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Article / Jul 02, 2026

Podcast “A Próxima Descoberta” (EP3) - Partículas que mudam vidas

Observador Lab, 2 julho 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione.

Da engenharia de partículas à liderança mundial em spray drying, conheça a tecnologia que permite que medicamentos orais cheguem de forma eficaz ao organismo e tratem milhões de pessoas.

Ouça aqui o terceiro episódio do podcast, com Filipe Gaspar, VP Technology Intensification, e José Luís Santos, Strategic Business Management Senior Director, na Hovione.

[Transcrição]

E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A Próxima Descoberta".

Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo a "A Próxima Descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Ovion, uma série de seis episódios onde mostramos como a ciência desenvolvida em Portugal tem um impacto real em todo o mundo. Eu sou o Nelson Ferreira e se no último episódio percebemos como se produzem os APIs, as substâncias ativas dos medicamentos, hoje entramos na fase seguinte: como é que transformamos esse pó químico num medicamento que o nosso corpo consegue absorver. Para nos explicar esta ciência, recebo hoje o Filipe Gaspar e o José Luís Santos, que estiveram na origem do desenvolvimento da área da engenharia de partículas da Hovione. Muito bem-vindos a ambos. Filipe, começo por si. 

NF: Quando ouvimos falar de um novo medicamento, normalmente pensamos na molécula que foi descoberta. Mas porque é que essa descoberta, por si só, não é suficiente? O que é e que papel, afinal, desempenha a engenharia de partículas para transformar uma molécula, que pode ser promissora, num medicamento que se torna realmente eficaz?

Filipe Gaspar (FG): Nelson, a substância ativa de grande parte dos medicamentos modernos não é eficaz na forma como são produzidas nos seus processos químicos ou biológicos. Para funcionarem corretamente no organismo, precisam de passar por transformações adicionais. Por exemplo, alguns medicamentos têm que ser protegidos da acidez do estômago para depois poderem ser libertados no intestino, onde o ambiente já é menos ácido, e permitirem serem absorvidos pela corrente sanguínea. Outros necessitam de dimensões muito específicas. É o caso dos pós para inalação, que são muitas vezes usados no tratamento de asma ou bronquite crônica. E nesse caso, se as partículas forem demasiado grandes, ficam retidas nas vias respiratórias superiores e não chegam aos alvéolos onde elas têm que ser absorvidas. Ao invés, se forem demasiado pequenas, acabamos por expirá-las antes de serem absorvidas. Por isso, encontrar o tamanho adequado é essencial para garantir a eficácia do tratamento. Um último exemplo marcante são os medicamentos orais modernos, que precisam de ser convertidos numa outra forma, a forma amorfa, para que o organismo os consiga absorver adequadamente. E a engenharia de partículas permite isto mesmo, ultrapassar muitas destas limitações, melhorando a absorção, a distribuição do fármaco e a eficácia destes medicamentos.

NF: Em 2003, creio, a Hovione tomou uma decisão ousada e investiu no spray drying ou na secagem por atomização. José, para quem nos está a ouvir, consegue explicar de forma simples o que é, afinal, esta tecnologia, que problema vem resolver e por que ela foi tão revolucionária na altura?

José Luís Santos (JLS): Em primeiro lugar, referir que esta tecnologia, o spray drying ou a secagem por atomização, é utilizada há décadas noutras indústrias. Vou dar alguns exemplos. Se pensar, por exemplo, no leite em pó, no café solúvel ou no detergente em pó que usamos nas máquinas de roupa lá em casa. Em todos estes casos, nós começamos com o líquido: o leite, o café ou uma pasta de um gênero de sabão. E esse líquido é transformado depois num pó finíssimo, que se dissolve quase instantaneamente quando lhe juntamos água. Esta transformação é feita exatamente por spray drying ou secagem por atomização. De uma forma muito simples, vou tentar explicar. O que acontece dentro do spray dryer é o seguinte: imaginemos que temos uma câmara de grandes dimensões, como se fosse um secador de cabelo gigante. Lá dentro, o líquido que queremos secar é transformado num spray, uma espécie de um nevoeiro. E dessa forma geramos gotas extremamente pequenas. Estas gotículas microscópicas são secas muito rapidamente com gás quente, no tal secador gigante, e em milissegundos o líquido evapora e depois permanece o pó feito de partículas minúsculas e que têm propriedades tais, como o Filipe referiu, que lhes permitem ser extremamente solúveis. Os pós que geramos na indústria farmacêutica são, portanto, fisicamente semelhantes aos exemplos que eu referi, ao leite em pó, café solúvel ou o detergente em pó. E agora, por que esta tecnologia foi revolucionária na indústria farmacêutica? Porque, tal como no caso do leite em pó, a tecnologia permitiu conservar leite durante meses sem frigorífico, ou no caso do café solúvel, nos deu um café que conseguimos preparar em segundos. No caso do spray drying farmacêutico, permitiu criar medicamentos com melhor efeito terapêutico pelo fato de serem mais solúveis. E, portanto, sem o acesso a esta tecnologia de spray drying ou secagem por atomização, grande parte destes medicamentos não teriam um caminho viável para chegar ao mercado e aos pacientes.

NF: Filipe, já percebemos um bocadinho o que acontece na fábrica, mas estou curioso para perceber o que acontece no organismo de um paciente. Consegue dar-me exemplos concretos? O que acontece quando uma molécula até parece promissora no laboratório, mas o organismo não a consegue absorver logo de forma eficaz?

