Notícias

Article / Jun 09, 2026

Hovione: Crescer sem perder o foco nas pessoas

Human Resources Portugal, 9 junho 2026

Num momento de crescimento global, a Hovione quer afirmar de forma mais clara aquilo que a distingue enquanto empregadora.

À medida que a competição por talento se intensifica à escala global, as empresas são cada vez mais desafiadas a demonstrar, com autenticidade, aquilo que têm para oferecer enquanto empregadoras. Foi neste enquadramento que a Hovione decidiu apresentar externamente a sua proposta de valor ao colaborador, num momento marcado pelo crescimento internacional e pela necessidade de atrair perfis altamente especializados. Em entrevista à Human Resources, Ilda Ventura, senior vice-president Human Resources e membro da Comissão Executiva da Hovione, explica o racional desta estratégia e a forma como a cultura da empresa procura equilibrar exigência, propósito e foco nas pessoas.

O que torna este o momento certo para o lançamento externo da employee value proposition (EVP) da Hovione?

A Hovione vive uma fase de forte crescimento e consolidação da sua presença internacional, o que implica atrair talento em diferentes geografias e áreas de especialização. Hoje, somos uma organização global com mais de 2600 pessoas, presença em três continentes, cinco unidades de produção na Europa, Estados Unidos da América e Ásia, e centros de I&D em Lisboa e New Jersey. Tornou-se, por isso, essencial comunicar de forma clara quem somos enquanto empregador e aquilo que nos distingue no mercado de talento.

“Better Starts With”, a assinatura da nossa campanha, traduz essa essência e nasceu de um processo muito consistente de escuta e reflexão interna. Ao longo dos últimos anos, procurámos compreender melhor o que torna a experiência na Hovione diferente e o que leva tantas pessoas a crescer e a construir aqui o seu percurso. O resultado foi uma proposta autêntica, alinhada com a nossa cultura e com a forma como trabalhamos: fazer as coisas certas, da forma certa, e procurar melhorar todos os dias.

Como é que a “Better Starts With” se distingue de outras propostas de valor no mercado?

A “Better Starts With” assenta em autenticidade e coerência. Não é uma promessa aspiracional desconectada da realidade, mas sim a partir daquilo que as nossas pessoas reconhecem como sendo a experiência real de trabalhar na Hovione.

A campanha traduz uma cultura muito própria, construída ao longo de mais de 65 anos de história, assente num forte sentido de responsabilidade, rigor e colaboração. Acreditamos em fazer as coisas certas, da forma certa, porque o impacto do nosso trabalho vai muito além da organização. Contribuímos directamente para o desenvolvimento e fabrico de medicamentos que chegam a mais de 80 milhões de pacientes em todo o mundo e participamos, todos os anos, em até 10% dos novos medicamentos aprovados pela FDA nos Estados Unidos da América. Esse sentido de propósito é vivido de forma muito concreta pelas nossas equipas.

Ao mesmo tempo, “Better Starts With” reconhece que a excelência só é possível quando existe um ambiente que promove o crescimento, a aprendizagem contínua, a inclusão e a colaboração entre pessoas de diferentes gerações, nacionalidades e áreas de especialização. Trabalhamos com algumas das empresas farmacêuticas mais inovadoras do mundo, contamos com mais de 300 cientistas e somos a empresa privada com mais doutorados em Portugal. Esse ambiente altamente especializado cria uma experiência muito diferenciadora para quem procura aprender e crescer.

O que é que “People First” significa numa empresa com a exigência operacional e científica da Hovione?

“People First” significa reconhecer que são as pessoas que tornam possível a excelência que exigimos e entregamos e, portanto, são uma prioridade estratégica para continuarmos a ser um parceiro diferenciador na indústria farmacêutica – trabalhamos com 19 das 20 maiores empresas farmacêuticas do mundo. Num contexto altamente técnico e exigente, isso traduz-se em criar as condições certas para que todos possam ter sucesso. Sabemos que só conseguimos inovar, crescer e responder aos desafios complexos dos nossos clientes quando temos equipas motivadas, capacitadas e alinhadas com a nossa cultura e valores. Não se trata de escolher entre pessoas e resultados, mas de entender que um não existe sem o outro.

Quando há tensão entre prioridades de negócio e foco nas pessoas, que decisões acabam por prevalecer?

Como referi, na Hovione não vemos as pessoas e os resultados como prioridades opostas. Acreditamos genuinamente que não é possível alcançar de forma consistente as prioridades de negócio sem equipas motivadas, capacitadas e comprometidas. Por isso, quando surgem momentos de maior pressão ou tensão, procuramos tomar decisões equilibradas e sustentáveis, que protejam simultaneamente o desempenho do negócio e a experiência das nossas pessoas. A nossa experiência mostra-nos que investir nas pessoas conduz a melhores resultados no médio e longo prazo. Isso não significa reduzir a exigência. Somos uma empresa com elevados padrões científicos e operacionais. Significa reconhecer que a forma como alcançamos os resultados é tão importante como os próprios resultados.

