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Artigo de Imprensa / Maio 25, 2019

A história da portuguesa que "nunca se esqueceu do conselho da avó" e criou um império numa cave na Lapa

Visão, 25 Maio 2019

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A vida da portuguesa Diane Villax é também a da farmacêutica Hovione, fundada há 60 anos. E parte de uma saga familiar que começa nas margens do rio Zambeze e mete refugiados húngaros, bailes com a rainha de Inglaterra e negócios na China



 

A história de Diane Villax é daquelas que se contam sozinhas, sem ser preciso acrescentar-lhe pós de perlimpimpim. A menina que cresceu a ler e a amar biografias protagonizaria facilmente um livro, percebe-se ao fim de pouco tempo de entrevista. Com o bónus de a sua vida trazer mais umas quantas histórias de pessoas com quem se foi cruzando ao longo dos seus 84 anos, e de grande parte dela coincidir com a da empresa farmacêutica que ajudou a fundar aos 24. E esse livro poderia começar assim: “Diane nunca mais se esqueceu do conselho da sua avó Blanche.”

A luso-inglesa Blanche Laura du Boulay mudara-se para Lisboa ao ficar viúva pela segunda vez, em meados dos anos 40, passando a morar com a nora Isabel e a neta Diane, no lindíssimo Pátio do Pimenta, ao Chiado. Em 1948, com a libra a desvalorizar-se 20% relativamente ao escudo, ofereceu-se para ajudar na loja de decoração de um conhecido, a Renaissance, na vizinha Rua das Chagas. Pertencia à alta sociedade, mas não lhe caíam os parentes na lama por procurar emprego.

Não era a primeira vez que trabalhava. Em 1919, tendo ficado viúva com três crianças a seu cargo, Blanche decidira ganhar autonomia indo para a loja Maples, aprender a decorar casas. Quase trinta anos depois, há de demorar pouco tempo até tomar conta da Renaissance, encarregando-se em remote control do Reid’s Hotel, na Madeira, e de vários apartamentos de ricaços, em Nova Iorque. “Tinha muito bom gosto, tinha olho”, recorda a neta.

Em 1952, ao ver que Diane chegara aos 17 anos sem qualquer formação, a avó, pragmática, dá-lhe um conselho fundamental: “Você tem de estar preparada para a sua vida, deve precaver-se.” E é assim que Diane parte rumo a Inglaterra, onde vivera até aos 9 anos, para fazer um curso intensivo de estenografia, contabilidade e datilografia, seguido de um estágio. No ano seguinte, é também lá que irá debutar, numa temporada particularmente importante porque Isabel II fora coroada rainha, presidindo, por isso, a muitos dos bailes.

 

 

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Diane Villax com a avó





Por esta altura, Diane já está habituada a ambientes formais. Blanche gosta de receber e dá cocktails para cinquenta pessoas, que muitas vezes ficam para jantar. Quanto a ela, deve aparecer bem vestida e saber fazer conversa, mas apesar de ter sido “muito bem educada e pouco instruída”, não é o estereótipo da menina de sociedade oca. Lê muito, por influência da avó, quase sempre ficção histórica ou biografias de militares, então na moda.



Diane tem 19 anos quando Blanche, sempre Blanche, lhe arranja o seu primeiro emprego, numa empresa que se dedica à importação. Trabalha no duro, manhãs de sábado incluídas, e não se limita a traduzir a papelada que entra e sai do escritório de Mr. Crocker – vão ser três anos a aprender tudo o que precisará na sua vida profissional futura “e a ganhar um balúrdio”, ri-se hoje.



As amigas invejam-na, acham-se inúteis porque a maioria está proibida pelos pais de trabalhar. Sorte a dela que a avó leva a sério o seu futuro. “Éramos geridas”, conta. “Eu, até dizer ‘Quero casar-me com o Ivan’, nunca tomei uma decisão na vida.”



Ivan Émeric Villax. Mais velho dez anos, o húngaro é um engenheiro químico brilhante, um homem fascinante, com a cabeça sempre cheia de ideias inovadoras. O seu pai, Ödon Villax, um cientista perito em genética de plantas, optara por sair do país quando lhe aconselharam a manter a cabeça baixa a seguir às primeiras eleições depois da Segunda Guerra Mundial. Ainda não havia a Cortina de Ferro, mas pais e filhos viajaram pela calada da noite, pouco depois de Ivan se licenciar, em 1948. E, quando estavam num campo para pessoas deslocadas, em Salzburgo, Áustria, Ödon é convidado pela Secretaria de Estado da Agricultura portuguesa a criar um centro de investigação em Elvas.



Ivan (1925-2003) gostava de dizer que deixara a Hungria com uma escova de dentes num bolso, o diploma no outro e os russos no seu encalço. De Salzburgo seguira para França, onde trabalhou no Centro de Investigações Agronómicas de Clermont-Ferrand, até que, no Natal de 1951, os pais o convencem a oferecer os seus serviços em Portugal. O engenheiro é logo contratado pelo Instituto Pasteur de Lisboa, então um importante laboratório farmacêutico, trazendo na bagagem experiência na área dos antibióticos.