FG: Claro. Por incrível que possa parecer, a grande maioria dos medicamentos tomados por via oral, os comprimidos, as cápsulas, são menos solúveis em água do que o vidro ou o mármore. Como os nossos sucos gástricos e intestinais são maioritariamente água, estes medicamentos, na sua forma cristalina original, dissolvem-se muito pouco e poderiam atravessar o aparelho digestivo sem qualquer absorção pela corrente sanguínea. Isto tornar-os-ia completamente ineficazes. O processo de spray drying resolve este problema ao transformá-los numa forma amorfa Que dissolve muito mais facilmente e pode ser absorvida pelo organismo. Uma analogia simples é comparar um cubo de gelo com neve. Ambos são o mesmo composto, são água sólida, mas a neve dissolve-se muito mais rapidamente devido à sua estrutura. O spray drying aplica um princípio semelhante aos medicamentos, aumentando significativamente a sua capacidade de dissolução e absorção.

NF: José Luís, para quem nos ouve, pode isto parecer sempre um pouco mais técnico, mas o resultado são pessoas que, de facto, por causa destas tecnologias, acabam por viver mais, viver melhor. Há exemplos concretos de medicamentos que só chegaram ao mercado e aos pacientes graças a esta tecnologia de que estamos a falar?

JLS: Com certeza. Um dos exemplos mais marcantes em que a Hovione esteve envolvida é o caso do medicamento para a Covid-19, que todos nós conhecemos amplamente, onde a Hovione esteve envolvida na produção de um composto, que é o Captisol, que foi um composto essencial para produção de um antiviral, Remdesivir, da Gilead, que foi um dos poucos medicamentos autorizados para o tratamento da Covid-19. Outro dos exemplos foi o dos medicamentos para hepatite C. Há cerca de 10, 12 anos, a doença foi praticamente erradicada através do desenvolvimento do processo de produção, tendo como base a tecnologia spray drying, o que permitiu que esses medicamentos para a hepatite C tivessem a solubilidade e o efeito terapêutico desejados. Estes são apenas dois exemplos, e nós, Hovione, e outras empresas neste espaço estamos a trabalhar com um número cada vez maior de medicamentos, por exemplo, para oncologia ou para fibrose quística, e muitas outras doenças que beneficiam do acesso a esta tecnologia de spray drying e das vantagens que a mesma oferece.

NF: Ainda vai ser muito útil no futuro, em muitas outras descobertas, pelo que estou a perceber. Filipe, quando a Hovione investiu no spray drying, esta era uma tecnologia quase inacessível, pouco usada na indústria farmacêutica. O que a Hovione viu que muitos não viram? E como é que uma aposta aparentemente arriscada acabou por colocar a empresa na liderança mundial desta área?

FG: Em 2003, quando investimos na tecnologia, já tínhamos identificado uma ou duas oportunidades. E era, como disse, uma tecnologia praticamente inexistente entre as empresas como a Hovione, que prestam serviços à indústria farmacêutica. Decidimos investir antes de existir uma procura consolidada, assumindo com isso um elevado risco. Estamos a falar de muitos milhões de euros, o custo de um spray drier industrial. Depois disso, fomos atrás do mercado e a procura que vimos, nomeadamente na necessidade de aumentar a biodisponibilidade dos medicamentos orais, confirmou as nossas melhores expectativas. Fizemos e continuamos a fazer um investimento contínuo em ciência, na tecnologia, na nossa capacidade industrial, que ao longo dos anos consolidou a posição da Hovione como uma referência mundial em spray drying. E agora temos que continuar a inovar para manter essa posição.

NF: Não me parece que vá ser difícil pelos exemplos que temos estado a conhecer da Hovione. Sabemos que a inovação não se faz também de forma isolada. O caso do spray drying também foi disso exemplo. A Hovione, pelo que me parece, tem uma ligação forte à academia, às universidades, através de mestrados, de doutoramentos que acontecem também em ambiente industrial. Esta união é o segredo para continuarem na vanguarda?

JLS: Sim. A nossa ligação à academia foi sempre muito importante e ainda continua a ser. À data de hoje, nós contamos com mais de 300 pessoas com funções de investigação e desenvolvimento e mantemos uma forte ligação com o meio académico. A Hovione é dos maiores empregadores privados de doutorados em Portugal, com cerca de 120 doutorados nos quadros, e promovemos projetos em parceria com universidades e centros de investigação.

FG: Gostava também de referir o Hovione Research Program. 

NF: É o quê?

FG: É o programa de investigação da Hovione. É um programa em colaboração com as instituições académicas portuguesas e é um programa que está ativo há mais de 15 anos. Para lhe dar uma ideia, em média, temos cerca de 10 doutorados e 20 a 30 mestrados em ambiente industrial e que decorrem em simultâneo. E a maioria destes doutorados e mestres acabam por ficar na Hovione depois de concluírem os seus trabalhos, integrando as áreas onde fizeram a sua investigação. E são, digamos, um reflexo desta colaboração com a academia, que tem sido uma peça-chave na nossa capacidade de inovar, mas também na capacidade de atrair e reter este talento altamente qualificado.

NF: Muito bem, Filipe Gaspar, José Luís Santos, muito obrigado por nos mostrarem que por detrás de cada medicamento existe, de facto, um enorme trabalho de ciência, inovação e também de talento. E muitas vezes são tecnologias invisíveis como esta, do spray drying, que falamos um pouco mais em pormenor hoje, que fazem a diferença na vida de milhões de pessoas.

Fica por aqui o terceiro episódio de "A Próxima Descoberta". Na próxima semana, damos o passo seguinte. Vamos descobrir como é que a Hovione desafiou a tradição da indústria ao introduzir a produção contínua de comprimidos. 

Para ouvir este e os restantes episódios, estão disponíveis em observador.pt ou nas plataformas habituais de podcasts. Até à próxima descoberta!