Que exemplos do dia-a-dia melhor traduzem esta EVP? O que mudou em termos de envolvimento das pessoas, retenção ou inovação?

A EVP ganha vida através de práticas muito concretas e da experiência diária das nossas pessoas. Investimos continuamente no desenvolvimento e crescimento interno: por exemplo, só no último ano, mais de 200 colaboradores foram promovidos globalmente, num modelo assente em meritocracia e transparência. Também reforçámos uma cultura de proximidade, reconhecimento e bem-estar, com benefícios abrangentes e um modelo de recompensa alinhado com o desempenho individual e colectivo, onde todos são elegíveis. Em 2025, distribuímos cerca de 20 milhões de euros em bónus a nível global.

Os resultados reflectem-se no envolvimento e retenção das nossas equipas. Fomos reconhecidos pelo Top Employers Institute em todas as localizações pelo quarto ano consecutivo e atingimos uma taxa de turnover voluntário historicamente baixa, de 5%, uma das mais reduzidas da indústria. Mais do que números, isto mostra que estamos a criar um ambiente onde as pessoas se sentem valorizadas, desafiadas e motivadas para inovar e crescer connosco. A EVP vem também clarificar esta proposta de valor de uma forma unificada internamente.

Existiram iniciativas que nasceram numa geografia e se espalharam depois pela organização? O que tornou isso possível?

Sim, isso acontece com bastante frequência e é, na verdade, um reflexo da nossa cultura colaborativa e global. Temos inclusive um programa interno que reconhece e premeia as melhores ideias dos nossos colaboradores a cada trimestre. Outro exemplo mais simbólico é o “Bring Your Child to Work Day”. A iniciativa nasceu na nossa unidade de New Jersey, nos Estados Unidos da América, com o objectivo de aproximar as famílias daquilo que fazemos através de experiências educativas e interactivas para os filhos dos colaboradores. A receptividade foi tão positiva que acabou por ser adaptada e replicada noutras geografias. O mais importante é precisamente essa abertura para aprender uns com os outros. As boas ideias não ficam “presas” a uma localização, quando fazem sentido e geram impacto positivo na experiência das pessoas procuramos escalá-las e adaptá-las à realidade das diferentes equipas.

Quando a Hovione entra num novo mercado, como garante que a mensagem chega a pessoas que nunca ouviram falar da empresa?

Começamos por procurar compreender muito bem o contexto local, o talento disponível, as expectativas das pessoas, o ambiente académico e industrial e a dinâmica competitiva. Apostamos bastante na proximidade, através de parcerias com universidades, participação em eventos, redes locais de talento e uma presença mais activa junto das comunidades onde operamos. Ao mesmo tempo, é muito importante manter uma mensagem global clara e consistente sobre quem somos enquanto empresa e empregador. A EVP ajuda-nos precisamente nisso, porque traduz de forma simples e autêntica aquilo que define a experiência na Hovione.

Embora a notoriedade da marca possa variar entre geografias, aquilo que oferecemos é muito diferenciador: a possibilidade de trabalhar numa empresa global, altamente inovadora, envolvida no desenvolvimento e fabrico de medicamentos que chegam a milhões de pacientes, que trabalha com as maiores empresas farmacêuticas do mundo. Para muitas pessoas, essa combinação entre impacto, ciência e oportunidade de crescimento acaba por ser muito relevante.

Que adaptações locais foram necessárias e o que é que nunca muda, independentemente da geografia?

Adaptamos sobretudo a forma como implementamos as nossas práticas e iniciativas, tendo em conta a cultura, o contexto local, a legislação e até as diferentes dinâmicas do mercado de talento em cada geografia. É importante garantir que a experiência é relevante e próxima da realidade de cada equipa. Mas há princípios que nunca mudam. O foco nas pessoas, a integridade, a qualidade, a colaboração e o sentido de responsabilidade fazem parte da identidade da Hovione em qualquer parte do mundo. E existe também algo que une verdadeiramente as nossas equipas globalmente: a consciência de que o nosso trabalho tem um impacto real na vida de milhões de pessoas. Isso transcende geografias e culturas.

Tendo a seu cargo a área global de RH, considera que a sua actuação na Comissão Executiva fortalece o conceito “People First”?