Os dois conhecem-se em casa de uma amiga comum, e não tardará muito até Diane de Lancastre Houssemayne du Boulay passar legalmente a Diane Villax. Três meses antes do casamento, marcado para fevereiro de 1958, despede-se para preparar a festa e o enxoval, com grande pena de Mr. Crocker. “Diga ao seu noivo que tenho duas pistolas”, avisa o patrão que, uns anos mais tarde, irá brincar: “I worked for her” (trabalhei para ela).



Diane já na altura era mandona – se os colegas não respondiam atempadamente às cartas, ia pedir-lhes explicações. Mas era sobretudo – e continua a ser – rigorosa e exigente. Fora educada por uma mulher vitoriana e nada meiga, a verdadeira matriarca que tudo punha e dispunha na família. E não passara incólume à Segunda Guerra Mundial. Como o seu pai, Neville “Barney” Houssemayne du Boulay, era militar, cresce a saltitar entre colégios. “As crianças tinham de se arrumar”, ironiza.



 

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Diane e Ivan, já noivos, em 1957





EDUCADA PARA SER MANSINHA

Os anos de guerra marcam-na muito. “Os jesuítas dizem: ‘Deem-me uma criança até aos 7 anos e fica formada’, e têm razão”, sabe hoje. Toda a gente tinha mapas na parede com os avanços e os recuos dos Aliados, ela não perdia um noticiário e, a certa altura, já lia os jornais. “Aqueles anos formaram-me, e depois os anos com a minha avó continuaram essa formação.”



Nascida em Lisboa, em janeiro de 1935, Diane tinha ido com um ano para Inglaterra, onde pouco depois nascia um irmão. Antes da guerra, “Barney” viajava com frequência para África e Isabel morava com os filhos em casa do avô dele, pai de Blanche, uma casa lindíssima, porque John Peter “Pitt” Hornung já era muito rico.



Filho de imigrantes da Transilvânia, “Pitt” casara-se com a portuguesa Laura de Paiva Raposo, cujo pai detinha vários “prazos da Coroa” na Zambézia, uma província no Centro de Moçambique. Em conjunto com um pequeno grupo de investidores, explorou extensas propriedades de cana-de-açúcar, passando de empresário falido a dono de um império. No final do século XIX era, então, criada a Companhia do Açúcar de Moçambique, mais tarde dona da Refinaria Colonial, em Lisboa, antecessora da Sidul.



“Pitt” ainda assiste ao início da guerra, morrendo em 1940. Dois anos depois, Diane vai para um colégio interno, o primeiro de vários, e, quando os pais se separam e a mãe regressa a Portugal, a avó passa a recebê-la ao fim de semana e nas férias. Será por pouco tempo. Em agosto de 1944, o segundo marido de Blanche está tão doente que Diane é recambiada para Lisboa.



Recambiada. Foi assim que se sentiu naquele verão em que chegou à capital portuguesa, direta para o colégio interno de umas freiras belgas, no palácio que é hoje o Museu do Traje. Diane não fala francês nem português, sente-se infelicíssima e só quer voltar para Inglaterra. Tantos bilhetinhos envia à mãe que em janeiro entra para o Ramalhão, em Sintra, mais um colégio religioso, desta vez de dominicanas.



Seis anos no Ramalhão dão-lhe segurança, mas, olhando para trás tem pena do pouco que aprendeu. “Exigia-se pouco, não fiz um único exame, nem da quarta classe. As meninas eram educadas para serem donas de casa e mansinhas.” Salvam-na os dois anos seguintes, em que frequenta a antiga Escola Francesa de Lisboa (hoje Liceu Francês), então no Pátio do Tijolo. Foi aí que se “abriu a maravilha do conhecimento”, diz hoje. Francês, História, Matemática... – não houve nada que não lhe quisessem ensinar e ela aprender.



É após a Escola Francesa que Diane segue o conselho da avó e tira o curso que lhe há de permitir ter uma profissão. Quando casa com Ivan Villax, havia passado três anos exatos na empresa de Mr. Crocker, adorava o que fazia e o facto de ganhar o seu dinheiro, mas nem lhe passou pela cabeça que o trabalho lhe iria fazer falta.



 

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Ivan Villax, com os pais e os irmãos mais novos, ainda na Hungria



A verdade é que nos primeiros anos não teve tempo para pensar nisso – foi mãe nove meses depois de se casar, e quando Guy tinha quatro meses apareceram dois refugiados húngaros (Nicholas de Horthy e Andrew Onody) a desafiar o marido a fundar uma empresa. Horthy era filho do regente da Hungria e um antigo conhecimento de Ivan. Ele e o amigo propunham uma joint venture com uma empresa italiana, também pertencente a húngaros, que fabricava antibióticos. Naquela altura, em Itália não havia, por princípio, patentes de produtos farmacêuticos, mas não era possível exportá-los. Ora, Ivan tinha patentes de invenção e, por isso, entrou com 14% do capital, o valor da propriedade intelectual.

A CAVE NA LAPA

A 8 de abril de 1959 nasce, então, a Hovione. Como Ivan ainda trabalha no Instituto Pasteur, a sociedade é celebrada entre Horthy, Onody e Diane, entrando cada um com 35 contos. Diane vende 500 ações da empresa criada pelo seu bisavô “Pitt”, sendo esse o único dinheiro que alguma vez meterá na Hovione. E Ivan junta-se oficialmente em 1960.



