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Artigo de Imprensa / Maio 25, 2019

A história da portuguesa que "nunca se esqueceu do conselho da avó" e criou um império numa cave na Lapa

Visão, 25 Maio 2019

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A vida da portuguesa Diane Villax é também a da farmacêutica Hovione, fundada há 60 anos. E parte de uma saga familiar que começa nas margens do rio Zambeze e mete refugiados húngaros, bailes com a rainha de Inglaterra e negócios na China



 

A história de Diane Villax é daquelas que se contam sozinhas, sem ser preciso acrescentar-lhe pós de perlimpimpim. A menina que cresceu a ler e a amar biografias protagonizaria facilmente um livro, percebe-se ao fim de pouco tempo de entrevista. Com o bónus de a sua vida trazer mais umas quantas histórias de pessoas com quem se foi cruzando ao longo dos seus 84 anos, e de grande parte dela coincidir com a da empresa farmacêutica que ajudou a fundar aos 24. E esse livro poderia começar assim: “Diane nunca mais se esqueceu do conselho da sua avó Blanche.”

A luso-inglesa Blanche Laura du Boulay mudara-se para Lisboa ao ficar viúva pela segunda vez, em meados dos anos 40, passando a morar com a nora Isabel e a neta Diane, no lindíssimo Pátio do Pimenta, ao Chiado. Em 1948, com a libra a desvalorizar-se 20% relativamente ao escudo, ofereceu-se para ajudar na loja de decoração de um conhecido, a Renaissance, na vizinha Rua das Chagas. Pertencia à alta sociedade, mas não lhe caíam os parentes na lama por procurar emprego.

Não era a primeira vez que trabalhava. Em 1919, tendo ficado viúva com três crianças a seu cargo, Blanche decidira ganhar autonomia indo para a loja Maples, aprender a decorar casas. Quase trinta anos depois, há de demorar pouco tempo até tomar conta da Renaissance, encarregando-se em remote control do Reid’s Hotel, na Madeira, e de vários apartamentos de ricaços, em Nova Iorque. “Tinha muito bom gosto, tinha olho”, recorda a neta.

Em 1952, ao ver que Diane chegara aos 17 anos sem qualquer formação, a avó, pragmática, dá-lhe um conselho fundamental: “Você tem de estar preparada para a sua vida, deve precaver-se.” E é assim que Diane parte rumo a Inglaterra, onde vivera até aos 9 anos, para fazer um curso intensivo de estenografia, contabilidade e datilografia, seguido de um estágio. No ano seguinte, é também lá que irá debutar, numa temporada particularmente importante porque Isabel II fora coroada rainha, presidindo, por isso, a muitos dos bailes.

 

 

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Diane Villax com a avó





Por esta altura, Diane já está habituada a ambientes formais. Blanche gosta de receber e dá cocktails para cinquenta pessoas, que muitas vezes ficam para jantar. Quanto a ela, deve aparecer bem vestida e saber fazer conversa, mas apesar de ter sido “muito bem educada e pouco instruída”, não é o estereótipo da menina de sociedade oca. Lê muito, por influência da avó, quase sempre ficção histórica ou biografias de militares, então na moda.



Diane tem 19 anos quando Blanche, sempre Blanche, lhe arranja o seu primeiro emprego, numa empresa que se dedica à importação. Trabalha no duro, manhãs de sábado incluídas, e não se limita a traduzir a papelada que entra e sai do escritório de Mr. Crocker – vão ser três anos a aprender tudo o que precisará na sua vida profissional futura “e a ganhar um balúrdio”, ri-se hoje.



As amigas invejam-na, acham-se inúteis porque a maioria está proibida pelos pais de trabalhar. Sorte a dela que a avó leva a sério o seu futuro. “Éramos geridas”, conta. “Eu, até dizer ‘Quero casar-me com o Ivan’, nunca tomei uma decisão na vida.”



Ivan Émeric Villax. Mais velho dez anos, o húngaro é um engenheiro químico brilhante, um homem fascinante, com a cabeça sempre cheia de ideias inovadoras. O seu pai, Ödon Villax, um cientista perito em genética de plantas, optara por sair do país quando lhe aconselharam a manter a cabeça baixa a seguir às primeiras eleições depois da Segunda Guerra Mundial. Ainda não havia a Cortina de Ferro, mas pais e filhos viajaram pela calada da noite, pouco depois de Ivan se licenciar, em 1948. E, quando estavam num campo para pessoas deslocadas, em Salzburgo, Áustria, Ödon é convidado pela Secretaria de Estado da Agricultura portuguesa a criar um centro de investigação em Elvas.