Sem dúvida. Ter a função de Recursos Humanos representada na Comissão Executiva assegura que a perspectiva das pessoas está presente desde o início em todas as decisões estratégicas. Permite alinhar crescimento, cultura e sustentabilidade de forma mais equilibrada. É uma garantia de que as pessoas são um activo muito importante e têm um papel central na estratégia do negócio.

Existem casos concretos em que a perspectiva de colaboradores foi determinante numa decisão estratégica?

Sim, cada vez mais. Acreditamos que as melhores decisões acontecem quando ouvimos quem está mais próximo da realidade do dia-a-dia e, numa indústria científica e produtiva tão exigente como a nossa, esse contributo é particularmente importante. Temos várias iniciativas internas que incentivam e reconhecem a participação activa das nossas pessoas na evolução da organização. Um exemplo são os Global Innovation Awards, que distinguem ideias e inovações propostas pelos colaboradores em áreas tão diversas como ciência, produção, sustentabilidade, digitalização ou melhoria de processos.

Algumas das iniciativas que implementámos na área da sustentabilidade, por exemplo, nasceram precisamente de sugestões das nossas equipas e acabaram por gerar um impacto muito relevante para a organização. Isso reforça a importância de construirmos uma cultura onde as pessoas se sintam verdadeiramente ouvidas, valorizadas e encorajadas a contribuir.

Em áreas técnicas e científicas, a diversidade de perfis ainda tende a ser algo limitada. Como é que abordam este tema e como se reflecte isso na EVP?

Abordamos este tema de forma muito intencional porque acreditamos que equipas mais diversas geram melhores ideias, maior inovação e decisões mais fortes, algo essencial numa empresa científica e tecnológica como a Hovione. Trabalhamos este tema desde o recrutamento até ao desenvolvimento e progressão das nossas pessoas, promovendo processos transparentes e uma cultura inclusiva, onde diferentes experiências e perspectivas são valorizadas. Hoje, contamos com mais de 60 nacionalidades e cinco gerações a trabalhar em conjunto, além de uma forte representação feminina em posições de liderança e um gender pay gap praticamente inexistente. A nossa EVP reflecte precisamente esse compromisso.

Com o crescimento acelerado da Hovione, como é que garantem que a cultura se mantém coesa?

Manter uma cultura forte e coesa é uma prioridade estratégica. Sabemos que isso não acontece de forma automática, exige intencionalidade, consistência e liderança alinhada. Por isso, investimos muito no desenvolvimento das nossas lideranças, na comunicação interna e em mecanismos que reforçam o alinhamento global entre as equipas e as funções. A EVP tem aqui um papel muito importante, porque funciona como uma referência comum sobre a forma como trabalhamos, colaboramos e tomamos decisões enquanto organização. Ao mesmo tempo, procuramos garantir que a cultura é vivida de forma concreta no dia-a- -dia, desde a forma como recrutamos e integramos novas pessoas até às oportunidades de desenvolvimento, reconhecimento e crescimento que oferecemos às nossas equipas globalmente.

 

Leia o artigo completo em HRPortugal.pt

 

 