Ivan tem um contrato muito interessante com o Pasteur: ao fim de seis meses, o instituto perde a patente para o resto do mundo (mantém apenas para Portugal e colónias). O engenheiro químico está, por isso, livre para montar um laboratório e começar a laborar, coisa que faz inicialmente num quintal, nas Avenidas Novas. Com a ajuda de um rapaz vindo do Pasteur e uns panelões comprados no Braz & Braz, fabrica o produto que exporta para Espanha, Itália e Grécia.



Em 1961, Ivan é chamado a Itália, onde durante seis meses se dedica em exclusivo à empresa italiana. Com ele vai Diane, os dois filhos que já tinham, o tal rapaz e a sua mulher. Quando todos regressam, no verão seguinte, montam um laboratório de produção, desta vez numa cave, na Lapa, e os dois húngaros saem da sociedade, levando no bolso mais do dobro daquilo que haviam investido.

AS JOIAS, OS JAPONESES E O 25 DE ABRIL

A cave da Travessa do Ferreiro coincide com a decisão de produzirem matéria-prima para a indústria farmacêutica e o objetivo de olharem o mundo como mercado. Como tem de ser algo de pequeno volume, por causa da falta de espaço, concentram-se nos corticosteroides, que custam 60/90 dólares o grama. Diane, que já fora mãe de mais dois filhos, gere o dinheiro, assegurando que ele nunca falta ao final do mês para pagar os ordenados aos sete ou oito empregados. Apesar dos seus cuidados, um dia tem de ir à gaveta das joias e empenhá-las.



Essa é uma das histórias que conta quando lhe pedem que recorde um pouco da história da Hovione, um exercício que faz com alguma frequência, junto dos novos colaboradores. Logo a seguir, segue-se habitualmente a boa notícia que ouvem, no final dos anos 60, da boca de uns japoneses que lhes batem à porta: querem comprar corticosteroides. No Japão, não fabricam matéria-prima, só formulam; o processo é patenteado e é nisso que estão interessados. A entrada no mercado japonês dá-lhes impulso para construir uma fábrica, em Loures, e avançar para a orla do Pacífico – Austrália, Taiwan, Coreia do Sul, Tailândia.



 

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Diane Villax numa viagem ao Sri Lanka

 



Em 25 de abril de 1974, a Hovione é ainda uma pequena empresa, com apenas 50 empregados e, como exporta tudo, não é afetada. Ivan, de resto, não deixa que a política entre na fábrica, mas em casa torna-se mais difícil. O filho mais velho, Guy, tem apenas 15 anos, mas já anda metido na política. A época é tão “desaustinante”, recorda Diane, que o casal decide mandar os quatro filhos um ano letivo para Inglaterra.

Durante esse período, Diane só passa uma semana por mês em Lisboa. Entre gerir duas casas, os filhos e uma parte da empresa (contabilidade, recursos humanos, correios, bancos), não lhe sobra tempo para se afligir. O tempo, aliás, parece correr. Num ai chega 1978 e a surpresa de ouvir Deng Xiaoping dizer que a China está aberta a negócios, uma oportunidade que a Hovione não deixa escapar. Os Villax estreiam-se a comprar matéria-prima chinesa na feira de Cantão e, um ano mais tarde, têm escritório em Hong Kong.

O início da década de 80 traz Macau na mira e Guy, então com 23 anos, a abrir a segunda fábrica da empresa – e a primeira fora de Portugal. Desde arranjar um terreno até tratar da logística, foram catorze meses loucos, numa altura em que o material era importado via Roterdão, sendo descarregado em barcaças que faziam a travessia entre Hong Kong e Macau.

Nessa empreitada, Guy Villax tem o apoio de Carlos Costa, um dos muitos portugueses vindos das ex-colónias que Ivan emprega após o 25 de Abril. São pessoas que trazem horizontes mais largos e merecem ser bem recebidas em Portugal como ele fora em 1951. “Orgulho-me disso, mas a verdade é que fomos muito recompensados”, diz hoje Diane.

A segunda geração vive de tal forma a empresa que a sua entrada é quase automática. Guy torna-se cedo administrador-delegado, Peter é apontado como o responsável pela entrada da informática na Hovione, Sofia, a única dos quatro filhos com uma formação próxima da do pai (Farmacologia), passa uns anos em Macau, a gerir a qualidade da produção, antes de responder pelo marketing e pela comunicação da empresa, e Miguel, um matemático brilhante, entrou em 2018, para gerir o que aí vem de Inteligência Artificial.



WORKSHOPS PARA PREPARAR OS NETOS

O advérbio “quase” não está por acaso no parágrafo anterior. Se há coisa em que Diane insiste é que a meritocracia reina na Hovione: “Temos os braços abertos para os membros da família, mas eles devem trazer valor adicionado. Se um Villax tiver prioridade, não conseguimos atrair os melhores.” Aliás, segundo o protocolo familiar aprovado em 2002, nenhum neto pode candidatar-se a um lugar se não falar três línguas e tiver uma licenciatura.