 

Ouça este episódio em Observador.pt

 

 

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O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. De antibióticos difíceis de produzir a terapias inovadoras, a Hovione usa química complexa e sustentável para levar medicamentos seguros a doentes em todo o mundo. Ouça aqui o segundo episódio do podcast, com Rui Loureiro, cientista na Hovione. [Transcrição] E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A Próxima Descoberta". Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao podcast "A Próxima Descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas de uma multinacional farmacêutica de origem portuguesa para contar histórias reais de ciência, inovação e impacto global. Eu sou o Nelson Ferreira e se no primeiro episódio conhecemos a história da cave onde tudo começou há mais de 65 anos, hoje vamos perceber o que se faz dentro desta empresa. Vamos falar de química complexa, porque é na química que começa a jornada de muitos medicamentos que passam pela Hovione. Vamos descobrir como a ciência laboratorial se transforma em processos industriais, como a sustentabilidade faz parte desta transformação e como tudo isto contribui para produzir medicamentos que ajudam, de facto, a melhorar e salvar vidas. Para nos guiar nesta viagem, recebo hoje Rui Loureiro, é cientista do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione. Olá, Rui. Bem-vindo à Rádio Observador. NF: Rui, a maioria das pessoas pode nunca ter ouvido falar da Hovione, mas pode estar a tomar um medicamento onde a Hovione teve um papel importante. Onde é que vocês entram exatamente nesta longa viagem que leva um medicamento até ao doente? Rui Loureiro (RL): Olá, Nelson. Bom dia. Nelson, obrigado pela pergunta. Realmente, o caminho para um medicamento chegar a um paciente é longo e começa com uma primeira produção de uma pequena quantidade de um fármaco, que depois, com o seu normal desenvolvimento, vai acabar por precisar de quilos. Se pudermos utilizar aqui um exemplo, que eu gosto muito de exemplos, imaginemos se estivemos a fazer uma bolacha ou quando vamos comprar umas bolachas ao supermercado, alguém teve que fazer primeiro a primeira dose de bolachas no seu forno, em casa, mas depois precisa de um parceiro para levar essas bolachas a uma escala industrial. Precisa de uma fábrica, exatamente. E portanto, é aí que a Hovione entra. A Hovione é esse parceiro para a indústria farmacêutica, para tornar a primeira bolacha em muitas bolachas que chegam depois aos pacientes. NF: Para quem nos está a ouvir e não é desta área, na gíria da indústria farmacêutica fala-se muito de APIs. Eu próprio tive de ir pesquisar o que são. O que é isto, afinal, e por que a Hovione se focou tanto nestes componentes, um bocadinho quase desde o início da sua atividade? RL: Certo. É verdade que o API existe em várias ciências, existe este acrônimo. E para a informática é uma coisa completamente diferente. Na indústria farmacêutica, API, traduzido à letra, é Active Pharmaceutical Ingredient, ou em português, é o princípio ativo que trata, que cura a doença. E estes princípios ativos, para exemplificar aqui também seguindo a bolacha, quando nós fazemos uma bolacha de chocolate, a bolacha de chocolate tem vários componentes, como a manteiga, a farinha e tem o chocolate, que é um bocadinho que dá o nome à bolacha e que é aquilo pelo qual a gente compra a bolacha. E o API é, num fármaco, exatamente isso. É uma pequena quantidade que está lá e que permite que nós tratemos as pessoas. Apesar de que, quando nós fazemos o comprimido, o comprimido tem vários componentes, várias substâncias. Portanto, imaginemos quando nós temos 10 mg de um medicamento que trata, porque são essas 10 mg, fazer um comprimido dessas 10 mg é difícil. Portanto, é necessário adicionar essas substâncias, esses componentes, para criar o comprimido. NF: Rui, durante muitos anos, a Hovione especializou-se também em medicamentos genéricos complexos. Como é que essa experiência permitiu dar o salto para trabalhar com empresas que estão a desenvolver medicamentos completamente novos? RL: Ora, foi um passo muito importante. Por quê? Porque o desenvolvimento de genéricos complexos, e o que isto quer dizer? Quer dizer que a química para os preparar, para os produzir, é complexa, requer muitas coisas, requer, por exemplo, uma temperatura ou muito baixa, ou requer a utilização de condições controladas que quando se podem produzir dois tipos de produto, acabamos por produzir apenas aquele que nós queremos e não aquele que a gente não quer. E essas competências para fazer esses antibióticos e outros materiais que nós fizemos no início, que o engenheiro Villax fez no início, levou a que o mercado reconhecesse essas competências. Essas competências são úteis para qualquer fabricante de fármacos, porque a química acabamos por fazer as mesmas reações, juntando peças diferentes. Portanto, como juntamos peças diferentes, se há alguém que demonstrou que conseguimos fazer essa montagem das peças mais difíceis, o mercado vai nos reconhecer. E foi assim que nos levou a que nós passássemos a ser reconhecidos no mercado como alguém que tem as competências certas para produzir fármacos complexos. NF: Eu fiquei curioso com esta determinação da química complexa. O Rui até quando preparávamos este programa costuma fazer essa comparação curiosa, que já fez aqui também entre a química e a culinária, se a química é como a cozinha, o que é que distingue essa química tradicional da chamada química complexa que vocês fazem na Hovione? RL: Eu vou fazer já um disclaimer para os químicos que nos estiverem a ouvir, porque vou simplificar e estou a tentar simplificar a mensagem, porque aquilo que distingue a química complexa tem a ver com os reagentes, os solventes que nós utilizamos. Ou seja, os materiais de partida, por vezes, podem não ser fáceis de transformar no produto que nós queremos. Podem requerer condições muito específicas. E às vezes o produto que se obtém também não é muito estável e, portanto, é preciso também condições muito cuidadas. Mas recorrendo à culinária, se quisermos, a química simples é quase como preparar uma gelatina. Pegamos em pó, colocamos em água quente, arrefece e temos uma gelatina. Uma química complexa é mais como fazer um gelado de leite, que é bastante mais complexo, que requer um processo bastante