estivemos a fazer uma bolacha ou quando vamos comprar umas bolachas ao supermercado, alguém teve que fazer primeiro a primeira dose de bolachas no seu forno, em casa, mas depois precisa de um parceiro para levar essas bolachas a uma escala industrial.
Precisa de uma fábrica, exatamente. E portanto, é aí que a Hovione entra. A Hovione é esse parceiro para a indústria farmacêutica, para tornar a primeira bolacha em muitas bolachas que chegam depois aos pacientes.
NF: Para quem nos está a ouvir e não é desta área, na gíria da indústria farmacêutica fala-se muito de APIs. Eu próprio tive de ir pesquisar o que são. O que é isto, afinal, e por que a Hovione se focou tanto nestes componentes, um bocadinho quase desde o início da sua atividade?
RL: Certo. É verdade que o API existe em várias ciências, existe este acrônimo. E para a informática é uma coisa completamente diferente. Na indústria farmacêutica, API, traduzido à letra, é Active Pharmaceutical Ingredient, ou em português, é o princípio ativo que trata, que cura a doença. E estes princípios ativos, para exemplificar aqui também seguindo a bolacha, quando nós fazemos uma bolacha de chocolate, a bolacha de chocolate tem vários componentes, como a manteiga, a farinha e tem o chocolate, que é um bocadinho que dá o nome à bolacha e que é aquilo pelo qual a gente compra a bolacha. E o API é, num fármaco, exatamente isso. É uma pequena quantidade que está lá e que permite que nós tratemos as pessoas. Apesar de que, quando nós fazemos o comprimido, o comprimido tem vários componentes, várias substâncias. Portanto, imaginemos quando nós temos 10 mg de um medicamento que trata, porque são essas 10 mg, fazer um comprimido dessas 10 mg é difícil. Portanto, é necessário adicionar essas substâncias, esses componentes, para criar o comprimido.
NF: Rui, durante muitos anos, a Hovione especializou-se também em medicamentos genéricos complexos. Como é que essa experiência permitiu dar o salto para trabalhar com empresas que estão a desenvolver medicamentos completamente novos?
RL: Ora, foi um passo muito importante. Por quê? Porque o desenvolvimento de genéricos complexos, e o que isto quer dizer? Quer dizer que a química para os preparar, para os produzir, é complexa, requer muitas coisas, requer, por exemplo, uma temperatura ou muito baixa, ou requer a utilização de condições controladas que quando se podem produzir dois tipos de produto, acabamos por produzir apenas aquele que nós queremos e não aquele que a gente não quer. E essas competências para fazer esses antibióticos e outros materiais que nós fizemos no início, que o engenheiro Villax fez no início, levou a que o mercado reconhecesse essas competências. Essas competências são úteis para qualquer fabricante de fármacos, porque a química acabamos por fazer as mesmas reações, juntando peças diferentes. Portanto, como juntamos peças diferentes, se há alguém que demonstrou que conseguimos fazer essa montagem das peças mais difíceis, o mercado vai nos reconhecer. E foi assim que nos levou a que nós passássemos a ser reconhecidos no mercado como alguém que tem as competências certas para produzir fármacos complexos.
NF: Eu fiquei curioso com esta determinação da química complexa. O Rui até quando preparávamos este programa costuma fazer essa comparação curiosa, que já fez aqui também entre a química e a culinária, se a química é como a cozinha, o que é que distingue essa química tradicional da chamada química complexa que vocês fazem na Hovione?
RL: Eu vou fazer já um disclaimer para os químicos que nos estiverem a ouvir, porque vou simplificar e estou a tentar simplificar a mensagem, porque aquilo que distingue a química complexa tem a ver com os reagentes, os solventes que nós utilizamos. Ou seja, os materiais de partida, por vezes, podem não ser fáceis de transformar no produto que nós queremos. Podem requerer condições muito específicas. E às vezes o produto que se obtém também não é muito estável e, portanto, é preciso também condições muito cuidadas. Mas recorrendo à culinária, se quisermos, a química simples é quase como preparar uma gelatina. Pegamos em pó, colocamos em água quente, arrefece e temos uma gelatina. Uma química complexa é mais como fazer um gelado de leite, que é bastante mais complexo, que requer um processo bastante mais complicado, que nós normalmente em casa até se calhar fazemos gelatina, um gelado, se calhar contratamos alguém especialista para nos dar o gelado.
NF: Claro. Há aqui um outro desafio que me fascina no vosso trabalho. No laboratório, o Rui e a sua equipa desenvolvem processos à escala de miligramas ou gramas, mas depois a fábrica tem que produzir isto em toneladas. Como é que se passa de uma escala de uma colher de chá para a escala de um caminhão sem estragar a receita? Este deve ser o grande desafio.
