Notícias

Artigo de Imprensa / Fev 02, 2018

Quotidiano de uma Engenheira Química na Hovione

Estagiar na Hovione Macau é viver entre várias nacionalidades, culturas e línguas. Aqui todos nós comunicamos em inglês, cantonês, português, mandarim…

Todos os dias de manhã oiço um maravilhoso “Bom dia! Tudo bem?” dito em português, pelo segurança de nacionalidade nepalesa que trabalha na receção da Hovione. Depois de responder em português e em cantonês, passo o cartão eletrónico e dirijo-me ao balneário feminino para me equipar com o fato- macaco, botas de biqueira de aço, capacete e óculos - o designado Equipamento de Proteção Individual – tal como manda a tradição de uma Engenheira Química num Departamento da Produção.

 

Às 8h05, na sala de controlo, há uma reunião de cinco a dez minutos com os operadores dos turnos, o anterior e o seguinte, onde o chefe de turno do primeiro apresenta o trabalho realizado nas diferentes linhas de produção, bem como eventuais problemas nos equipamentos dos colegas do próximo turno.

 

Às 8h15, no escritório da Produção, tenho outra reunião de dez a quinze minutos, onde todos os engenheiros químicos responsáveis pelas linhas de Produção e os supervisores tomam a palavra e referem os assuntos mais importantes do dia e da semana. Ambas as reuniões são em inglês.

 

Após as reuniões, sigo para a linha de produção que estou a acompanhar nessa semana. Lá, leio o procedimento da linha, pergunto ao operador algumas questões referentes ao processo e como ele executa os diferentes passos. As operações na produção podem ser muito variadas, desde o carregamento de matérias-primas ao reator, abrir e fechar válvulas, bombear líquidos, ao empacotar o produto final.

 

A imagem seguinte retrata o Equipamento de Proteção Individual (EPI) que um trabalhador deve usar aquando de operações que requerem cuidados especiais, tais como a recolha de amostras de matérias-primas sólidas, peneiração de produto final, empacotamento...



 

ines-santos-epi-hovione-macau























































Figura 1 - Imagem ilustrativa do EPI usado numa amostragem de matérias-primas sólidas.



É importante referir que o clima em Macau é extremamente húmido e quente, o que dificulta imenso o trabalho numa fábrica com os equipamentos a funcionarem a temperaturas altas ou este género de operações que requerem EPI extras.

 

Às 10h00, na cantina, servem o pequeno-almoço, que dura cerca de quinze minutos. A seguir, volto para a linha de produção onde estava anteriormente.

Uma vez que os trabalhadores da Hovione são de diferentes nacionalidades (macaense, chinesa, portuguesa, nepalesa, indonésia, filipina, indiana, malaia) por vezes a comunicação e a interação são um desafio.

 

Aqui, é notável a mistura de culturas, as várias línguas faladas, os diferentes modos de pensar que se fazem sentir. Estas diferenças são notadas em vários aspetos - na maneira de trabalhar, na postura adotada, no relacionamento interpessoal, por fim, no ambiente da fábrica.

 

Alguns dos operadores das linhas de produção só falam mandarim ou macaense e, nesses casos, o que sobressai é a vontade, ou a sua ausência, do operador em querer explicar o processo, através de desenhos ou por gestos.

 

Entre as 12h30 e as 14h30, a Hovione disponibiliza o almoço, na cantina. Dentro deste intervalo, tenho 1 hora para fazer a refeição. Para o almoço é necessário trocar o EPI pela minha própria roupa. Muitas vezes, após o almoço, vou ao exterior tomar um café. Os portugueses são praticamente os únicos a ter este hábito.

 

Da parte da tarde, volto a seguir a linha de produção que estava a acompanhar de manhã.

Às 15h05 realiza-se de novo a reunião de passagem de turno entre os operadores e às 15h15, a reunião com os engenheiros químicos e supervisores.

 

Ao longo do dia vou muitas vezes à sala de controlo para saber o que se passa na fábrica, bem como para utilizar o computador e esclarecer eventuais dúvidas que surjam acerca do processo que estou a seguir.

 

Uma vez por semana tenho uma reunião, que pode durar entre 30 a 60 minutos, com a minha mentora, Ex Inov de 2016, onde exponho o trabalho realizado e algumas dúvidas que tenha e, onde ela me dá indicações acerca do trabalho a realizar na semana seguinte.

 

Às 17h00, dirijo-me para o balneário para trocar pela última vez de roupa.

 

Por fim, quando saio da Hovione, o segurança nepalês despede-se com um sorriso na cara, dizendo “Até amanhã!”.