mais complicado, que nós normalmente em casa até se calhar fazemos gelatina, um gelado, se calhar contratamos alguém especialista para nos dar o gelado. NF: Claro. Há aqui um outro desafio que me fascina no vosso trabalho. No laboratório, o Rui e a sua equipa desenvolvem processos à escala de miligramas ou gramas, mas depois a fábrica tem que produzir isto em toneladas. Como é que se passa de uma escala de uma colher de chá para a escala de um caminhão sem estragar a receita? Este deve ser o grande desafio. RL: É, sem dúvida, Nelson, o grande desafio que nós temos todos os dias e que nos faz ter uma equipa multidisciplinar, porque nós para passarmos das miligramas para as toneladas, temos que conhecer muito bem as variáveis todas que são envolvidas no processo de produção. Para dar uma ideia, quando aquele primeiro chef que eu falei há pouco das bolachas de chocolate faz a sua primeira bolacha, utiliza uma varinha e um recipiente. Agora, quando nós queremos fazer toneladas, não basta uma colher de pau maior e uma taça maior. É preciso realmente conhecer os equipamentos que nos permitem fazer esses produtos. Esses equipamentos têm variáveis, que nós, como equipa multidisciplinar, desde químicos, engenheiros, químicos analíticos, uma equipa mesmo muito grande, vai estudar todas as variáveis que podem ter impacto na qualidade do produto final. E para dar uma ideia, num processo químico, tipicamente temos quatro ou cinco passos que são feitos para a nível GMP, e aqui são as boas práticas de produção. E isso garante a qualidade dos produtos. E nós, num processo químico, temos quatro ou cinco passos desses. E para o Nelson ter uma ideia: tem uma ideia de quantas variáveis nós teremos que controlar? NF: Não faço ideia. Mas devem ser mais do que três ou quatro. RL: São. A nossa experiência, mostra-nos que a média são 350 variáveis, que num processo de quatro a cinco passos têm que ser conhecidas e têm que ser controladas para garantir que a qualidade do produto final está dentro dos parâmetros que nós precisamos para dar aos pacientes. NF: Rui, quando se fala de química, ainda muitas pessoas poderão associar algo negativo, mas a Hovione tem vindo a desenvolver e implementar abordagens que são, de facto, mais sustentáveis. O que é, na prática, fazer química de forma mais sustentável nesta indústria farmacêutica? RL: Fazer a química de forma mais sustentável é uma preocupação diária. Nós desenhamos os processos químicos tendo em conta a sustentabilidade desde o início. Ou seja, nós temos sempre o objetivo de produzir produtos com qualidade e em segurança, mas queremos também que eles sejam feitos de forma sustentável. E para isso, nós seguimos muito os princípios da química verde desde o início. Ou seja, se podemos evitar reagentes ou solventes, ou materiais que tenham impactos ambientais prejudiciais, nós tentamos evitar a sua utilização. Senão, depois utilizamos os quatro Rs, que é tentar reduzir, reciclar ou reutilizar. Isso é o princípio básico que a Hovione já faz há muitos anos. No entanto, estamos a olhar para formas ainda mais diretamente aplicáveis. E aqui, dando um exemplo, por exemplo, das tintas, nós nos anos 80, 90, tínhamos tintas que eram à base de solventes orgânicos diluentes. E a indústria das tintas mudou para solventes ou tintas à base d'água. E nós estamos também a seguir um caminho semelhante, porque estamos também a fazer química em água. E alguns dos meus colegas têm estado a trabalhar muito afincadamente em utilizar a água inspirada na natureza para fazer as reações químicas. Isto é importante porque vai permitir substituir os solventes orgânicos, os diluentes que nós utilizamos, por água, que naturalmente vão baixar a pegada carbônica dos nossos processos químicos, porque utilizando um solvente orgânico, tem uma pegada carbónica maior do que a água. E para além dessa química micelar, nós também olhamos para tecnologias como química de fluxo, química que permite, com uma menor pegada, intensificar aquilo que nós produzimos. E ao intensificarmos, conseguimos ter menos resíduos e conseguimos produzir mais do nosso produto. E uma última que eu gostava de mencionar, que é algo muito exploratório, mas que é ainda um passo mais à frente, que é: se estávamos em água, por que não tentar fazer reações químicas sem água? E estamos também a olhar para essa tecnologia, que de uma forma muito simples, é quase como pegar em especiarias, num pilão e tentar misturá-las para dar uma nova mistura, um novo sabor. Aqui estamos a tentar fazer produtos novos e portanto, essas são tecnologias, entre outras, que estamos a olhar para fazer o desenvolvimento de fármacos mais sustentáveis. NF: Muito bem. Para terminarmos, Rui, o Rui está neste centro de investigação e desenvolvimento, onde a inovação acontece todos os dias. Olhando aqui um bocadinho para o futuro, a química vai continuar a ser a nossa melhor arma para salvar vidas e de forma cada vez mais sustentável? RL: A minha resposta é claramente que sim, e é isso que me faz levantar todos os dias da cama para ir trabalhar. Porque nós sabemos que a utilização da inteligência artificial vai ter um grande impacto e já está a ter um impacto, porque ajuda a identificar os alvos nos nossos organismos e a desenhar as moléculas que se vão encaixar perfeitamente no alvo que queremos tratar. Mas depois ainda vai ser preciso produzir esse fármaco. E para produzir esse fármaco, a química estará lá. Será a base para fazer esse fármaco, para alterar, para fazer fármacos ligeiramente diferentes e que são melhores. E, portanto, eu diria que sim, há aqui um espaço para a inovação, sendo sustentável, e é um princípio que nós temos e que já temos vindo a seguir e que esperamos continuar a seguir. NF: Rui Loureiro, cientista da Hovione, muito obrigado por nos ajudar aqui a descomplicar a química e por nos mostrar este lado mais verde da ciência. Este foi o segundo episódio de "A Próxima Descoberta". Fica por aqui, mas nas próximas semanas vamos continuar a explorar este universo e já no próximo episódio vamos olhar para o futuro e saber mais sobre a engenharia de partículas. Pode ouvir todos os episódios em observador.pt e subscrever também este podcast na sua plataforma de podcasts. Até à próxima descoberta. Ouça este episódio em Observador.pt    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP2) - Química complexa, impacto real