Ivan (1925-2003) gostava de dizer que deixara a Hungria com uma escova de dentes num bolso, o diploma no outro e os russos no seu encalço. De Salzburgo seguira para França, onde trabalhou no Centro de Investigações Agronómicas de Clermont-Ferrand, até que, no Natal de 1951, os pais o convencem a oferecer os seus serviços em Portugal. O engenheiro é logo contratado pelo Instituto Pasteur de Lisboa, então um importante laboratório farmacêutico, trazendo na bagagem experiência na área dos antibióticos.



Os dois conhecem-se em casa de uma amiga comum, e não tardará muito até Diane de Lancastre Houssemayne du Boulay passar legalmente a Diane Villax. Três meses antes do casamento, marcado para fevereiro de 1958, despede-se para preparar a festa e o enxoval, com grande pena de Mr. Crocker. “Diga ao seu noivo que tenho duas pistolas”, avisa o patrão que, uns anos mais tarde, irá brincar: “I worked for her” (trabalhei para ela).



Diane já na altura era mandona – se os colegas não respondiam atempadamente às cartas, ia pedir-lhes explicações. Mas era sobretudo – e continua a ser – rigorosa e exigente. Fora educada por uma mulher vitoriana e nada meiga, a verdadeira matriarca que tudo punha e dispunha na família. E não passara incólume à Segunda Guerra Mundial. Como o seu pai, Neville “Barney” Houssemayne du Boulay, era militar, cresce a saltitar entre colégios. “As crianças tinham de se arrumar”, ironiza.



 

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Diane e Ivan, já noivos, em 1957





EDUCADA PARA SER MANSINHA

Os anos de guerra marcam-na muito. “Os jesuítas dizem: ‘Deem-me uma criança até aos 7 anos e fica formada’, e têm razão”, sabe hoje. Toda a gente tinha mapas na parede com os avanços e os recuos dos Aliados, ela não perdia um noticiário e, a certa altura, já lia os jornais. “Aqueles anos formaram-me, e depois os anos com a minha avó continuaram essa formação.”



Nascida em Lisboa, em janeiro de 1935, Diane tinha ido com um ano para Inglaterra, onde pouco depois nascia um irmão. Antes da guerra, “Barney” viajava com frequência para África e Isabel morava com os filhos em casa do avô dele, pai de Blanche, uma casa lindíssima, porque John Peter “Pitt” Hornung já era muito rico.



Filho de imigrantes da Transilvânia, “Pitt” casara-se com a portuguesa Laura de Paiva Raposo, cujo pai detinha vários “prazos da Coroa” na Zambézia, uma província no Centro de Moçambique. Em conjunto com um pequeno grupo de investidores, explorou extensas propriedades de cana-de-açúcar, passando de empresário falido a dono de um império. No final do século XIX era, então, criada a Companhia do Açúcar de Moçambique, mais tarde dona da Refinaria Colonial, em Lisboa, antecessora da Sidul.



“Pitt” ainda assiste ao início da guerra, morrendo em 1940. Dois anos depois, Diane vai para um colégio interno, o primeiro de vários, e, quando os pais se separam e a mãe regressa a Portugal, a avó passa a recebê-la ao fim de semana e nas férias. Será por pouco tempo. Em agosto de 1944, o segundo marido de Blanche está tão doente que Diane é recambiada para Lisboa.



Recambiada. Foi assim que se sentiu naquele verão em que chegou à capital portuguesa, direta para o colégio interno de umas freiras belgas, no palácio que é hoje o Museu do Traje. Diane não fala francês nem português, sente-se infelicíssima e só quer voltar para Inglaterra. Tantos bilhetinhos envia à mãe que em janeiro entra para o Ramalhão, em Sintra, mais um colégio religioso, desta vez de dominicanas.