 





Ler notícia original 

Também em Notícias

See All

Numa época em que as mulheres não trabalhavam, aos 19 anos Diane Villax era ”correspondente em línguas estrangeiras” numa empresa de representações. Aí aprendeu as bases para ajudar a desenvolver a Hovione, que criou com o marido há 66 anos. Hoje a empresa emprega mais de 2500 colaboradores e é fornecedor de preferência de algumas das maiores farmacêuticas do mundo. Quando entramos na sala da unidade fabril da Hovione em Sete Casas, Loures, Diane Villax espera-nos sentada, tranquila, pronta para quase uma hora de conversa e fotografias. Afável e bem-disposta, e com um rigor que se nota nas respostas, revela um enorme orgulho pela empresa que criou, em 1959  com o marido e dois compatriotas  húngaros. Ivan Villax era engenheiro químico com várias patentes de processo e a Hovione nasceu para fabricar antibióticos. Desde o primeiro dia os seus olhos estavam postos no mercado mundial  e foi a partir de casa, na Travessa do Ferreiro, que durante 10 anos produziu para o seu primeiro cliente importante, o mercado japonês, conhecido pelo elevado grau de exigência. Em 1969 foi construída a primeira fábrica em Loures, e, em 1986, iniciada a produção na segunda unidade fabril em Macau. A estas juntaram-se, já nos anos 2000, New Jersey, nos Estados Unidos e Cork, na Irlanda. Hoje, a Hovione emprega mais de 2500 colaboradores, dos quais mais de 300 são cientistas — é a empresa privada que mais doutorados emprega em Portugal – e orgulha-se de ser fornecedor de preferência de várias das maiores farmacêuticas do mundo. O casal Villax tinha tarefas distintas na empresa. Ivan era o inventor e Diane tratava da parte administrativa, a partir de casa. Não teve formação para empresária, apenas um curso de estenografia e datilografia e, antes de casar, um emprego numa empresa de importação, que em três anos lhe deu as bases necessárias para ajudar a desenvolver a Hovione. O seu método e rigor ajudaram-na a lidar com os bancos no início da empresa, porque os seus conhecimentos sobre negócios eram escassos. Ivan Villax faleceu em 2003, deixando uma descendência de quatro filhos e 16 netos, que têm a missão de continuar a desenvolver a empresa. Aos 91 anos, Diane Villax já não está no dia-a-dia da Hovione, mas lê as inúmeras noticias que recebe diariamente sobre a evolução do setor farmacêutico,  bem como toda a informação sobre a empresa. Gosta de estar atualizada para acrescentar valor às reuniões do Conselho de Administração. “Se eu não estou a par, os meus filhos reformam-me”, ironiza. Depois de conhecer Diane Villax na sua primeira unidade fabril, a 14 de janeiro, não estranhamos quando nos despedimos e a vemos com as chaves do seu carro na mão, pronta para conduzir para as Amoreiras para assistir a La Traviata. “Gosto muito de La Traviata!”, diz com o mesmo sorriso afável com que nos recebeu uma hora antes. Quais foram os marcos principais desta história que já conta 66 anos? O primeiro marco foi o que nos lançou e o que nos permitiu desenvolvermo-nos. No fim dos anos 1960 e durante todos os anos 1970, o Japão foi o nosso mercado principal. Durante 10 anos fornecemos a indústria japonesa a partir de nossa casa, numa cave da Travessa do Ferreiro. O meu marido era muito inovador. Tinha patentes de processo e em todo o mundo não anglo-saxónico não havia patentes de produtos farmacêuticos. Quando casámos já ele tinha patentes de invenção sobre toda a gama dos corticosteroides. No Japão, naquela altura, não fabricavam a matéria-prima, só formulavam o produto final, necessitando, portanto, de comprar o ingrediente ativo. Os eventuais clientes descobriram que em Portugal um certo Ivan Villax tinha patentes sobre essa gama de produtos na qual eles tinham interesse e vieram bater à nossa porta. Acharam que o nosso IP era robusto, a tecnologia era ótima e a qualidade do produto era excelente. A qualidade para o Japão é um “sine qua non”. Iniciámos uma colaboração que durou mais de 10 anos e nos permitiu construir a nossa primeira fábrica, em Sete Casas (Loures), que iniciou a produção em 1971. O segundo momento importante foi o lançamento no mercado dos Estados Unidos, em 1982. É um mercado gigantesco, competitivo, exigente, mas que reconhece serviço e qualidade. O meu marido tinha a patente de processo para o fabrico de um antibiótico de largo espetro, a doxiciclina, cuja patente do inovador caducou precisamente no verão de 1982. Tinha-se feito algum estudo de mercado certamente, mas não pensávamos que a procura seria tão grande. Até hoje já fornecemos centenas de toneladas de doxiciclina ao mercado norte-americano a partir da nossa fábrica de Macau. “Desde o primeiro dia, o mundo é o nosso mercado. E sempre quisemos ser uma boutique, criar um nicho no mercado. Somos mestres no que oferecemos.”     Leia o artigo completo em Executiva.pt  

Artigo de Imprensa

Diane Villax, da Hovione: “Não fui educada para ser empresária”

Fev 23, 2026