Jun 25, 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Como é que uma pequena empresa numa cave em Lisboa se tornou um dos maiores empregadores de doutorados em Portugal e parceira de 19 das 20 maiores farmacêuticas do mundo? Ouça aqui o primeiro episódio do podcast, com Diane Villax, cofundadora da Hovione. [Transcrição] E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Seja bem-vindo a "A Próxima Descoberta". É uma série de conversas numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione uma multinacional farmacêutica de origem portuguesa, e onde vamos abrir as portas do seu mundo para nos contar histórias reais de ciência, inovação e impacto global. Ao longo de seis episódios, vamos conhecer as pessoas por trás de tecnologias que ajudam a desenvolver e a produzir medicamentos inovadores para as maiores farmacêuticas mundiais e que chegam todos os anos a mais de 80 milhões de doentes. Eu sou o Nelson Ferreira e neste primeiro episódio vamos perceber como é que uma história improvável, que começou numa cave em Lisboa, se transformou numa liderança global. E para falar sobre esse legado, tenho a honra de receber Diane Villax. É cofundadora e administradora não-executiva da Hovione, que aos 91 anos continua a ser uma testemunha viva desta viagem. Nelson Ferreira (NF): Muito bem-vinda, D. Diane Villax. Vamos começar a nossa conversa em 1959. A Hovione nasce de forma improvável numa cave em Lisboa, fundada pelo seu marido, Ivan Villax, pela Diane e mais dois sócios. Como é que se geriu uma vida familiar e ao mesmo tempo o nascimento de uma empresa farmacêutica, tudo no mesmo espaço? Imagino que tenha causado aqui alguns desafios logísticos interessantes. Diane Villax (DV): Desde o início, decidimos que iríamos fabricar matéria-prima para a indústria farmacêutica, isto é, os ingredientes ativos dos medicamentos. Não tínhamos dinheiro, portanto, teria que ser a partir da nossa casa, que era um bairro residencial de Lisboa. Desde logo, dividimos as tarefas. O meu marido, brilhante engenheiro químico húngaro, ficaria o inventor, o produtor, o vendedor, e eu ficava com toda a parte administrativa: importações, exportações, contabilidade, bancos. Tarefas essas que mantive durante pelo menos 30 anos. Simultaneamente, também pensámos nos valores que iriam nos dirigir durante este longo período: transparência, inovação, procura de excelência e grande consideração para quem viesse trabalhar conosco através dos anos. NF: Logo no início, o seu marido definiu bem que a Hovione não ia competir pelo preço baixo, mas sim pela qualidade e por resolver problemas complexos. Como é que foi aplicar este princípio de rigor quando os recursos ainda eram escassos? Até porque desde o primeiro dia, o vosso objetivo sempre me pareceu que era global. O mundo seria o vosso mercado. DV: Desde o início achámos que Portugal, uma população de 10 milhões de habitantes, não seria um mercado muito significativo e que o mundo seria o nosso. Talvez um pouco naïves, porque iríamos entrar num mercado global já bastante sofisticado. Mas a decisão foi tomada e andámos para a frente. Andámos para a frente e tivemos a sorte que rapidamente o Japão nos descobriu. Veio bater à nossa porta, porque obviamente nós não tínhamos meios para ir bater à porta deles, mas eles naquela altura não fabricavam, só formulavam, portanto, precisavam de comprar matérias-primas. O meu marido tinha patentes de invenção de processos independentes e houve grandes conversas. Eles acharam que a nossa tecnologia era boa, o nosso IP era muito robusto e a nossa qualidade excelente. Iniciou-se uma cooperação que durou 10, 15 anos, muito lucrativa para ambas as partes, bem me parece. NF: Nos anos 80 e 90, a Hovine dá uma espécie de salto mais importante. Quais é que foram as decisões, as apostas tecnológicas ou até os momentos de maior coragem que permitiram transformar esta pequena empresa portuguesa numa multinacional de referência? DV: Em 1982, após uma inspeção satisfatória da parte da FDA, entidade reguladora dos Estados Unidos da América, entrámos no mercado americano com o nosso antibiótico doxiciclina genérico. A patente do inventor já tinha caducado e nós tínhamos um processo independente de fabrico. Um mercado enorme, exigente, competitivo, mas que respeita o bom serviço e a qualidade. E foi de facto um grande salto, pois é um mercado tão grande que nós não tínhamos a noção do que iria ser, e a procura foi bem maior do que nós conseguíamos produzir. Lembro-me, deve ter sido o verão de 83, deve ter havido muita gente que teve que guardar as suas férias para o outono ou para o inverno, porque falhar com os prazos de entrega não era opção. Posteriormente, nos anos 90, lançámo-nos num novo setor