Seis anos no Ramalhão dão-lhe segurança, mas, olhando para trás tem pena do pouco que aprendeu. “Exigia-se pouco, não fiz um único exame, nem da quarta classe. As meninas eram educadas para serem donas de casa e mansinhas.” Salvam-na os dois anos seguintes, em que frequenta a antiga Escola Francesa de Lisboa (hoje Liceu Francês), então no Pátio do Tijolo. Foi aí que se “abriu a maravilha do conhecimento”, diz hoje. Francês, História, Matemática... – não houve nada que não lhe quisessem ensinar e ela aprender.



É após a Escola Francesa que Diane segue o conselho da avó e tira o curso que lhe há de permitir ter uma profissão. Quando casa com Ivan Villax, havia passado três anos exatos na empresa de Mr. Crocker, adorava o que fazia e o facto de ganhar o seu dinheiro, mas nem lhe passou pela cabeça que o trabalho lhe iria fazer falta.



 

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Ivan Villax, com os pais e os irmãos mais novos, ainda na Hungria



A verdade é que nos primeiros anos não teve tempo para pensar nisso – foi mãe nove meses depois de se casar, e quando Guy tinha quatro meses apareceram dois refugiados húngaros (Nicholas de Horthy e Andrew Onody) a desafiar o marido a fundar uma empresa. Horthy era filho do regente da Hungria e um antigo conhecimento de Ivan. Ele e o amigo propunham uma joint venture com uma empresa italiana, também pertencente a húngaros, que fabricava antibióticos. Naquela altura, em Itália não havia, por princípio, patentes de produtos farmacêuticos, mas não era possível exportá-los. Ora, Ivan tinha patentes de invenção e, por isso, entrou com 14% do capital, o valor da propriedade intelectual.

A CAVE NA LAPA

A 8 de abril de 1959 nasce, então, a Hovione. Como Ivan ainda trabalha no Instituto Pasteur, a sociedade é celebrada entre Horthy, Onody e Diane, entrando cada um com 35 contos. Diane vende 500 ações da empresa criada pelo seu bisavô “Pitt”, sendo esse o único dinheiro que alguma vez meterá na Hovione. E Ivan junta-se oficialmente em 1960.



Ivan tem um contrato muito interessante com o Pasteur: ao fim de seis meses, o instituto perde a patente para o resto do mundo (mantém apenas para Portugal e colónias). O engenheiro químico está, por isso, livre para montar um laboratório e começar a laborar, coisa que faz inicialmente num quintal, nas Avenidas Novas. Com a ajuda de um rapaz vindo do Pasteur e uns panelões comprados no Braz & Braz, fabrica o produto que exporta para Espanha, Itália e Grécia.



Em 1961, Ivan é chamado a Itália, onde durante seis meses se dedica em exclusivo à empresa italiana. Com ele vai Diane, os dois filhos que já tinham, o tal rapaz e a sua mulher. Quando todos regressam, no verão seguinte, montam um laboratório de produção, desta vez numa cave, na Lapa, e os dois húngaros saem da sociedade, levando no bolso mais do dobro daquilo que haviam investido.

AS JOIAS, OS JAPONESES E O 25 DE ABRIL

A cave da Travessa do Ferreiro coincide com a decisão de produzirem matéria-prima para a indústria farmacêutica e o objetivo de olharem o mundo como mercado. Como tem de ser algo de pequeno volume, por causa da falta de espaço, concentram-se nos corticosteroides, que custam 60/90 dólares o grama. Diane, que já fora mãe de mais dois filhos, gere o dinheiro, assegurando que ele nunca falta ao final do mês para pagar os ordenados aos sete ou oito empregados. Apesar dos seus cuidados, um dia tem de ir à gaveta das joias e empenhá-las.



Essa é uma das histórias que conta quando lhe pedem que recorde um pouco da história da Hovione, um exercício que faz com alguma frequência, junto dos novos colaboradores. Logo a seguir, segue-se habitualmente a boa notícia que ouvem, no final dos anos 60, da boca de uns japoneses que lhes batem à porta: querem comprar corticosteroides. No Japão, não fabricam matéria-prima, só formulam; o processo é patenteado e é nisso que estão interessados. A entrada no mercado japonês dá-lhes impulso para construir uma fábrica, em Loures, e avançar para a orla do Pacífico – Austrália, Taiwan, Coreia do Sul, Tailândia.