A Hovione é uma empresa familiar, gerida profissionalmente – na administração não encontramos apenas o apelido Villax. E a ideia é assim continuar no futuro, daí que duas vezes por ano sejam promovidos workshops dirigidos à terceira geração. Dos 16 netos, apenas três ainda são menores; os encontros são, por isso, a sério, sublinha Diane, que também já começou a convidar netos para serem “observadores” nas reuniões da administração. “Um dia serão donos e, por isso, têm de saber se a empresa está a ser bem gerida. E é preciso que saibam que nada cai do céu, esse é o drama dos meninos ricos...” Ela própria sabe que não terá assento vitalício nessas reuniões. “Quando já não acrescentar nada, vou ouvir: ‘Foi ótimo, a mãe durou imenso, but bye bye’”, ri-se.

Se nunca se esqueceu do conselho da avó Blanche, Diane também se lembra muitas vezes de ter respondido “quero uma vida completa” quando Ivan lhe perguntou “o que quer da vida”, ao se casarem. “E tive, tive tudo”, diz hoje. “Criámos uma empresa do nada, numa cave, que emprega mundialmente 1 800 pessoas e segue os mesmos princípios, valores e ideais de sempre. Tenho quatro filhos e dezasseis netos e estou no ativo. Ainda este fim de semana, estive a estudar os resultados… Não sabia o que era uma vida completa, mas agora, olhando para trás, sei que tive. Queria chegar ao fim da vida e pensar. ‘Valeu a pena. Deixei alguma coisa para o futuro da família, da sociedade’.”



Rosa Ruela, Jornalista

 