de negócios, que são os serviços. Descobrimos que as grandes farmacêuticas americanas, bem como as pequenas biotechs, estavam cada vez mais inclinadas a outsource o trabalho de desenvolvimento das novas moléculas, pois é um período muito comprido, que pode durar de quatro a seis, 10 anos O processo de desenvolvimento das novas moléculas antes de chegarem a serem reguladas pelas entidades e a ficar um produto comercial. E então começamos a oferecer esse serviço de desenvolvimento, que correu muito bem. Daí desenvolvemos novas tecnologias, o chamado spray drying, para moléculas que fossem pouco solúveis, porque assim aumentaria muito a bioequivalência dos mesmos. E hoje em dia é o nosso maior setor, é esse setor dos serviços. NF: A Hovione trabalha hoje com 19 das 20 maiores farmacêuticas do mundo. Como é que se mantém um espírito ágil, um espírito pioneiro que nasceu nessa cave, mas hoje é uma estrutura com 2600 colaboradores, mais de 300 cientistas, tornou-se até o maior empregador privado de doutorados em Portugal. DV: Pois, a agilidade tem que se manter. Por exemplo, agora quando foi da pandemia, de repente nós recebemos encomendas grandes, não esperadas, para fabricar um componente do Remdesivir, que foi o produto que foi autorizado para ajudar os doentes de Covid. Portanto, a agilidade tem que se manter e mantemos sempre a nossa qualidade e hoje em dia, com 60 e tal anos de história, os clientes vêm ter conosco, pois sabem que podem contar com a nossa qualidade e a nossa responsabilidade de produzir e entregar a tempo e horas o que eles encomendam. NF: Há aqui um outro número impressionante. Os vossos produtos chegam a 80 milhões de pessoas por ano e a Hovione participa em até 10% dos novos medicamentos que são aprovados anualmente pela FDA nos Estados Unidos. Quando olha para este impacto, sente que esse sonho de 1959 foi totalmente cumprido? DV: Eu acho que foi ultrapassado e muito, porque nós quando formamos a Hovione, o meu marido, que era um cientista, queria era ter o seu próprio laboratório, mas nunca imaginou que desenvolveríamos de tal maneira como hoje em dia somos procurados pelas grandes farmacêuticas internacionais e que vêm ter conosco frequentemente. NF: Esta é uma série sobre ciência, mas também é sobre pessoas. E o rigor, a ética e a visão de longo prazo que a Diane sempre imprimiu na gestão continuam lá na Hovione. Que mensagem é que deixa aos cientistas que hoje entram na Hovione com a missão de encontrar a próxima descoberta? Pelo que percebi, a Diane faz questão de os receber sempre que eles entram na empresa. DV: Sim, quatro vezes por ano, duas vezes em inglês, duas vezes em português, eu falo aos recém-chegados à Hovione, contando muito resumidamente qual foi o nosso percurso, quais são os nossos valores, os nossos objetivos, os sonhos, quais foram os desafios que encontrámos, como ultrapassámos para chegar aos dias de hoje. E eu recomendo sempre que quem entra nesta casa tem que trabalhar com paixão. Tem que trabalhar com paixão e lembrar sempre que o nosso trabalho é produzir medicamentos para quem deles precisa. Temos o privilégio de servir os pacientes. Somos uma empresa que trabalha para a sociedade. Eu acho que o "In it for life", que é o nosso lema, tem muito a ver connosco, porque estamos cá há 67 anos como uma empresa familiar e assim pensamos continuar por muitos e bons. Sobretudo no setor da saúde, há muita vantagem, porque podemos olhar a longo prazo, não temos que pensar nas ações da bolsa a cada trimestre, como têm que as empresas públicas. E, por outro lado, estamos cá justamente para dar vida a quem dela precisa. "In it for life". NF: Aos 91 anos, como é que a própria Diane também mantém essa paixão e faz planos a longo prazo? DV: Porque eu fui fundadora desta empresa, vejo-a progredir e a desenvolver com sucesso, portanto, é uma alegria para mim e tenho uma família grande que vem atrás de mim. Tenho seis netos e sete bisnetos e eu espero deixar a empresa para eles continuarem como eu a geri. NF: Isso é muito inspirador. D. Diane Vilax, muito obrigado por nos trazer as memórias e a inspiração deste legado que continua bem vivo. Foi um privilégio. Este foi o primeiro capítulo de "A Próxima Descoberta". Nas próximas semanas, vamos continuar a abrir as portas da Hovione para descobrir como é que o talento português lidera o mundo da química complexa à engenharia de partículas, das terapias respiratórias aos medicamentos biológicos de nova geração. Podem ouvir os próximos episódios em observador.pt e na sua plataforma habitual de podcasts. Até à próxima descoberta.   Ouça este episódio em Observador.pt    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP1) - Da cave em Lisboa ao impacto global