 

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Diane Villax numa viagem ao Sri Lanka

 



Em 25 de abril de 1974, a Hovione é ainda uma pequena empresa, com apenas 50 empregados e, como exporta tudo, não é afetada. Ivan, de resto, não deixa que a política entre na fábrica, mas em casa torna-se mais difícil. O filho mais velho, Guy, tem apenas 15 anos, mas já anda metido na política. A época é tão “desaustinante”, recorda Diane, que o casal decide mandar os quatro filhos um ano letivo para Inglaterra.

Durante esse período, Diane só passa uma semana por mês em Lisboa. Entre gerir duas casas, os filhos e uma parte da empresa (contabilidade, recursos humanos, correios, bancos), não lhe sobra tempo para se afligir. O tempo, aliás, parece correr. Num ai chega 1978 e a surpresa de ouvir Deng Xiaoping dizer que a China está aberta a negócios, uma oportunidade que a Hovione não deixa escapar. Os Villax estreiam-se a comprar matéria-prima chinesa na feira de Cantão e, um ano mais tarde, têm escritório em Hong Kong.

O início da década de 80 traz Macau na mira e Guy, então com 23 anos, a abrir a segunda fábrica da empresa – e a primeira fora de Portugal. Desde arranjar um terreno até tratar da logística, foram catorze meses loucos, numa altura em que o material era importado via Roterdão, sendo descarregado em barcaças que faziam a travessia entre Hong Kong e Macau.

Nessa empreitada, Guy Villax tem o apoio de Carlos Costa, um dos muitos portugueses vindos das ex-colónias que Ivan emprega após o 25 de Abril. São pessoas que trazem horizontes mais largos e merecem ser bem recebidas em Portugal como ele fora em 1951. “Orgulho-me disso, mas a verdade é que fomos muito recompensados”, diz hoje Diane.

A segunda geração vive de tal forma a empresa que a sua entrada é quase automática. Guy torna-se cedo administrador-delegado, Peter é apontado como o responsável pela entrada da informática na Hovione, Sofia, a única dos quatro filhos com uma formação próxima da do pai (Farmacologia), passa uns anos em Macau, a gerir a qualidade da produção, antes de responder pelo marketing e pela comunicação da empresa, e Miguel, um matemático brilhante, entrou em 2018, para gerir o que aí vem de Inteligência Artificial.



WORKSHOPS PARA PREPARAR OS NETOS

O advérbio “quase” não está por acaso no parágrafo anterior. Se há coisa em que Diane insiste é que a meritocracia reina na Hovione: “Temos os braços abertos para os membros da família, mas eles devem trazer valor adicionado. Se um Villax tiver prioridade, não conseguimos atrair os melhores.” Aliás, segundo o protocolo familiar aprovado em 2002, nenhum neto pode candidatar-se a um lugar se não falar três línguas e tiver uma licenciatura.

A Hovione é uma empresa familiar, gerida profissionalmente – na administração não encontramos apenas o apelido Villax. E a ideia é assim continuar no futuro, daí que duas vezes por ano sejam promovidos workshops dirigidos à terceira geração. Dos 16 netos, apenas três ainda são menores; os encontros são, por isso, a sério, sublinha Diane, que também já começou a convidar netos para serem “observadores” nas reuniões da administração. “Um dia serão donos e, por isso, têm de saber se a empresa está a ser bem gerida. E é preciso que saibam que nada cai do céu, esse é o drama dos meninos ricos...” Ela própria sabe que não terá assento vitalício nessas reuniões. “Quando já não acrescentar nada, vou ouvir: ‘Foi ótimo, a mãe durou imenso, but bye bye’”, ri-se.

Se nunca se esqueceu do conselho da avó Blanche, Diane também se lembra muitas vezes de ter respondido “quero uma vida completa” quando Ivan lhe perguntou “o que quer da vida”, ao se casarem. “E tive, tive tudo”, diz hoje. “Criámos uma empresa do nada, numa cave, que emprega mundialmente 1 800 pessoas e segue os mesmos princípios, valores e ideais de sempre. Tenho quatro filhos e dezasseis netos e estou no ativo. Ainda este fim de semana, estive a estudar os resultados… Não sabia o que era uma vida completa, mas agora, olhando para trás, sei que tive. Queria chegar ao fim da vida e pensar. ‘Valeu a pena. Deixei alguma coisa para o futuro da família, da sociedade’.”