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O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Dos hospitais às casas dos doentes, conheça as soluções que permitem administrar biológicos de alta dosagem com mais conforto, menos dor e maior liberdade no tratamento. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Ouça aqui o sexto e último episódio do podcast, com João Pires e Joana Cristovão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.   [Transcrição] Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao sexto e último episódio de "A próxima descoberta", uma série de podcasts em que a Hovione abre as portas do seu mundo para partilhar conosco o impacto global da inovação desenvolvida a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e ao longo desta viagem falamos de processos químicos, de partículas ultrafinas e de linhas de produção revolucionárias. Hoje olhamos diretamente para o futuro da medicina. Depois de explorarmos o mundo das pequenas moléculas, entramos agora numa nova dimensão terapêutica, a dos medicamentos biológicos, baseados em moléculas maiores e mais complexas, que estão a abrir novas possibilidades de tratamento de várias doenças. E para nos explicar como esta área está a evoluir e como a ciência pode tornar estes tratamentos mais eficazes, estáveis e acessíveis para os doentes, recebo o João Pires e a Joana Cristóvão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Muito bem-vindos a ambos. João, começaria por si. Para quem nunca ouviu falar deste termo, o que são afinal os medicamentos biológicos e o que os distingue dos medicamentos de pequenas moléculas, que são mais associados à química tradicional? João Pires (JP): Sim. Se pensarmos um bocadinho naquilo que podemos encontrar hoje em dia nas farmácias, é de facto verdade que a maioria desses medicamentos são compostos por essas pequenas moléculas, estruturas mais simples, ainda que eficazes, mas que nós conseguimos desenhar e fabricar pela química chamada clássica e que desenvolveu esse conhecimento ao longo dos últimos 150 e 200 anos. Relativamente aos biológicos, são completamente diferentes. São organismos que não só pela sua complexidade, como muito maior dimensão e estrutura, são, principalmente na sua origem, bastante diferentes, porque são produzidos de organismos vivos, por exemplo, as células, que dadas certas condições ideais, podem funcionar como fábricas de biológicos e que nos permitem, tal e qual como no nosso corpo, extrair as substâncias desejadas, que podem ter uma influência terapêutica relevante para certas indicações. Beneficiam, por isso, de milhões de anos de evolução, que a química clássica não tem conseguido. NF: É a biologia que fez essa evolução. JP: É a biologia. Portanto, é a beleza também da- NF: A natureza que fez esse processo todo, esse processo por nós.  NF: Joana, por serem criados a partir de organismos vivos, podemos dizer que estes medicamentos são, entre aspas, mais inteligentes, que têm um potencial terapêutico maior? Joana Cristovão (JC): Podemos dizer que efetivamente, em alguns dos casos, têm um elevado potencial terapêutico. A vantagem destas moléculas é que são moléculas com uma capacidade de especificidade bastante elevada. Ou seja, podemos ver como se fosse uma chave para uma fechadura. Tem de ser a chave certa para a fechadura. Efetivamente, os biológicos, falando a mesma língua biológica dentro do nosso corpo, conseguem ter esta vantagem, estão a falar a mesma língua. Mas não significa que são melhores do que as pequenas moléculas. Significa que, efetivamente, sendo produzidas por micro-organismos vivos, são bastante complexas e seria muito difícil, e em alguns casos impossível, de serem produzidas pela clássica síntese química, mas têm aqui uma grande vantagem de serem bastante específicos. Exemplos de biológicos são proteínas que têm a função de comunicar dentro do nosso corpo, anticorpos monoclonais que têm a função de identificar um alvo específico e estas funções efetivamente são mais relevantes nos biológicos do que nas pequenas moléculas. NF: João, esta é uma área, pelo que percebo, um pouco emergente ainda em todo o mundo. Como é que a Hovione, sendo uma empresa historicamente ligada à síntese química e engenharia de partículas de pequenas moléculas, chegou até aqui e decidiu também abraçar este desafio dos biológicos? JP: Sinceramente, tem sido uma transição muito natural. Acho que primeiro porque ao longo dos anos a Hovione desenvolveu um conjunto de especialidade, conhecimento científico muito específico em áreas também elas muito específicas de química, engenharia de partícula e formulação. E quando olhamos para os biológicos, apesar da sua maior complexidade, o problema acaba por ser mais ou menos o mesmo. Continua a precisar de materiais, processos e controles que os permitam chegar de uma forma estável e robusta aos pacientes. NF: Mas há potencial? JP: Claro que sim. Não só há potencial como há desafios. E isso vem, se calhar, o segundo ponto, que é a curiosidade. Acho que desde a história da Hovione e desde o fundador, essa curiosidade e esse desejo de abraçar desafios cada vez mais complexos, é um pouco parte da gênese, principalmente no nosso centro de inovação e desenvolvimento, e por isso é também um fator muito aliciante para quem trabalha na Hovione, poder estar a par desta transição. NF: E não está assim tão longe da sua história também. JP: Não. NF: Por isso que explicava.  NF: Joana, em que áreas terapêuticas é que estes medicamentos biológicos já tiveram um impacto mais significativo? Há doenças que vieram mudar claramente a forma como os doentes são tratados? JC: Há áreas- NF: Isto já não é ficção científica, já existe na prática. JC: Exatamente. E já existe há muito tempo em algumas áreas. Por exemplo, na oncologia existem anticorpos que são utilizados também para matar as células cancerígenas. Com especificidade. Ou seja, em vez de matarmos as células de uma maneira geral, direcionamos esta morte ao mecanismo de ação da doença. NF: Reduz efeitos secundários, imagino. JC: E que também reduz efeitos secundários. E numa vertente também diferente, o cancro é uma doença bastante esperta e evolui muito rapidamente, porque se esconde das nossas defesas e do nosso sistema imunitário. Então também existem tratamentos baseados em biológicos, cujo objetivo também é ajudar as nossas defesas a fazerem o trabalho delas, a retirar este véu invisível que alguns tumores têm, que os faz progredir muito rapidamente e a ajudar as nossas defesas a atacar. Outro exemplo, e é um exemplo clássico que já foi resolvido há 40 anos, é o exemplo da diabetes. A insulina é o tratamento mais comum utilizado para a diabetes e aqui, antes da biotecnologia, a insulina era isolada de animais e consequentemente, a