Jun 18, 2026

Num momento de crescimento global, a Hovione quer afirmar de forma mais clara aquilo que a distingue enquanto empregadora. À medida que a competição por talento se intensifica à escala global, as empresas são cada vez mais desafiadas a demonstrar, com autenticidade, aquilo que têm para oferecer enquanto empregadoras. Foi neste enquadramento que a Hovione decidiu apresentar externamente a sua proposta de valor ao colaborador, num momento marcado pelo crescimento internacional e pela necessidade de atrair perfis altamente especializados. Em entrevista à Human Resources, Ilda Ventura, senior vice-president Human Resources e membro da Comissão Executiva da Hovione, explica o racional desta estratégia e a forma como a cultura da empresa procura equilibrar exigência, propósito e foco nas pessoas. O que torna este o momento certo para o lançamento externo da employee value proposition (EVP) da Hovione? A Hovione vive uma fase de forte crescimento e consolidação da sua presença internacional, o que implica atrair talento em diferentes geografias e áreas de especialização. Hoje, somos uma organização global com mais de 2600 pessoas, presença em três continentes, cinco unidades de produção na Europa, Estados Unidos da América e Ásia, e centros de I&D em Lisboa e New Jersey. Tornou-se, por isso, essencial comunicar de forma clara quem somos enquanto empregador e aquilo que nos distingue no mercado de talento. “Better Starts With”, a assinatura da nossa campanha, traduz essa essência e nasceu de um processo muito consistente de escuta e reflexão interna. Ao longo dos últimos anos, procurámos compreender melhor o que torna a experiência na Hovione diferente e o que leva tantas pessoas a crescer e a construir aqui o seu percurso. O resultado foi uma proposta autêntica, alinhada com a nossa cultura e com a forma como trabalhamos: fazer as coisas certas, da forma certa, e procurar melhorar todos os dias. Como é que a “Better Starts With” se distingue de outras propostas de valor no mercado? A “Better Starts With” assenta em autenticidade e coerência. Não é uma promessa aspiracional desconectada da realidade, mas sim a partir daquilo que as nossas pessoas reconhecem como sendo a experiência real de trabalhar na Hovione. A campanha traduz uma cultura muito própria, construída ao longo de mais de 65 anos de história, assente num forte sentido de responsabilidade, rigor e colaboração. Acreditamos em fazer as coisas certas, da forma certa, porque o impacto do nosso trabalho vai muito além da organização. Contribuímos directamente para o desenvolvimento e fabrico de medicamentos que chegam a mais de 80 milhões de pacientes em todo o mundo e participamos, todos os anos, em até 10% dos novos medicamentos aprovados pela FDA nos Estados Unidos da América. Esse sentido de propósito é vivido de forma muito concreta pelas nossas equipas. Ao mesmo tempo, “Better Starts With” reconhece que a excelência só é possível quando existe um ambiente que promove o crescimento, a aprendizagem contínua, a inclusão e a colaboração entre pessoas de diferentes gerações, nacionalidades e áreas de especialização. Trabalhamos com algumas das empresas farmacêuticas mais inovadoras do mundo, contamos com mais de 300 cientistas e somos a empresa privada com mais doutorados em Portugal. Esse ambiente altamente especializado cria uma experiência muito diferenciadora para quem procura aprender e crescer. O que é que “People First” significa numa empresa com a exigência operacional e científica da Hovione? “People First” significa reconhecer que são as pessoas que tornam possível a excelência que exigimos e entregamos e, portanto, são uma prioridade estratégica para continuarmos a ser um parceiro diferenciador na indústria farmacêutica – trabalhamos com 19 das 20 maiores empresas farmacêuticas do mundo. Num contexto altamente técnico e exigente, isso traduz-se em criar as condições certas para que todos possam ter sucesso. Sabemos que só conseguimos inovar, crescer e responder aos desafios complexos dos nossos clientes quando temos equipas motivadas, capacitadas e alinhadas com a nossa cultura e valores. Não se trata de escolher entre pessoas e resultados, mas de entender que um não existe sem o outro. Quando há tensão entre prioridades de negócio e foco nas pessoas, que decisões acabam por prevalecer? Como referi, na Hovione não vemos as pessoas e os resultados como prioridades opostas. Acreditamos genuinamente que não é possível alcançar de forma consistente as prioridades de negócio sem equipas motivadas, capacitadas e comprometidas. Por isso, quando surgem momentos de maior pressão ou tensão, procuramos tomar decisões equilibradas e sustentáveis, que protejam simultaneamente o desempenho do negócio e a experiência das nossas pessoas. A nossa experiência mostra-nos que investir nas pessoas conduz a melhores resultados no médio e longo prazo. Isso não significa reduzir a exigência. Somos uma empresa com elevados padrões científicos e operacionais. Significa reconhecer que a forma como alcançamos os resultados é tão importante como os próprios resultados. Que exemplos do dia-a-dia melhor traduzem esta EVP? O que mudou em termos de envolvimento das pessoas, retenção ou inovação? A EVP ganha vida através de práticas muito concretas e da experiência diária das nossas pessoas. Investimos continuamente no desenvolvimento e crescimento interno: por exemplo, só no último ano, mais de 200 colaboradores foram promovidos globalmente, num modelo assente em meritocracia e transparência. Também reforçámos uma cultura de proximidade, reconhecimento e bem-estar, com benefícios abrangentes e um modelo de recompensa alinhado com o desempenho individual e colectivo, onde todos são elegíveis. Em 2025, distribuímos cerca de 20 milhões de euros em bónus a nível global. Os resultados reflectem-se no envolvimento e retenção das nossas equipas. Fomos reconhecidos pelo Top Employers Institute em todas as localizações pelo quarto ano consecutivo e atingimos uma taxa de turnover voluntário historicamente baixa, de 5%, uma das mais reduzidas da indústria. Mais do que números, isto mostra que estamos a criar um ambiente onde as pessoas se sentem valorizadas, desafiadas e motivadas para inovar e crescer connosco. A EVP vem também clarificar esta proposta de valor de uma forma unificada internamente. Existiram iniciativas que nasceram