Também em Notícias

See All

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Dos hospitais às casas dos doentes, conheça as soluções que permitem administrar biológicos de alta dosagem com mais conforto, menos dor e maior liberdade no tratamento. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Ouça aqui o sexto e último episódio do podcast, com João Pires e Joana Cristovão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.   [Transcrição] Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao sexto e último episódio de "A próxima descoberta", uma série de podcasts em que a Hovione abre as portas do seu mundo para partilhar conosco o impacto global da inovação desenvolvida a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e ao longo desta viagem falamos de processos químicos, de partículas ultrafinas e de linhas de produção revolucionárias. Hoje olhamos diretamente para o futuro da medicina. Depois de explorarmos o mundo das pequenas moléculas, entramos agora numa nova dimensão terapêutica, a dos medicamentos biológicos, baseados em moléculas maiores e mais complexas, que estão a abrir novas possibilidades de tratamento de várias doenças. E para nos explicar como esta área está a evoluir e como a ciência pode tornar estes tratamentos mais eficazes, estáveis e acessíveis para os doentes, recebo o João Pires e a Joana Cristóvão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Muito bem-vindos a ambos. João, começaria por si. Para quem nunca ouviu falar deste termo, o que são afinal os medicamentos biológicos e o que os distingue dos medicamentos de pequenas moléculas, que são mais associados à química tradicional? João Pires (JP): Sim. Se pensarmos um bocadinho naquilo que podemos encontrar hoje em dia nas farmácias, é de facto verdade que a maioria desses medicamentos são compostos por essas pequenas moléculas, estruturas mais simples, ainda que eficazes, mas que nós conseguimos desenhar e fabricar pela química chamada clássica e que desenvolveu esse conhecimento ao longo dos últimos 150 e 200 anos. Relativamente aos biológicos, são completamente diferentes. São organismos que não só pela sua complexidade, como muito maior dimensão e estrutura, são, principalmente na sua origem, bastante diferentes, porque são produzidos de organismos vivos, por exemplo, as células, que dadas certas condições ideais, podem funcionar como fábricas de biológicos e que nos permitem, tal e qual como no nosso corpo, extrair as substâncias desejadas, que podem ter uma influência terapêutica relevante para certas indicações. Beneficiam, por isso, de milhões de anos de evolução, que a química clássica não tem conseguido. NF: É a biologia que fez essa evolução. JP: É a biologia. Portanto, é a beleza também da- NF: A natureza que fez esse processo todo, esse processo por nós.  NF: Joana, por serem criados a partir de organismos vivos, podemos dizer que estes medicamentos são, entre aspas, mais inteligentes, que têm um potencial terapêutico maior? Joana Cristovão (JC): Podemos dizer que efetivamente, em alguns dos casos, têm um elevado potencial terapêutico. A vantagem destas moléculas é que são moléculas com uma capacidade de especificidade bastante elevada. Ou seja, podemos ver como se fosse uma chave para uma fechadura. Tem de ser a chave certa para a fechadura. Efetivamente, os biológicos, falando a mesma língua biológica dentro do nosso corpo, conseguem ter esta vantagem, estão a falar a mesma língua. Mas não significa que são melhores do que as pequenas moléculas. Significa que, efetivamente, sendo produzidas por micro-organismos vivos, são bastante complexas e seria muito difícil, e em alguns casos impossível, de serem produzidas pela clássica síntese química, mas têm aqui uma grande vantagem de serem bastante específicos. Exemplos de biológicos são proteínas que têm a função de comunicar dentro do nosso corpo, anticorpos monoclonais que têm a função de identificar um alvo específico e estas funções efetivamente são mais relevantes nos biológicos do que nas pequenas moléculas. NF: João, esta é uma área, pelo que percebo, um pouco emergente ainda em todo o mundo. Como é que a Hovione, sendo uma empresa historicamente ligada à síntese química e engenharia de partículas de pequenas moléculas, chegou até aqui e decidiu também abraçar este desafio dos biológicos? JP: Sinceramente, tem sido uma transição muito natural. Acho que primeiro porque ao longo dos anos a Hovione desenvolveu um conjunto de especialidade, conhecimento