sua produção era bastante limitada. Com a possibilidade de utilizar a biotecnologia para produzir os biológicos, conseguimos produzir insulina humana, a chamada insulina recombinante, porque efetivamente utilizamos micro-organismos vivos para os produzir. E esta mudança fez com que este tratamento ficasse disponível para mais pessoas e que se salvassem milhares de vidas. NF: Dois exemplos claros onde estes biológicos já estão, entre aspas, a atacar. João, hoje já estão, de facto, no mercado, mas imagino que a transposição e estabilização em laboratório trazem grandes desafios técnicos. Que desafios é que foram estes no caso dos biológicos? JP: Sendo moléculas muito complexas e, como a Joana descreveu, até de alguma forma elegantes, são também igualmente sensíveis, quase como uma flor de estufa. E portanto, a evolução biológica, como falámos há pouco, tratou de as otimizar para sobreviverem e estarem em condições muito específicas, condições essas que muitas vezes não são as que nós temos nos nossos processos industriais, de transporte ou até da administração do fármaco. E portanto, estas moléculas são tipicamente muito sensíveis ao calor, ao ar, à pressão e até só o simples fato de elas estarem muito tempo juntas, acabam por começar a interagir entre si, perder a sua estrutura e também, infelizmente, o seu efeito terapêutico. E é um bocadinho aí que nós entramos, ou seja, os clientes tipicamente vêm ter connosco com algo com potencial terapêutico muito grande, mas apenas muitas vezes só uma prova de conceito. E nós pegamos, digamos assim, nesses primeiros testes laboratoriais experimentais para tentar criar aqui controles, processos, até formulação, que permita levar isto aos milhares, milhões de unidades, sempre com obviamente bastante cuidado para um controle de qualidade e estabilidade imaculados para os fármacos. NF: Joana, mas afinal, como é que são administrados estes medicamentos? São diferentes dos outros? Tradicionalmente, muitos exigem uma ida ao hospital para uma administração intravenosa mais demorada. É assim que funcionam com os biológicos? JC: Exatamente. Tradicionalmente, estes biológicos são administrados diretamente na veia por perfusão, muito semelhante quando nós levamos soro. Mas a indústria farmacêutica quer se focar também não unicamente em resolver os problemas e doenças, mas também tem um foco grande no doente. Esta administração envolve uma ida ao hospital, algum tempo para ser administrado e em doenças crônicas, isto repete-se ao longo da vida. E a ambição da indústria farmacêutica também é arranjar tratamentos alternativos que sejam mais confortáveis ao doente e que se crie mais autonomia para o doente. NF: Para que ele não precise, se calhar, de ir ao hospital? JC: Exatamente. O objetivo final seria então termos soluções mais injetáveis com uma ambição do próprio doente conseguir administrar sozinho. Para isso, então é preciso haver inovação na parte de tecnologia, de desenvolvimento de formulações e de dispositivos que permitam que o doente o consiga fazer. NF: João, é aqui que entra o vosso conceito de formulações de alta concentração. O que é isto na prática? E de facto, um dia já não precisaremos de um enfermeiro para uma injeção. Haverá um dispositivo para o fazermos nós próprios. JP: Sim, esperemos que sim. O conceito de formulações de alta concentração é relativamente simples. Significa colocar o máximo de medicamento no volume o mínimo possível, mínimo o suficiente que possa, por exemplo, caber num bolso, estilo um auto injetor, que hoje em dia creio que as pessoas- NF: Uma caneta. JP: Uma caneta. Creio que as pessoas, até pela nova geração de alguns medicamentos, especialmente para obesidade, etc, tornou-se relativamente popular e bastante mais familiar, apesar de ser utilizado em outras aplicações. Isto tecnicamente parece simples, colocar mais de uma coisa, menos de outra, mas obviamente, como sabemos, estas moléculas, e já falámos aqui, são bastante sensíveis e à medida que vão sendo mais concentradas, ou seja, estão mais apertadas entre si Problemas começam a surgir. Para além da estabilidade e como já falámos um bocadinho da sua alteração de estrutura, há essencialmente um problema de viscosidade. Eu acho que isto é fácil de visualizar, qualquer coisa mais concentrada tende a ser mais viscosa. NF: Mais difícil de injetar. JP: Mais difícil de injetar, o que leva à questão da dor e, portanto, mais viscosidade tipicamente leva a uma maior dor da administração. Isso viola diretamente o conceito de desenvolvermos formulações e medicamentos mais convenientes e mais user friendly. E é esse o problema que a indústria neste momento tem em mãos, arranjar soluções que consigam quebrar as barreiras da dose e baixar os volumes sem comprometer a eficácia terapêutica, mas também a conveniência e a aceitabilidade destas novas soluções de alta concentração. NF: Joana, só para terminarmos, o que sentem os cientistas quando olham para o futuro e veem também este trabalho diário da Hovione a aproximar a medicina de soluções que são cada vez mais personalizadas, mais convenientes, mais centradas na vida dos doentes, mais confortáveis para eles? Imagino que orgulhosos por esse desenvolvimento também. JC: Acho que é uma grande responsabilidade e acho que daí também vem uma grande motivação. A medicina está cada vez a tornar-se mais personalizada, mais focada nos mecanismos que levam à doença e não só focada no tratamento de sintomas, mas em ser mais dirigida àquilo que faz com que haja doença. E acho que é um grande orgulho estar em equipas que fazem parte desta jornada, que nos levam a um futuro melhor e focado no doente. NF: João, o futuro é biológico ou não só, mas também? JP: Não só, mas também. Mas claramente acho que os biológicos nos permitem novos sonhos, novas ambições, especialmente em melhores medicamentos, mais personalizados e mais eficazes e, portanto, abre todo um conjunto de possibilidades que até hoje se calhar não era possível de imaginar. NF: João Pires e Joana Cristóvão, muito obrigado por nos abrirem as portas do futuro da medicina. É com este olhar sobre o amanhã que termina a primeira temporada do podcast "A Próxima Descoberta". Ao longo destes seis episódios, viajamos desde uma cave em Lisboa em 1959, até à liderança tecnológica mundial, que todos os anos toca a vida a mais de 80 milhões de pessoas. Ficou provado que com curiosidade, rigor e talento, as próximas grandes descobertas da ciência mundial podem mesmo ter a assinatura do nosso país. Para ouvir todos os episódios desta série, pode fazê-lo em Observador.pt e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, foi um gosto acompanhar-vos nesta viagem. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP6) - Biológicos de alta dosagem: da ficção à realidade