Rosa Ruela, Jornalista

 

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ZUG, SUÍÇA, 8 de setembro de 2026 — A Hovione Holding AG anunciou hoje a nomeação de Stefan Doboczky como Chief Executive Officer (CEO), com efeitos a partir de 1 de abril de 2027. Stefan Doboczky é Presidente do Conselho de Administração da Hovione Holding AG desde 2024, tendo desempenhado um papel fundamental na definição da estratégia e da visão da empresa. Deixará a presidência do Conselho de Administração quando assumir as funções de CEO. Fundada em 1959, a Hovione é um grupo familiar de tecnologia e serviços farmacêuticos que serve a indústria à escala global, com mais de 2.600 colaboradores, quatro unidades de produção e I&D inspecionadas pela FDA-Food and Drug Administration na Europa, nos Estados Unidos e na China, e é reconhecida internacionalmente pela sua liderança tecnológica nas áreas de secagem por atomização (spray drying) e produção contínua de comprimidos (continuous tableting). Esta nomeação marca o regresso de Stefan Doboczky à indústria farmacêutica, após mais de 17 anos na Royal DSM, onde chegou a membro da Comissão Executiva, com responsabilidade pelo portefólio farmacêutico global do grupo e pelo seu crescimento na Ásia. Posteriormente, exerceu durante 11 anos funções de CEO em empresas industriais cotadas, detidas por fundos de capital privado e integradas em grupos empresariais, incluindo a Lenzing AG, a Heubach GmbH e a Borealis AG. Após a integração da Borealis, da Borouge e da NOVA Chemicals na Borouge International, assumiu as funções de Chief Commercial Officer e Vice-Presidente da Comissão Executiva do grupo resultante da fusão. Passará estas responsabilidades ao seu sucessor a 1 de outubro de 2026 e permanecerá disponível durante seis meses para apoiar a transição. Stefan Doboczky possui um mestrado em Química Técnica e um doutoramento em Ciências Naturais, ambos pela Universidade Tecnológica de Viena (TU Wien), na Áustria, e também um MBA pelo IMD, em Lausanne, na Suíça. Esta nomeação resulta de um processo de sucessão abrangente conduzido pelo Conselho de Administração e representa um passo importante na evolução da Hovione. Reflete a ambição da empresa de continuar a reforçar a sua posição internacional como fornecedor de referência de tecnologia e serviços para empresas farmacêuticas em todo o mundo. Guy Villax, Administrador Não Executivo e Presidente do Conselho de Família, em representação do principal acionista da empresa, afirmou: “Estamos muito satisfeitos por o Stefan assumir a liderança executiva da Hovione. Enquanto Presidente do Conselho de Administração, adquiriu um conhecimento profundo da empresa, da sua cultura e das suas pessoas, e contribuiu para definir a nossa orientação estratégica e as nossas prioridades. A sua experiência internacional, as suas competências comerciais e a sua comprovada capacidade para transformar empresas de forma sustentável colocam-no numa posição privilegiada para liderar a Hovione na sua próxima fase de crescimento. A sua disponibilidade para passar do Conselho de Administração para a liderança executiva é um forte sinal da sua confiança nesta empresa e nas oportunidades que tem pela frente. Stefan Doboczky, CEO designado da HOVIONE, afirmou: “É uma honra assumir o cargo de CEO da Hovione e passar da presidência do Conselho de Administração para a liderança executiva da empresa. Ao longo destes dois anos como Presidente, pude conhecer o extraordinário potencial desta organização, assente numa base tecnológica muito sólida, em pessoas talentosas e num forte compromisso com os doentes. Regressar à indústria farmacêutica, onde desenvolvi uma parte fundamental da minha carreira, e fazê-lo como CEO de uma empresa familiar com uma visão de tão longo prazo é uma oportunidade única. Agradeço ao Conselho de Administração e aos acionistas a confiança depositada em mim. Estou entusiasmado com a perspetiva de trabalhar em estreita colaboração com a equipa de liderança global da Hovione e com o Conselho de Administração para reforçar a nossa presença internacional, impulsionar a inovação e criar valor sustentável para os nossos clientes, parceiros e acionistas.” O Conselho de Administração expressa também o seu reconhecimento a Marco Gil e António Almeida pela liderança que têm assegurado durante este período como co-CEOs interinos e por garantirem a continuidade da execução bem-sucedida da estratégia da empresa até Stefan assumir funções como CEO.      