científico muito específico em áreas também elas muito específicas de química, engenharia de partícula e formulação. E quando olhamos para os biológicos, apesar da sua maior complexidade, o problema acaba por ser mais ou menos o mesmo. Continua a precisar de materiais, processos e controles que os permitam chegar de uma forma estável e robusta aos pacientes. NF: Mas há potencial? JP: Claro que sim. Não só há potencial como há desafios. E isso vem, se calhar, o segundo ponto, que é a curiosidade. Acho que desde a história da Hovione e desde o fundador, essa curiosidade e esse desejo de abraçar desafios cada vez mais complexos, é um pouco parte da gênese, principalmente no nosso centro de inovação e desenvolvimento, e por isso é também um fator muito aliciante para quem trabalha na Hovione, poder estar a par desta transição. NF: E não está assim tão longe da sua história também. JP: Não. NF: Por isso que explicava.  NF: Joana, em que áreas terapêuticas é que estes medicamentos biológicos já tiveram um impacto mais significativo? Há doenças que vieram mudar claramente a forma como os doentes são tratados? JC: Há áreas- NF: Isto já não é ficção científica, já existe na prática. JC: Exatamente. E já existe há muito tempo em algumas áreas. Por exemplo, na oncologia existem anticorpos que são utilizados também para matar as células cancerígenas. Com especificidade. Ou seja, em vez de matarmos as células de uma maneira geral, direcionamos esta morte ao mecanismo de ação da doença. NF: Reduz efeitos secundários, imagino. JC: E que também reduz efeitos secundários. E numa vertente também diferente, o cancro é uma doença bastante esperta e evolui muito rapidamente, porque se esconde das nossas defesas e do nosso sistema imunitário. Então também existem tratamentos baseados em biológicos, cujo objetivo também é ajudar as nossas defesas a fazerem o trabalho delas, a retirar este véu invisível que alguns tumores têm, que os faz progredir muito rapidamente e a ajudar as nossas defesas a atacar. Outro exemplo, e é um exemplo clássico que já foi resolvido há 40 anos, é o exemplo da diabetes. A insulina é o tratamento mais comum utilizado para a diabetes e aqui, antes da biotecnologia, a insulina era isolada de animais e consequentemente, a sua produção era bastante limitada. Com a possibilidade de utilizar a biotecnologia para produzir os biológicos, conseguimos produzir insulina humana, a chamada insulina recombinante, porque efetivamente utilizamos micro-organismos vivos para os produzir. E esta mudança fez com que este tratamento ficasse disponível para mais pessoas e que se salvassem milhares de vidas. NF: Dois exemplos claros onde estes biológicos já estão, entre aspas, a atacar. João, hoje já estão, de facto, no mercado, mas imagino que a transposição e estabilização em laboratório trazem grandes desafios técnicos. Que desafios é que foram estes no caso dos biológicos? JP: Sendo moléculas muito complexas e, como a Joana descreveu, até de alguma forma elegantes, são também igualmente sensíveis, quase como uma flor de estufa. E portanto, a evolução biológica, como falámos há pouco, tratou de as otimizar para sobreviverem e estarem em condições muito específicas, condições essas que muitas vezes não são as que nós temos nos nossos processos industriais, de transporte ou até da administração do fármaco. E portanto, estas moléculas são tipicamente muito sensíveis ao calor, ao ar, à pressão e até só o simples fato de elas estarem muito tempo juntas, acabam por começar a interagir entre si, perder a sua estrutura e também, infelizmente, o seu efeito terapêutico. E é um bocadinho aí que nós entramos, ou seja, os clientes tipicamente vêm ter connosco com algo com potencial terapêutico muito grande, mas apenas muitas vezes só uma prova de conceito. E nós pegamos, digamos assim, nesses primeiros testes laboratoriais experimentais para tentar criar aqui controles, processos, até formulação, que permita levar isto aos milhares, milhões de unidades, sempre com obviamente bastante cuidado para um controle de qualidade e estabilidade imaculados para os fármacos. NF: Joana, mas afinal, como é que são administrados estes medicamentos? São diferentes dos outros? Tradicionalmente, muitos exigem uma ida ao hospital para uma administração intravenosa mais demorada. É assim que funcionam com os biológicos? JC: Exatamente. Tradicionalmente, estes biológicos são administrados diretamente na veia por perfusão, muito semelhante quando nós