RL: É, sem dúvida, Nelson, o grande desafio que nós temos todos os dias e que nos faz ter uma equipa multidisciplinar, porque nós para passarmos das miligramas para as toneladas, temos que conhecer muito bem as variáveis todas que são envolvidas no processo de produção. Para dar uma ideia, quando aquele primeiro chef que eu falei há pouco das bolachas de chocolate faz a sua primeira bolacha, utiliza uma varinha e um recipiente. Agora, quando nós queremos fazer toneladas, não basta uma colher de pau maior e uma taça maior. É preciso realmente conhecer os equipamentos que nos permitem fazer esses produtos. Esses equipamentos têm variáveis, que nós, como equipa multidisciplinar, desde químicos, engenheiros, químicos analíticos, uma equipa mesmo muito grande, vai estudar todas as variáveis que podem ter impacto na qualidade do produto final. E para dar uma ideia, num processo químico, tipicamente temos quatro ou cinco passos que são feitos para a nível GMP, e aqui são as boas práticas de produção. E isso garante a qualidade dos produtos. E nós, num processo químico, temos quatro ou cinco passos desses. E para o Nelson ter uma ideia: tem uma ideia de quantas variáveis nós teremos que controlar?
NF: Não faço ideia. Mas devem ser mais do que três ou quatro.
RL: São. A nossa experiência, mostra-nos que a média são 350 variáveis, que num processo de quatro a cinco passos têm que ser conhecidas e têm que ser controladas para garantir que a qualidade do produto final está dentro dos parâmetros que nós precisamos para dar aos pacientes.
NF: Rui, quando se fala de química, ainda muitas pessoas poderão associar algo negativo, mas a Hovione tem vindo a desenvolver e implementar abordagens que são, de facto, mais sustentáveis. O que é, na prática, fazer química de forma mais sustentável nesta indústria farmacêutica?
RL: Fazer a química de forma mais sustentável é uma preocupação diária. Nós desenhamos os processos químicos tendo em conta a sustentabilidade desde o início. Ou seja, nós temos sempre o objetivo de produzir produtos com qualidade e em segurança, mas queremos também que eles sejam feitos de forma sustentável. E para isso, nós seguimos muito os princípios da química verde desde o início. Ou seja, se podemos evitar reagentes ou solventes, ou materiais que tenham impactos ambientais prejudiciais, nós tentamos evitar a sua utilização. Senão, depois utilizamos os quatro Rs, que é tentar reduzir, reciclar ou reutilizar. Isso é o princípio básico que a Hovione já faz há muitos anos. No entanto, estamos a olhar para formas ainda mais diretamente aplicáveis. E aqui, dando um exemplo, por exemplo, das tintas, nós nos anos 80, 90, tínhamos tintas que eram à base de solventes orgânicos diluentes. E a indústria das tintas mudou para solventes ou tintas à base d'água. E nós estamos também a seguir um caminho semelhante, porque estamos também a fazer química em água. E alguns dos meus colegas têm estado a trabalhar muito afincadamente em utilizar a água inspirada na natureza para fazer as reações químicas. Isto é importante porque vai permitir substituir os solventes orgânicos, os diluentes que nós utilizamos, por água, que naturalmente vão baixar a pegada carbônica dos nossos processos químicos, porque utilizando um solvente orgânico, tem uma pegada carbónica maior do que a água. E para além dessa química micelar, nós também olhamos para tecnologias como química de fluxo, química que permite, com uma menor pegada, intensificar aquilo que nós produzimos. E ao intensificarmos, conseguimos ter menos resíduos e conseguimos produzir mais do nosso produto. E uma última que eu gostava de mencionar, que é algo muito exploratório, mas que é ainda um passo mais à frente, que é: se estávamos em água, por que não tentar fazer reações químicas sem água? E estamos também a olhar para essa tecnologia, que de uma forma muito simples, é quase como pegar em especiarias, num pilão e tentar misturá-las para dar uma nova mistura, um novo sabor. Aqui estamos a tentar fazer produtos novos e portanto, essas são tecnologias, entre outras, que estamos a olhar para fazer o desenvolvimento de fármacos mais sustentáveis.
NF: Muito bem. Para terminarmos, Rui, o Rui está neste centro de investigação e desenvolvimento, onde a inovação acontece todos os dias. Olhando aqui um bocadinho para o futuro, a química vai continuar a ser a nossa melhor arma para salvar vidas e de forma cada vez mais sustentável?
RL: A minha resposta é claramente que sim, e é isso que me faz levantar todos os dias da cama para ir trabalhar. Porque nós sabemos que a utilização da inteligência artificial vai ter um grande impacto e já está a ter um impacto, porque ajuda a identificar os alvos nos nossos organismos e a desenhar as moléculas que se vão encaixar perfeitamente no alvo que queremos tratar. Mas depois ainda vai ser preciso produzir esse fármaco. E para produzir esse fármaco, a química estará lá. Será a base para fazer esse fármaco, para alterar, para fazer fármacos ligeiramente diferentes e que são melhores. E, portanto, eu diria que sim, há aqui um espaço para a inovação, sendo sustentável, e é um princípio que nós temos e que já temos vindo a seguir e que esperamos continuar a seguir.
NF: Rui Loureiro, cientista da Hovione, muito obrigado por nos ajudar aqui a descomplicar a química e por nos mostrar este lado mais verde da ciência.
Este foi o segundo episódio de "A Próxima Descoberta". Fica por aqui, mas nas próximas semanas vamos continuar a explorar este universo e já no próximo episódio vamos olhar para o futuro e saber mais sobre a engenharia de partículas.
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