Artigo de Imprensa

Hovione nomeia Stefan Doboczky como Chief Executive Officer

Set 08, 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Dos hospitais às casas dos doentes, conheça as soluções que permitem administrar biológicos de alta dosagem com mais conforto, menos dor e maior liberdade no tratamento. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Ouça aqui o sexto e último episódio do podcast, com João Pires e Joana Cristovão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.   [Transcrição] Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao sexto e último episódio de "A próxima descoberta", uma série de podcasts em que a Hovione abre as portas do seu mundo para partilhar conosco o impacto global da inovação desenvolvida a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e ao longo desta viagem falamos de processos químicos, de partículas ultrafinas e de linhas de produção revolucionárias. Hoje olhamos diretamente para o futuro da medicina. Depois de explorarmos o mundo das pequenas moléculas, entramos agora numa nova dimensão terapêutica, a dos medicamentos biológicos, baseados em moléculas maiores e mais complexas, que estão a abrir novas possibilidades de tratamento de várias doenças. E para nos explicar como esta área está a evoluir e como a ciência pode tornar estes tratamentos mais eficazes, estáveis e acessíveis para os doentes, recebo o João Pires e a Joana Cristóvão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Muito bem-vindos a ambos. João, começaria por si. Para quem nunca ouviu falar deste termo, o que são afinal os medicamentos biológicos e o que os distingue dos medicamentos de pequenas moléculas, que são mais associados à química tradicional? João Pires (JP): Sim. Se pensarmos um bocadinho naquilo que podemos encontrar hoje em dia nas farmácias, é de facto verdade que a maioria desses medicamentos são compostos por essas pequenas moléculas, estruturas mais simples, ainda que eficazes, mas que nós conseguimos desenhar e fabricar pela química chamada clássica e que desenvolveu esse conhecimento ao longo dos últimos 150 e 200 anos. Relativamente aos biológicos, são completamente diferentes. São organismos que não só pela sua complexidade, como muito maior dimensão e estrutura, são, principalmente na sua origem, bastante diferentes, porque são produzidos de organismos vivos, por exemplo, as células, que dadas certas condições ideais, podem funcionar como fábricas de biológicos e que nos permitem, tal e qual como no nosso corpo, extrair as substâncias desejadas, que podem ter uma influência terapêutica relevante para certas indicações. Beneficiam, por isso, de milhões de anos de evolução, que a química clássica não tem conseguido. NF: É a biologia que fez essa evolução. JP: É a biologia. Portanto, é a beleza também da- NF: A natureza que fez esse processo todo, esse processo por nós.  NF: Joana, por serem criados a partir de organismos vivos, podemos dizer que estes medicamentos são, entre aspas, mais inteligentes, que têm um potencial terapêutico maior? Joana Cristovão (JC): Podemos dizer que efetivamente, em alguns dos casos, têm um elevado potencial terapêutico. A vantagem destas moléculas é que são moléculas com uma capacidade de especificidade bastante elevada. Ou seja, podemos ver como se fosse uma chave para uma fechadura. Tem de ser a chave certa para a fechadura. Efetivamente, os biológicos, falando a mesma língua biológica dentro do nosso corpo, conseguem ter esta vantagem, estão a falar a mesma língua. Mas não significa que são melhores do que as pequenas moléculas. Significa que, efetivamente, sendo produzidas por micro-organismos vivos, são bastante complexas e seria muito difícil, e em alguns casos impossível, de serem produzidas pela clássica síntese química, mas têm aqui uma grande vantagem de serem bastante específicos. Exemplos de biológicos são proteínas que têm a função de comunicar dentro do nosso corpo, anticorpos monoclonais que têm a função de identificar um alvo específico e estas funções efetivamente são mais relevantes nos biológicos do que nas pequenas moléculas. NF: João, esta é uma área, pelo que percebo, um pouco emergente ainda em todo o mundo. Como é que a Hovione, sendo uma empresa historicamente ligada à síntese química e engenharia de partículas de pequenas moléculas, chegou até aqui e decidiu também abraçar este desafio dos biológicos? JP: Sinceramente, tem sido uma transição muito natural. Acho que primeiro porque ao longo dos anos a Hovione desenvolveu um conjunto de