numa geografia e se espalharam depois pela organização? O que tornou isso possível? Sim, isso acontece com bastante frequência e é, na verdade, um reflexo da nossa cultura colaborativa e global. Temos inclusive um programa interno que reconhece e premeia as melhores ideias dos nossos colaboradores a cada trimestre. Outro exemplo mais simbólico é o “Bring Your Child to Work Day”. A iniciativa nasceu na nossa unidade de New Jersey, nos Estados Unidos da América, com o objectivo de aproximar as famílias daquilo que fazemos através de experiências educativas e interactivas para os filhos dos colaboradores. A receptividade foi tão positiva que acabou por ser adaptada e replicada noutras geografias. O mais importante é precisamente essa abertura para aprender uns com os outros. As boas ideias não ficam “presas” a uma localização, quando fazem sentido e geram impacto positivo na experiência das pessoas procuramos escalá-las e adaptá-las à realidade das diferentes equipas. Quando a Hovione entra num novo mercado, como garante que a mensagem chega a pessoas que nunca ouviram falar da empresa? Começamos por procurar compreender muito bem o contexto local, o talento disponível, as expectativas das pessoas, o ambiente académico e industrial e a dinâmica competitiva. Apostamos bastante na proximidade, através de parcerias com universidades, participação em eventos, redes locais de talento e uma presença mais activa junto das comunidades onde operamos. Ao mesmo tempo, é muito importante manter uma mensagem global clara e consistente sobre quem somos enquanto empresa e empregador. A EVP ajuda-nos precisamente nisso, porque traduz de forma simples e autêntica aquilo que define a experiência na Hovione. Embora a notoriedade da marca possa variar entre geografias, aquilo que oferecemos é muito diferenciador: a possibilidade de trabalhar numa empresa global, altamente inovadora, envolvida no desenvolvimento e fabrico de medicamentos que chegam a milhões de pacientes, que trabalha com as maiores empresas farmacêuticas do mundo. Para muitas pessoas, essa combinação entre impacto, ciência e oportunidade de crescimento acaba por ser muito relevante. Que adaptações locais foram necessárias e o que é que nunca muda, independentemente da geografia? Adaptamos sobretudo a forma como implementamos as nossas práticas e iniciativas, tendo em conta a cultura, o contexto local, a legislação e até as diferentes dinâmicas do mercado de talento em cada geografia. É importante garantir que a experiência é relevante e próxima da realidade de cada equipa. Mas há princípios que nunca mudam. O foco nas pessoas, a integridade, a qualidade, a colaboração e o sentido de responsabilidade fazem parte da identidade da Hovione em qualquer parte do mundo. E existe também algo que une verdadeiramente as nossas equipas globalmente: a consciência de que o nosso trabalho tem um impacto real na vida de milhões de pessoas. Isso transcende geografias e culturas. Tendo a seu cargo a área global de RH, considera que a sua actuação na Comissão Executiva fortalece o conceito “People First”? Sem dúvida. Ter a função de Recursos Humanos representada na Comissão Executiva assegura que a perspectiva das pessoas está presente desde o início em todas as decisões estratégicas. Permite alinhar crescimento, cultura e sustentabilidade de forma mais equilibrada. É uma garantia de que as pessoas são um activo muito importante e têm um papel central na estratégia do negócio. Existem casos concretos em que a perspectiva de colaboradores foi determinante numa decisão estratégica? Sim, cada vez mais. Acreditamos que as melhores decisões acontecem quando ouvimos quem está mais próximo da realidade do dia-a-dia e, numa indústria científica e produtiva tão exigente como a nossa, esse contributo é particularmente importante. Temos várias iniciativas internas que incentivam e reconhecem a participação activa das nossas pessoas na evolução da organização. Um exemplo são os Global Innovation Awards, que distinguem ideias e inovações propostas pelos colaboradores em áreas tão diversas como ciência, produção, sustentabilidade, digitalização ou melhoria de processos. Algumas das iniciativas que implementámos na área da sustentabilidade, por exemplo, nasceram precisamente de sugestões das nossas equipas e acabaram por gerar um impacto muito relevante para a organização. Isso reforça a importância de construirmos uma cultura onde as pessoas se sintam verdadeiramente ouvidas, valorizadas e encorajadas a contribuir. Em áreas técnicas e científicas, a diversidade de perfis ainda tende a ser algo limitada. Como é que abordam este tema e como se reflecte isso na EVP? Abordamos este tema de forma muito intencional porque acreditamos que equipas mais diversas geram melhores ideias, maior inovação e decisões mais fortes, algo essencial numa empresa científica e tecnológica como a Hovione. Trabalhamos este tema desde o recrutamento até ao desenvolvimento e progressão das nossas pessoas, promovendo processos transparentes e uma cultura inclusiva, onde diferentes experiências e perspectivas são valorizadas. Hoje, contamos com mais de 60 nacionalidades e cinco gerações a trabalhar em conjunto, além de uma forte representação feminina em posições de liderança e um gender pay gap praticamente inexistente. A nossa EVP reflecte precisamente esse compromisso. Com o crescimento acelerado da Hovione, como é que garantem que a cultura se mantém coesa? Manter uma cultura forte e coesa é uma prioridade estratégica. Sabemos que isso não acontece de forma automática, exige intencionalidade, consistência e liderança alinhada. Por isso, investimos muito no desenvolvimento das nossas lideranças, na comunicação interna e em mecanismos que reforçam o alinhamento global entre as equipas e as funções. A EVP tem aqui um papel muito importante, porque funciona como uma referência comum sobre a forma como trabalhamos, colaboramos e tomamos decisões enquanto organização. Ao mesmo tempo, procuramos garantir que a cultura é vivida de forma concreta no dia-a- -dia, desde a forma como recrutamos e integramos novas pessoas até às oportunidades de desenvolvimento, reconhecimento e crescimento que oferecemos às nossas equipas globalmente.   Leia o artigo completo em HRPortugal.pt    

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Hovione: Crescer sem perder o foco nas pessoas

Jun 09, 2026