levamos soro. Mas a indústria farmacêutica quer se focar também não unicamente em resolver os problemas e doenças, mas também tem um foco grande no doente. Esta administração envolve uma ida ao hospital, algum tempo para ser administrado e em doenças crônicas, isto repete-se ao longo da vida. E a ambição da indústria farmacêutica também é arranjar tratamentos alternativos que sejam mais confortáveis ao doente e que se crie mais autonomia para o doente. NF: Para que ele não precise, se calhar, de ir ao hospital? JC: Exatamente. O objetivo final seria então termos soluções mais injetáveis com uma ambição do próprio doente conseguir administrar sozinho. Para isso, então é preciso haver inovação na parte de tecnologia, de desenvolvimento de formulações e de dispositivos que permitam que o doente o consiga fazer. NF: João, é aqui que entra o vosso conceito de formulações de alta concentração. O que é isto na prática? E de facto, um dia já não precisaremos de um enfermeiro para uma injeção. Haverá um dispositivo para o fazermos nós próprios. JP: Sim, esperemos que sim. O conceito de formulações de alta concentração é relativamente simples. Significa colocar o máximo de medicamento no volume o mínimo possível, mínimo o suficiente que possa, por exemplo, caber num bolso, estilo um auto injetor, que hoje em dia creio que as pessoas- NF: Uma caneta. JP: Uma caneta. Creio que as pessoas, até pela nova geração de alguns medicamentos, especialmente para obesidade, etc, tornou-se relativamente popular e bastante mais familiar, apesar de ser utilizado em outras aplicações. Isto tecnicamente parece simples, colocar mais de uma coisa, menos de outra, mas obviamente, como sabemos, estas moléculas, e já falámos aqui, são bastante sensíveis e à medida que vão sendo mais concentradas, ou seja, estão mais apertadas entre si Problemas começam a surgir. Para além da estabilidade e como já falámos um bocadinho da sua alteração de estrutura, há essencialmente um problema de viscosidade. Eu acho que isto é fácil de visualizar, qualquer coisa mais concentrada tende a ser mais viscosa. NF: Mais difícil de injetar. JP: Mais difícil de injetar, o que leva à questão da dor e, portanto, mais viscosidade tipicamente leva a uma maior dor da administração. Isso viola diretamente o conceito de desenvolvermos formulações e medicamentos mais convenientes e mais user friendly. E é esse o problema que a indústria neste momento tem em mãos, arranjar soluções que consigam quebrar as barreiras da dose e baixar os volumes sem comprometer a eficácia terapêutica, mas também a conveniência e a aceitabilidade destas novas soluções de alta concentração. NF: Joana, só para terminarmos, o que sentem os cientistas quando olham para o futuro e veem também este trabalho diário da Hovione a aproximar a medicina de soluções que são cada vez mais personalizadas, mais convenientes, mais centradas na vida dos doentes, mais confortáveis para eles? Imagino que orgulhosos por esse desenvolvimento também. JC: Acho que é uma grande responsabilidade e acho que daí também vem uma grande motivação. A medicina está cada vez a tornar-se mais personalizada, mais focada nos mecanismos que levam à doença e não só focada no tratamento de sintomas, mas em ser mais dirigida àquilo que faz com que haja doença. E acho que é um grande orgulho estar em equipas que fazem parte desta jornada, que nos levam a um futuro melhor e focado no doente. NF: João, o futuro é biológico ou não só, mas também? JP: Não só, mas também. Mas claramente acho que os biológicos nos permitem novos sonhos, novas ambições, especialmente em melhores medicamentos, mais personalizados e mais eficazes e, portanto, abre todo um conjunto de possibilidades que até hoje se calhar não era possível de imaginar. NF: João Pires e Joana Cristóvão, muito obrigado por nos abrirem as portas do futuro da medicina. É com este olhar sobre o amanhã que termina a primeira temporada do podcast "A Próxima Descoberta". Ao longo destes seis episódios, viajamos desde uma cave em Lisboa em 1959, até à liderança tecnológica mundial, que todos os anos toca a vida a mais de 80 milhões de pessoas. Ficou provado que com curiosidade, rigor e talento, as próximas grandes descobertas da ciência mundial podem mesmo ter a assinatura do nosso país. Para ouvir todos os episódios desta série, pode fazê-lo em Observador.pt e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, foi um gosto acompanhar-vos nesta viagem. Até à próxima descoberta.    