especialidade, conhecimento científico muito específico em áreas também elas muito específicas de química, engenharia de partícula e formulação. E quando olhamos para os biológicos, apesar da sua maior complexidade, o problema acaba por ser mais ou menos o mesmo. Continua a precisar de materiais, processos e controles que os permitam chegar de uma forma estável e robusta aos pacientes. NF: Mas há potencial? JP: Claro que sim. Não só há potencial como há desafios. E isso vem, se calhar, o segundo ponto, que é a curiosidade. Acho que desde a história da Hovione e desde o fundador, essa curiosidade e esse desejo de abraçar desafios cada vez mais complexos, é um pouco parte da gênese, principalmente no nosso centro de inovação e desenvolvimento, e por isso é também um fator muito aliciante para quem trabalha na Hovione, poder estar a par desta transição. NF: E não está assim tão longe da sua história também. JP: Não. NF: Por isso que explicava.  NF: Joana, em que áreas terapêuticas é que estes medicamentos biológicos já tiveram um impacto mais significativo? Há doenças que vieram mudar claramente a forma como os doentes são tratados? JC: Há áreas- NF: Isto já não é ficção científica, já existe na prática. JC: Exatamente. E já existe há muito tempo em algumas áreas. Por exemplo, na oncologia existem anticorpos que são utilizados também para matar as células cancerígenas. Com especificidade. Ou seja, em vez de matarmos as células de uma maneira geral, direcionamos esta morte ao mecanismo de ação da doença. NF: Reduz efeitos secundários, imagino. JC: E que também reduz efeitos secundários. E numa vertente também diferente, o cancro é uma doença bastante esperta e evolui muito rapidamente, porque se esconde das nossas defesas e do nosso sistema imunitário. Então também existem tratamentos baseados em biológicos, cujo objetivo também é ajudar as nossas defesas a fazerem o trabalho delas, a retirar este véu invisível que alguns tumores têm, que os faz progredir muito rapidamente e a ajudar as nossas defesas a atacar. Outro exemplo, e é um exemplo clássico que já foi resolvido há 40 anos, é o exemplo da diabetes. A insulina é o tratamento mais comum utilizado para a diabetes e aqui, antes da biotecnologia, a insulina era isolada de animais e consequentemente, a sua produção era bastante limitada. Com a possibilidade de utilizar a biotecnologia para produzir os biológicos, conseguimos produzir insulina humana, a chamada insulina recombinante, porque efetivamente utilizamos micro-organismos vivos para os produzir. E esta mudança fez com que este tratamento ficasse disponível para mais pessoas e que se salvassem milhares de vidas. NF: Dois exemplos claros onde estes biológicos já estão, entre aspas, a atacar. João, hoje já estão, de facto, no mercado, mas imagino que a transposição e estabilização em laboratório trazem grandes desafios técnicos. Que desafios é que foram estes no caso dos biológicos? JP: Sendo moléculas muito complexas e, como a Joana descreveu, até de alguma forma elegantes, são também igualmente sensíveis, quase como uma flor de estufa. E portanto, a evolução biológica, como falámos há pouco, tratou de as otimizar para sobreviverem e estarem em condições muito específicas, condições essas que muitas vezes não são as que nós temos nos nossos processos industriais, de transporte ou até da administração do fármaco. E portanto, estas moléculas são tipicamente muito sensíveis ao calor, ao ar, à pressão e até só o simples fato de elas estarem muito tempo juntas, acabam por começar a interagir entre si, perder a sua estrutura e também, infelizmente, o seu efeito terapêutico. E é um bocadinho aí que nós entramos, ou seja, os clientes tipicamente vêm ter connosco com algo com potencial terapêutico muito grande, mas apenas muitas vezes só uma prova de conceito. E nós pegamos, digamos assim, nesses primeiros testes laboratoriais experimentais para tentar criar aqui controles, processos, até formulação, que permita levar isto aos milhares, milhões de unidades, sempre com obviamente bastante cuidado para um controle de qualidade e estabilidade imaculados para os fármacos. NF: Joana, mas afinal, como é que são administrados estes medicamentos? São diferentes dos outros? Tradicionalmente, muitos exigem uma ida ao hospital para uma administração intravenosa mais demorada. É assim que funcionam com os biológicos? JC: Exatamente. Tradicionalmente, estes biológicos são administrados diretamente na veia por perfusão, muito semelhante quando nós levamos soro. Mas a indústria farmacêutica