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Artigo de Imprensa / Fev 01, 2019

Celebramos o SUCESSO: Diane Villax: Chairman Founder Hovione

womenwinwin.com, 1 Fevereiro 2019

Nascida Diane de Lancastre Houssemayne du Boulay, em Lisboa, a 4 de janeiro de 1935, durante as primeiras décadas de vida da Hovione foi ela a metade administrativa do negócio acompanhando o marido em viagens pelo mundo, visitando clientes e, fornecedores ou, mais tarde, em busca da localização perfeita para mais uma fábrica. Mantém as suas responsabilidades no Conselho de Administração da empresa, mas continua também a aproveitar para viajar pelo mundo, por lazer e em trabalho, também  para aprender, inscrevendo-se em cursos intensivos em escolas de gestão como o INSEAD ou o IMD. Diane Villax permanece a guardiã da história da Hovione, que partilhou connosco. 

Maria José Amich: A Hoviove nasce em 1959 mas só uma década depois inaugura a fábrica de Loures. Como começou tudo? 

Em 1959, estava eu casada havia um ano com o Ivan Villax, quando nos aparecem dois húngaros conhecidos dele, Horthy e Onody (daí o nome Hovione), que já tinham ligações com o estrangeiro, especificamente com uma empresa italiana que produzia antibióticos. Esta não podia desenvolver o seu negócio exportando pois não detinha a necessária propriedade intelectual. O meu marido, que na altura trabalhava para o Instituto Pasteur, já tinha conhecimentos e várias patentes sobre a matéria. Achou-se que havia um bom encaixe e formou-se a sociedade Hovione, em abril de 59. Em 62, quando os outros dois sócios resolveram saír para encontrar outros desafios, ficámos os dois sozinhos e logo tomámos a decisão de levar a Empresa para a frente. Iríamos produzir, vender e exportar para o mundo inteiro matéria-prima para a indústria farmacêutica, especificamente corticosteróides, um segmento de mercado de produtos de alto valor e pequeno volume. Como na altura, os recursos eram limitados, instalamos o laboratório em nossa casa e daí a vantagem do sector escolhido pois não tínhamos espaço na nossa cave para produzir grandes quantidades. Procuraríamos sempre produtos de grande complexidade e inovadores, onde a qualidade fosse um valor fundamental para nos diferenciarmos dos outros e estabelecer uma marca reconhecida pelo mundo fora. O Ivan era o criativo, o inventor, o produtor e vendedor. E eu fiquei com a parte administrativa: faturação, exportações, bancos…

MJA: E a parte estratégica, de gestão do negócio?

De início, como o meu marido tinha um contrato muito favorável com o Instituto Pasteur, que determinava que as patentes de invenção dele, quando elaboradas no Instituto, eram pedidas em nome do Instituto Pasteur e de Ivan Villax, ficando pertence exclusivo do dito Instituto em Portugal e no Ultramar Portuguès, enquanto que no resto do Mundo os direitos revertiam a Ivan Villax no caso de não terem sido explorados pelo Instituto Pasteur no prazo de 6 meses. Em 1960 haviam empresários húngaros interessados na sua exploração em Espanha e Itália, depois na Grécia e Suíça e, fabricado na nossa cave em Portugal, exportávamos o produto activo.

MJA: Porque decidiram produzir e não apenas vender a patente?

Porque a patente era muito valiosa, valia muito mais do que vendendo-a.   

Em meados dos anos 60, apareceram à nossa porta japoneses interessados na compra da nossa gama de corticosteroids. No Japão ainda não se fabricava a matéria-prima para a indústria farmacêutica, só se formulava. O meu marido tinha patentes de processo independentes sobre estas moléculas. Começámos a exportar para o Japão a partir de 66 ou 67. Seguiram-se Taiwan, a Coreia do Sul, Austrália e quase todo a orla do Pacífico. 

Em 69 já tínhamos o dinheiro e o crédito necessários para construir de raíz uma unidade fabril em Loures, onde tínhamos terrenos. Começou-se a laborar a partir do final de 70. Eu fiquei com o escritório na minha casa, com toda a parte financeira. 