Article

Podcast “A Próxima Descoberta” (EP6) - Biológicos de alta dosagem: da ficção à realidade

Jul 23, 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Da asma às terapias que podem chegar ao cérebro, seguimos a viagem da Hovione pelo respiratório e pela via nasal, onde cada partícula é pensada para melhorar a vida dos doentes. Ouça aqui o quinto episódio do podcast, com Eunice Costa, diretora no Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione. [Transcrição] E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A Próxima Descoberta". Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo a "A Próxima Descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas da ciência e da inovação com impacto global. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vamos descobrir como o nosso sistema respiratório e a via nasal são usados para fazer chegar medicamentos ao nosso organismo de forma rápida e inovadora. Para isso recebemos Eunice Costa, diretora no Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Olá, Eunice, muito bem-vinda. A história da Hovione está intimamente ligada ao pulmão. Começaram há mais de duas décadas a desenvolver e a fabricar soluções para medicamentos inaláveis. Quais foram as grandes doenças cujo combate avançou significativamente também com a ajuda destas inovações? Eunice Costa (EC): Olá, Nelson. Obrigada pelo convite. De facto, para começar, as doenças do foro respiratório, as com maior incidência e com impacto societal enorme. Temos a asma e temos a doença pulmonar crônica obstrutiva, DPOC. Toda a tecnologia que é necessária para gerir estas doenças, desde o desenho das moléculas, às formulações, aos dispositivos de administração, têm em si tecnologias fundamentais para que sejam absolutamente geríveis. Obviamente com um peso substancial na vida dos pacientes diariamente, mas que são possíveis de gerir e de ter uma vida perfeitamente normal. NF: Até porque algumas não são curáveis. EC: Exatamente. NF: É o caso da doença pulmonar obstrutiva crônica. EC: Não. Os medicamentos que estão disponíveis são essencialmente de gestão, ou seja, de broncodilatação. Ficarmos com as nossas vias desobstruídas. NF: É o que faz uma bombinha da asma? EC: É o que faz a bombinha da asma, exatamente, que toda gente conhece. Acho que é o dispositivo mais paradigmático e que muitas vezes se vê nos filmes mal utilizado. NF: Sério? É também o que tomamos quando fazemos uma espirometria, não é? EC: A espirometria é já para diagnóstico. Ou seja, vai medir a nossa capacidade, que já estamos doentes. NF: Mas usam também um inalável nessa altura para fazer o exame. EC: Exatamente. NF: Muito bem. Hoje em dia, a Hovione orgulha-se também de oferecer soluções de A a Z para medicamentos inaláveis, nasais, tendo como principal destino, claro, o pulmão, como aqui falávamos. Isto significa que vocês controlam todo o processo, desde a tal síntese da molécula, como falava, até ao inalador final, até ao objeto? EC: Sim, é isso mesmo. E a jornada tem sido bastante progressiva, orgânica, digamos assim. Se dizer alguma piada orgânica, química orgânica, até fica bem. Enfim, mas continuemos. A Hovione começou pela síntese de moléculas, na sua história. E depois foi se especializando, da síntese para o controlo do que se chama o controlo do tamanho de partícula, usamos o termo engenharia de partículas, porque estes medicamentos têm que ser de facto engenheirados para que sejam de forma eficaz administrados ao pulmão. Temos a síntese. Não estamos em drug discovery, ou seja, não estamos na parte da descoberta da molécula em si. Suportamos é as outras empresas farmacêuticas na síntese, neste caso também na engenharia de partículas, que é fundamental no caso dos medicamentos inaláveis. Depois é misturar essas partículas de princípios ativos com toda uma composição para daí fazer, de facto, um medicamento, que também não é trivial. E finalmente, no inalador, no dispositivo médico, que é o mais visível, é o que nós vemos, é o dispositivo no final, que é o motor que gera o aerossol. Na bombinha de asma, que é mais conhecida, é ativo. Temos ali algo que gera o aerossol de forma ativa. Vem de um gás pressurizado, que é expelido. No caso dos dispositivos onde nós nos especializamos, são o que se chamam dispositivos passivos, e utilizamos dispositivos para gerar aerossóis de pó, em que aí é a capacidade respiratória do próprio paciente que puxa a medicação. NF: Que aspira o tal pó. EC: Que inala o pó. Portanto, ainda é um desafio que tem que haver uma combinação muito perfeita entre partícula, formulação e dispositivo para conseguir aerosolizar primeiro e ter uma deposição eficaz. E temos controlo sobre estes aspetos. NF: O pulmão parece-me ser um órgão particularmente desafiante para a administração de medicamentos. O que é que torna tão difícil garantir que o medicamento chegue exatamente ao local onde é suposto? EC: Certo. NF: Põe-se-lhe um GPS? EC: Exato. EC: Não propriamente. Era bom. Enfim, o pulmão, são milhões e milhões de anos de evolução para exatamente evitar qualquer partícula estranha, seja um patogênio, um vírus, o que seja, de qualquer partícula estranha, de facto, ser inalada. NF: É o seu comportamento normal. EC: Exatamente. Felizmente para nós. E é muito eficaz em evitar que sejamos expostos A um órgão que diz que a superfície do pulmão, se fosse toda estendida, era do tamanho de um corte de tênis. Tem uma superfície enorme. Se não tivesse mecanismos de defesa, a entrada de partículas estranhas, estaríamos numa situação difícil. Evolutivamente, o pulmão foi desenhado para manter tudo fora. Quando estamos a tentar utilizar o pulmão como via de entrada para tratar um paciente, para entregar um medicamento, temos que de alguma forma circumnavegar estes mecanismos de defesa. NF: Ou enganar o pulmão. EC: Sim, ou enganar. Falar com ele com jeitinho. E basicamente aqui o truque principal, há um número mágico, que é o aerossol, seja uma nuvem de pó, seja um aerossol líquido, esse tamanho desse aerossol tem que ser exatamente entre um a cinco mícrons. Estamos a falar 10 vezes