Jul 23, 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Da asma às terapias que podem chegar ao cérebro, seguimos a viagem da Hovione pelo respiratório e pela via nasal, onde cada partícula é pensada para melhorar a vida dos doentes. Ouça aqui o quinto episódio do podcast, com Eunice Costa, diretora no Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione. [Transcrição] E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A Próxima Descoberta". Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo a "A Próxima Descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas da ciência e da inovação com impacto global. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vamos descobrir como o nosso sistema respiratório e a via nasal são usados para fazer chegar medicamentos ao nosso organismo de forma rápida e inovadora. Para isso recebemos Eunice Costa, diretora no Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Olá, Eunice, muito bem-vinda. A história da Hovione está intimamente ligada ao pulmão. Começaram há mais de duas décadas a desenvolver e a fabricar soluções para medicamentos inaláveis. Quais foram as grandes doenças cujo combate avançou significativamente também com a ajuda destas inovações? Eunice Costa (EC): Olá, Nelson. Obrigada pelo convite. De facto, para começar, as doenças do foro respiratório, as com maior incidência e com impacto societal enorme. Temos a asma e temos a doença pulmonar crônica obstrutiva, DPOC. Toda a tecnologia que é necessária para gerir estas doenças, desde o desenho das moléculas, às formulações, aos dispositivos de administração, têm em si tecnologias fundamentais para que sejam absolutamente geríveis. Obviamente com um peso substancial na vida dos pacientes diariamente, mas que são possíveis de gerir e de ter uma vida perfeitamente normal. NF: Até porque algumas não são curáveis. EC: Exatamente. NF: É o caso da doença pulmonar obstrutiva crônica. EC: Não. Os medicamentos que estão disponíveis são essencialmente de gestão, ou seja, de broncodilatação. Ficarmos com as nossas vias desobstruídas. NF: É o que faz uma bombinha da asma? EC: É o que faz a bombinha da asma, exatamente, que toda gente conhece. Acho que é o dispositivo mais paradigmático e que muitas vezes se vê nos filmes mal utilizado. NF: Sério? É também o que tomamos quando fazemos uma espirometria, não é? EC: A espirometria é já para diagnóstico. Ou seja, vai medir a nossa capacidade, que já estamos doentes. NF: Mas usam também um inalável nessa altura para fazer o exame. EC: Exatamente. NF: Muito bem. Hoje em dia, a Hovione orgulha-se também de oferecer soluções de A a Z para medicamentos inaláveis, nasais, tendo como principal destino, claro, o pulmão, como aqui falávamos. Isto significa que vocês controlam todo o processo, desde a tal síntese da molécula, como falava, até ao inalador final, até ao objeto? EC: Sim, é isso mesmo. E a jornada tem sido bastante progressiva, orgânica, digamos assim. Se dizer alguma piada orgânica, química orgânica, até fica bem. Enfim, mas continuemos. A Hovione começou pela síntese de moléculas, na sua história. E depois foi se especializando, da síntese para o controlo do que se chama o controlo do tamanho de partícula, usamos o termo engenharia de partículas, porque estes medicamentos têm que ser de facto engenheirados para que sejam de forma eficaz administrados ao pulmão. Temos a síntese. Não estamos em drug discovery, ou seja, não estamos na parte da descoberta da molécula em si. Suportamos é as outras empresas farmacêuticas na síntese, neste caso também na engenharia de partículas, que é fundamental no caso dos medicamentos inaláveis. Depois é misturar essas partículas de princípios ativos com toda uma composição para daí fazer, de facto, um medicamento, que também não é trivial. E finalmente, no inalador, no dispositivo médico, que é o mais visível, é o que nós vemos, é o dispositivo no final, que é o motor que gera o aerossol. Na bombinha de asma, que é mais conhecida, é ativo. Temos ali algo que gera o aerossol de forma ativa. Vem de um gás pressurizado, que é expelido. No caso dos dispositivos onde nós nos especializamos, são o que se chamam dispositivos passivos, e utilizamos dispositivos para gerar aerossóis de pó, em que aí é a capacidade respiratória do próprio paciente que puxa a medicação. NF: Que aspira o tal pó. EC: Que inala o pó. Portanto, ainda é um desafio que tem que haver uma combinação muito perfeita entre partícula, formulação e dispositivo para conseguir aerosolizar primeiro e ter uma deposição eficaz. E temos controlo sobre estes aspetos. NF: O pulmão parece-me ser um órgão particularmente desafiante para a administração de medicamentos. O que é que torna tão difícil garantir que o medicamento chegue exatamente ao local onde é suposto? EC: Certo. NF: Põe-se-lhe um GPS? EC: Exato. EC: Não propriamente. Era bom. Enfim, o pulmão, são milhões e milhões de anos de evolução para exatamente evitar qualquer partícula estranha, seja um patogênio, um vírus, o que seja, de qualquer partícula estranha, de facto, ser inalada. NF: É o seu comportamento normal. EC: Exatamente. Felizmente para nós. E é muito eficaz em evitar que sejamos expostos A um órgão que diz que a superfície do pulmão, se fosse toda estendida, era do tamanho de um corte de tênis. Tem uma superfície enorme. Se não tivesse mecanismos de defesa, a entrada de partículas estranhas, estaríamos numa situação difícil. Evolutivamente, o pulmão foi desenhado para manter tudo fora. Quando estamos a tentar utilizar o pulmão como via de entrada para tratar um paciente, para entregar um medicamento, temos que de alguma forma circumnavegar estes mecanismos de defesa. NF: Ou enganar o pulmão. EC: Sim, ou enganar. Falar com ele com jeitinho. E basicamente aqui o truque principal, há um número mágico, que é o aerossol, seja uma nuvem de pó, seja um aerossol líquido, esse tamanho desse aerossol tem que ser exatamente entre um a cinco mícrons. Estamos a falar 10 vezes mais pequeno que um fio de cabelo, ou ainda