Em 1978 visitámos a República Popular da China pela primeira vez, indo à feira de Cantão  para procurar matérias primas para a nossa indústria. A visita foi bem sucedida e ainda hoje achamos nesse país a nossa fonte de matérias-primas. Em 1979 fundámos um escritório em Hong Kong pois precisávamos de colaboradores falando chinês que pudessem visitar as fábricas nossas fornecedoras. Em 1982 foi o nosso grande lançamento nos Estados Unidos.  Ainda hoje o nosso maior mercado. Devido à situação política ainda pouco estável em Portugal naquela altura, alguns clientes norte americanos e japoneses aconselharam-nos a ter uma segunda fonte de produção para além de Portugal. Pouco depois, o meu marido foi a Macau, e por sugestão de Ho Yin, um banqueiro com ligações políticas muito fortes na China, decidiu construir a fábrica em Macau, que inaugurámos em abril de 1987. 

MJA: Isso foi um salto muito importante?

Foi. Enquanto a nossa aprendizagem aqui em Portugal foi empírica – fomos aprendendo à medida que íamos crescendo – o meu filho, Guy, ainda muito jovem construiu e instalou a fábrica de Macau com alicerces firmes e olhando para o futuro. Os nossos colaboradores em Macau vestem a camisola como ninguém. 

MJA: O negócio vai crescendo e, a partir de certa altura começam a realizar aquisições de unidades fabris, como em Cork, Irlanda, e também na China...

Sim. De facto, adquirimos a fábrica da Pfizer em Cork, em 2009. Com a Hisyn, na China, entrámos num joint-venture, era uma empresa fornecedora  de matéria-prima para um dos produtos que fabricávamos em Portugal. Após 10 anos de laboração, chegámos à conclusão que o produto lá fabricado não entrava no ideal do nosso core business e a empresa foi vendida. 

Ainda em meados dos anos 90, o Guy, sempre atento ao mercado, apercebeu-se de um negócio interessante. As pequenas biotechs com muita matéria cinzenta estavam a descobrir moléculas interessantes mas faltavam-lhes as necessárias instalações para proceder ao longo processo de desenvolvimento – de 5 a 10 anos – até chegar à aprovação da entidade reguadora e lançamento no mercado. Em paralelo, as grandes pharmas davam a entender que também estavam mais viradas para a investigação pura e distribuição final no mercado do que no longo processo de desenvolvimento. Estavam à procura da chamadas CMO, ou contract manufacturing organizations, e nós achamos que seria um bom encaixe para a Hovione. Este segmento do negócio, chamado Serviços, tem maior risco, pois a qualquer minuto o cliente pode decidir que não lhe interessa continuar com o seu desenvolvimento, mas envolve muito conhecimento científico, portanto de alto valor. Juntamente com a venda dos Produtos – são dois segmentos que se completam e equilibram-se bem.

Como mais de 50% das nossas vendas iam para os Estados Unidos, resolvemos instalar uma fábrica pequena em New Jersey, em 2001. No ano seguinte, começámos a laborar com 45 pessoas apenas. 

Cristina Correia: Que fatores acredita que vos fazem destacar hoje, perante a vossa concorrência?

O serviço que tentamos dar, melhor do que os outros, atendendo os nossos clientes de uma maneira muito eficiente. A qualidade e atenção, a resposta rápida, a entrega a tempo e horas é muito mais importante do que o preço. É isso que os nossos clientes valorizam mais e o que tentamos incutir em todos os que trabalham na Hovione. Tentamos fazer-lhes compreender que todos são um elo indispensável na cadeia que forma o sucesso da Empresa.

CC: É fácil construir essa cultura empresarial nos 8 países em que estão presentes?

Não é muito fácil, mas nós fazemos uma rotação dos recursos humanos constante com o  objetivo de espalhar a cultura de Empresa. Em Macau estamos há mais de 30 anos e a cultura está muito enraizada. Nos outros países vamos trabalhando o assunto e graças à constante rotação dos nossos colaboradores vamos încultindo a cultura nos trêscontinentes onde trabalhamos.  

CC: Qual foi a primeira grande lição que aprenderam enquanto empreendedores?