mais pequeno que um fio de cabelo, ou ainda mais pequeno que isso. São um pó extremamente fino, são partículas extremamente pequenas. Partículas muito pequenas aglomeram, absorvem água, comportam-se de forma errática. Tem que, para já, reduzir o tamanho de partícula, depois controlar estes mecanismos. E finalmente, usar um dispositivo relativamente simples. NF: Claro. EC: Que consiga fazer esse aerossol. NF: E que qualquer pessoa consiga usar. EC: Exatamente. NF: Creio que neste percurso, o mercado do Japão voltou a cruzar-se com a história da Hovione, muito por culpa do sucesso do Inavir. Que produto é este e que impacto é que teve? EC: O Inavir é uma história já com alguns anos, e muito exemplificativa do papel da Hovione nesta área de nicho da farma. É uma área de nicho, há muitas competências que são necessárias para fazer, de facto, um produto neste espaço. E o Inavir, em particular, para contexto, é um antiviral, para o tratamento de gripe. É um medicamento que é administrado diretamente ao pulmão, que é a porta de entrada para o patogênio em causa. E a Hovione esteve envolvida exatamente nesta combinação, ou seja, no desenvolvimento do medicamento que está dentro do dispositivo e do dispositivo em si. O dispositivo, o inalador, ainda hoje continua a ser o único inalador a nível mundial que é de toma única, ou seja, é extremamente simples, porque estamos a falar numa situação em que o paciente está com gripe. Se há coisa que não faz sentido é reutilizar o inalador, é para tomar e deitar fora, porque está com gripe. Foi um desafio técnico de criar um inalador que fosse, do ponto de vista de custo e de sustentabilidade, proporcional ao uso pretendido, que é inalar uma vez. NF: E descartar. EC: E descartar. E continua a ser até hoje, desde 2010, quando foi aprovado, o único inalador de toma única. Podemos dizer que desde então, milhões de pessoas já foram tratadas com uma tecnologia feita em Portugal. O que é interessante. NF: É interessante também para o orgulho nacional. EC: Exatamente. NF: Eunice, nos últimos anos, a via nasal tem despertado um enorme interesse científico, sobretudo por esse potencial de chegar mais rapidamente a determinadas zonas do organismo, inclusive ao cérebro, ao sistema nervoso central. O que é que torna esta via tão especial? Que parece que não tem portagens. EC: Sim, exato. Tem algumas. É sempre preciso fazer um bypass aos mecanismos de defesa. O nasal é uma área interessante, porque nós associamos administrar qualquer coisa ao nariz, associamos às rinites alérgicas, aos pólens, às sinusites. NF: E às alergias. EC: As alergias, tudo que é muito tópico, é muito localizado. Mas de facto, o nariz oferece uma capacidade de absorção extremamente rápida. Começou-se a explorar como porta de entrada para tratamento de doenças não necessariamente relacionadas ao que se manifesta em sintomas no nariz. Primeiro, para situações como dor, por exemplo, a gestão de enxaquecas. Como também como estava a dizer, mesmo diretamente ao cérebro. Isto por quê? Nós temos sentido cheiro no nariz. A cavidade nasal tem uma série de nervos. NF: Mas o que nos permite cheirar está no cérebro. EC: Exatamente. Ou seja, é das poucas vias não invasivas, que permite ter ali uma estrada muito concreta do nariz até ao cérebro, através dos nervos olfatórios e outros também que são os trigeminais. E isto abre uma porta de entrada para pensar em formas muito mais simpáticas para os pacientes de tratar doenças. NF: Eunice, olhando aqui um bocadinho já para o futuro dos cuidados de saúde, esta inovação por via nasal pode vir a substituir injeções em muitas terapias. Podemos vir a dizer adeus às agulhas que são tão odiadas. EC: Eu acho que infelizmente não. Há tantas terapias inovadoras a serem desenvolvidas e as agulhas e as injeções ainda continuam a ser uma forma de assegurar que, principalmente as terapias novas e terapias biológicas, onde a eficiência de administração tem que ser basicamente 100%, tudo o que se prepara tem que entrar no paciente. Ainda estamos longe de garantir isso através do nariz ou através do pulmão. Ainda não. NF: Ainda não, mas já com muitas vantagens em algumas situações. Para que isto tudo de que estivemos a falar chegue ao mercado, a investigação não se faz, imagino que, de forma isolada. Na vossa equipa também contam com parceiros científicos, académicos, que aceleram estas descobertas na Hovione? EC: Sem dúvida. Para começar, são as parcerias com as universidades portuguesas, que têm sido uma fonte de talento e conhecimento absolutamente fundamental para os avanços que fomos fazendo ao longo dos anos e no pulmão, em particular, ou na administração respiratória. Desde as faculdades de Farmácia, seja de Lisboa ou de Coimbra, a Universidade Nova, o Técnico, têm sido parceiros fundamentais. Não só académicos, mas também empresas. Ou seja, a Hovione, principalmente dada a complexidade. Estamos a falar aqui de uma multiplicidade de disciplinas que se têm que encontrar, desde parte mecânica, fisiológica, perceber a biologia. Isto não se faz sozinho. Para fazer um passo significativo, não se faz sozinho. Colaboramos com empresas como a Precepart, na Alemanha, na área de dispositivos, por exemplo, dos inaladores, e tem sido absolutamente fundamental para o nosso sucesso na área. NF: Eunice Costa é a cientista da Hovione. Muito obrigado por nos ajudar a perceber hoje como a ciência está a transformar o pulmão e como a via nasal é também uma porta de entrada para medicamentos que podem melhorar a vida de milhões de pessoas. Este foi o quinto episódio de "A Próxima Descoberta". Na próxima semana chegamos ao último capítulo desta temporada para falar quase de ficção científica tornada realidade. Vamos descobrir os medicamentos biológicos de alta dosagem e perceber como os tratamentos contra o cancro podem passar do hospital para as nossas casas.  Todos os episódios estão disponíveis em Observador.pt e também nas plataformas de podcast. Até à próxima descoberta.    

Article

Podcast “A Próxima Descoberta” (EP5) - Pulmão e via nasal: ciência que respira

Jul 16, 2026