quer se focar também não unicamente em resolver os problemas e doenças, mas também tem um foco grande no doente. Esta administração envolve uma ida ao hospital, algum tempo para ser administrado e em doenças crônicas, isto repete-se ao longo da vida. E a ambição da indústria farmacêutica também é arranjar tratamentos alternativos que sejam mais confortáveis ao doente e que se crie mais autonomia para o doente. NF: Para que ele não precise, se calhar, de ir ao hospital? JC: Exatamente. O objetivo final seria então termos soluções mais injetáveis com uma ambição do próprio doente conseguir administrar sozinho. Para isso, então é preciso haver inovação na parte de tecnologia, de desenvolvimento de formulações e de dispositivos que permitam que o doente o consiga fazer. NF: João, é aqui que entra o vosso conceito de formulações de alta concentração. O que é isto na prática? E de facto, um dia já não precisaremos de um enfermeiro para uma injeção. Haverá um dispositivo para o fazermos nós próprios. JP: Sim, esperemos que sim. O conceito de formulações de alta concentração é relativamente simples. Significa colocar o máximo de medicamento no volume o mínimo possível, mínimo o suficiente que possa, por exemplo, caber num bolso, estilo um auto injetor, que hoje em dia creio que as pessoas- NF: Uma caneta. JP: Uma caneta. Creio que as pessoas, até pela nova geração de alguns medicamentos, especialmente para obesidade, etc, tornou-se relativamente popular e bastante mais familiar, apesar de ser utilizado em outras aplicações. Isto tecnicamente parece simples, colocar mais de uma coisa, menos de outra, mas obviamente, como sabemos, estas moléculas, e já falámos aqui, são bastante sensíveis e à medida que vão sendo mais concentradas, ou seja, estão mais apertadas entre si Problemas começam a surgir. Para além da estabilidade e como já falámos um bocadinho da sua alteração de estrutura, há essencialmente um problema de viscosidade. Eu acho que isto é fácil de visualizar, qualquer coisa mais concentrada tende a ser mais viscosa. NF: Mais difícil de injetar. JP: Mais difícil de injetar, o que leva à questão da dor e, portanto, mais viscosidade tipicamente leva a uma maior dor da administração. Isso viola diretamente o conceito de desenvolvermos formulações e medicamentos mais convenientes e mais user friendly. E é esse o problema que a indústria neste momento tem em mãos, arranjar soluções que consigam quebrar as barreiras da dose e baixar os volumes sem comprometer a eficácia terapêutica, mas também a conveniência e a aceitabilidade destas novas soluções de alta concentração. NF: Joana, só para terminarmos, o que sentem os cientistas quando olham para o futuro e veem também este trabalho diário da Hovione a aproximar a medicina de soluções que são cada vez mais personalizadas, mais convenientes, mais centradas na vida dos doentes, mais confortáveis para eles? Imagino que orgulhosos por esse desenvolvimento também. JC: Acho que é uma grande responsabilidade e acho que daí também vem uma grande motivação. A medicina está cada vez a tornar-se mais personalizada, mais focada nos mecanismos que levam à doença e não só focada no tratamento de sintomas, mas em ser mais dirigida àquilo que faz com que haja doença. E acho que é um grande orgulho estar em equipas que fazem parte desta jornada, que nos levam a um futuro melhor e focado no doente. NF: João, o futuro é biológico ou não só, mas também? JP: Não só, mas também. Mas claramente acho que os biológicos nos permitem novos sonhos, novas ambições, especialmente em melhores medicamentos, mais personalizados e mais eficazes e, portanto, abre todo um conjunto de possibilidades que até hoje se calhar não era possível de imaginar. NF: João Pires e Joana Cristóvão, muito obrigado por nos abrirem as portas do futuro da medicina. É com este olhar sobre o amanhã que termina a primeira temporada do podcast "A Próxima Descoberta". Ao longo destes seis episódios, viajamos desde uma cave em Lisboa em 1959, até à liderança tecnológica mundial, que todos os anos toca a vida a mais de 80 milhões de pessoas. Ficou provado que com curiosidade, rigor e talento, as próximas grandes descobertas da ciência mundial podem mesmo ter a assinatura do nosso país. Para ouvir todos os episódios desta série, pode fazê-lo em Observador.pt e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, foi um gosto acompanhar-vos nesta viagem. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP6) - Biológicos de alta dosagem: da ficção à realidade

Jul 23, 2026