mais pequeno que isso. São um pó extremamente fino, são partículas extremamente pequenas. Partículas muito pequenas aglomeram, absorvem água, comportam-se de forma errática. Tem que, para já, reduzir o tamanho de partícula, depois controlar estes mecanismos. E finalmente, usar um dispositivo relativamente simples. NF: Claro. EC: Que consiga fazer esse aerossol. NF: E que qualquer pessoa consiga usar. EC: Exatamente. NF: Creio que neste percurso, o mercado do Japão voltou a cruzar-se com a história da Hovione, muito por culpa do sucesso do Inavir. Que produto é este e que impacto é que teve? EC: O Inavir é uma história já com alguns anos, e muito exemplificativa do papel da Hovione nesta área de nicho da farma. É uma área de nicho, há muitas competências que são necessárias para fazer, de facto, um produto neste espaço. E o Inavir, em particular, para contexto, é um antiviral, para o tratamento de gripe. É um medicamento que é administrado diretamente ao pulmão, que é a porta de entrada para o patogênio em causa. E a Hovione esteve envolvida exatamente nesta combinação, ou seja, no desenvolvimento do medicamento que está dentro do dispositivo e do dispositivo em si. O dispositivo, o inalador, ainda hoje continua a ser o único inalador a nível mundial que é de toma única, ou seja, é extremamente simples, porque estamos a falar numa situação em que o paciente está com gripe. Se há coisa que não faz sentido é reutilizar o inalador, é para tomar e deitar fora, porque está com gripe. Foi um desafio técnico de criar um inalador que fosse, do ponto de vista de custo e de sustentabilidade, proporcional ao uso pretendido, que é inalar uma vez. NF: E descartar. EC: E descartar. E continua a ser até hoje, desde 2010, quando foi aprovado, o único inalador de toma única. Podemos dizer que desde então, milhões de pessoas já foram tratadas com uma tecnologia feita em Portugal. O que é interessante. NF: É interessante também para o orgulho nacional. EC: Exatamente. NF: Eunice, nos últimos anos, a via nasal tem despertado um enorme interesse científico, sobretudo por esse potencial de chegar mais rapidamente a determinadas zonas do organismo, inclusive ao cérebro, ao sistema nervoso central. O que é que torna esta via tão especial? Que parece que não tem portagens. EC: Sim, exato. Tem algumas. É sempre preciso fazer um bypass aos mecanismos de defesa. O nasal é uma área interessante, porque nós associamos administrar qualquer coisa ao nariz, associamos às rinites alérgicas, aos pólens, às sinusites. NF: E às alergias. EC: As alergias, tudo que é muito tópico, é muito localizado. Mas de facto, o nariz oferece uma capacidade de absorção extremamente rápida. Começou-se a explorar como porta de entrada para tratamento de doenças não necessariamente relacionadas ao que se manifesta em sintomas no nariz. Primeiro, para situações como dor, por exemplo, a gestão de enxaquecas. Como também como estava a dizer, mesmo diretamente ao cérebro. Isto por quê? Nós temos sentido cheiro no nariz. A cavidade nasal tem uma série de nervos. NF: Mas o que nos permite cheirar está no cérebro. EC: Exatamente. Ou seja, é das poucas vias não invasivas, que permite ter ali uma estrada muito concreta do nariz até ao cérebro, através dos nervos olfatórios e outros também que são os trigeminais. E isto abre uma porta de entrada para pensar em formas muito mais simpáticas para os pacientes de tratar doenças. NF: Eunice, olhando aqui um bocadinho já para o futuro dos cuidados de saúde, esta inovação por via nasal pode vir a substituir injeções em muitas terapias. Podemos vir a dizer adeus às agulhas que são tão odiadas. EC: Eu acho que infelizmente não. Há tantas terapias inovadoras a serem desenvolvidas e as agulhas e as injeções ainda continuam a ser uma forma de assegurar que, principalmente as terapias novas e terapias biológicas, onde a eficiência de administração tem que ser basicamente 100%, tudo o que se prepara tem que entrar no paciente. Ainda estamos longe de garantir isso através do nariz ou através do pulmão. Ainda não. NF: Ainda não, mas já com muitas vantagens em algumas situações. Para que isto tudo de que estivemos a falar chegue ao mercado, a investigação não se faz, imagino que, de forma isolada. Na vossa equipa também contam com parceiros científicos, académicos, que aceleram estas descobertas na Hovione? EC: Sem dúvida. Para começar, são as parcerias com as universidades portuguesas, que têm sido uma fonte de talento e conhecimento absolutamente fundamental para os avanços que fomos fazendo ao longo dos anos e no pulmão, em particular, ou na administração respiratória. Desde as faculdades de Farmácia, seja de Lisboa ou de Coimbra, a Universidade Nova, o Técnico, têm sido parceiros fundamentais. Não só académicos, mas também empresas. Ou seja, a Hovione, principalmente dada a complexidade. Estamos a falar aqui de uma multiplicidade de disciplinas que se têm que encontrar, desde parte mecânica, fisiológica, perceber a biologia. Isto não se faz sozinho. Para fazer um passo significativo, não se faz sozinho. Colaboramos com empresas como a Precepart, na Alemanha, na área de dispositivos, por exemplo, dos inaladores, e tem sido absolutamente fundamental para o nosso sucesso na área. NF: Eunice Costa é a cientista da Hovione. Muito obrigado por nos ajudar a perceber hoje como a ciência está a transformar o pulmão e como a via nasal é também uma porta de entrada para medicamentos que podem melhorar a vida de milhões de pessoas. Este foi o quinto episódio de "A Próxima Descoberta". Na próxima semana chegamos ao último capítulo desta temporada para falar quase de ficção científica tornada realidade. Vamos descobrir os medicamentos biológicos de alta dosagem e perceber como os tratamentos contra o cancro podem passar do hospital para as nossas casas.  Todos os episódios estão disponíveis em Observador.pt e também nas plataformas de podcast. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP5) - Pulmão e via nasal: ciência que respira

Jul 16, 2026