Que tinha que se trabalhar muito. Há obstáculos que existem em Portugal, a burocracia, que tanto empata quem quer investir. Tudo é mais fácil no estrangeiro – há regras, são para cumprir mas depois tudo funciona rapidamente. Tivemos muita sorte no nosso timing, foi perfeito. Em 1960 estava tudo por fazer. Lembro-me de lidar com os bancos, pedir linhas de crédito e depois lia com muito cuidado as letras pequeninas dos contratos, riscando certos pormenores com que não concordava. Eu era muito minuciosa, sobretudo com o controlo de dinheiro. Geri as finanças até princípios dos anos 90 e durante esse período não houve cheque que saísse da Hovione que não tivesse sido assinado por mim.

CC: Numa altura em que poucas mulheres estavam à frente de negócios em Portugal, como era para si lidar com um meio e um mercado quase exclusivamente masculino?

Não tinha que lidar muito com isso, porque eu representava o backoffice. Não saia muito e estava quase o dia todo à secretária. Eu tinha que executar e mandar, mas estava na retaguarda.

CC: Quando se dá, então, para si o grande salto para a linha da frente dos negócios?

Quando o meu marido morreu, em 2003. Ele era genial e além de continuar a inventar, patentear e a trabalhar no laboratório, também era um grande vendedor,ia aos Estados Unidos e Japão falar com os clientes e, como sabia profundamente do que falava, convencia todos.

E quando morreu, em 2003, o Guy,  já CEO desde 1997 e depois duma transição que não deve ter sido fácil, tomou o leme. De uma pequena companhia familiar fez uma empresa internacional, de uma forma muito profissional. Uma das primeiras ações tomadas foi de estabelecer um Board da empresa detentora das subsidiárias todas, composto por ele, por mim e por três membros externos e independentes. Foi assim até há pouco tempo. Hoje, o board é maior e ainda mais profissional; sou founder chairman mas há um chairman of the board com qualificações para tal. A partir de 2003 tive que começar a falar em público nunca o tendo feito. Tive que me reinventar. Nas reuniões do board, como fundadora, insistia na manutenção dos nossos valores e ideais iniciais e era eu que tinha que insistir para que isso se mantivesse e fosse posto por escrito. Enquanto chairman da comissão de governance e ética, compete-me supervisionar que se mantém a conduta ética, bem como a questão ambiental, pela qual o meu marido teve muita preocupação desde sempre. 

CC: Também começaram cedo a interessar-se pela questão da responsabilidade social das empresas. Que iniciativas destacaria, ao longo da vossa história?

Fazemos mecenato há muitos anos, em redor de nós. Quisemos sempre ser muito específicos, escolhendo escolas, universidades que precisassem de ajuda técnica e financeira e que nos pudessem depois fornecer engenheiros, físicos e matemáticos. Apoiámos, recentemente, a construção da Nova School of Business & Economics e temos muitas parcerias com outras universidades. Há dois anos iniciámos o projeto “9ºW” (que é a latitude de Lisboa), ao qual atribuímos 5 milhões de euros em três anos para que universidades portuguesas aceitassem entrar em parcerias com a Hovione, estudando questões que nos interessavam. De momento o ISEL, com um laboratório inteiramente equipado por nós está a preparar analistas de bancada que necessitamos em grande número. Temos também um programa global em parceria com instituições como a FCT da Nova, o Instituto Superior Técnico, as universidades do Porto, Minho e Aveiro. Todas se interessam por projectos desafiantes vindos do setor privado. 

CC: A Hovione também aposta no recrutamento de talento recém-formado em ciências. Como está Portugal, nessa matéria, e que políticas têm para captar e reter esse talento?

Os jovens formados em Portugal nesta área são do melhor que há! Inovadores, ambiciosos, assíduos, conhecedores e empreendedores. Temos um ótimo grupo de jovens cientistas. E temos ainda um programa muito interessante, com vários estudantes a prepararem as suas teses de doutoramento na Hovione. Sente-se que a nova geração quer, de facto, novas experiências profissionais. Nos últimos 3 ou 4 anos recrutámos cerca de 400 pessoas — hoje, em Portugal, empregamos cerca de 1100. Acredito que estamos a fazer algo certo, pois vejo que os nossos jovens investigadores se sentem desafiados. Mas obviamente a Hovione não é só constituída por investigadores. Em todos os sectores há talento, vontade de progredir e inovar. Temos planos muito determinados para reter talento.

MJA: Fala muito dos seus filhos e neste momento a Hovione tem uma gestão profissionalizada. Mas como é que uma empresa familiar escolhe um sucessor, o profissionaliza e, ao mesmo tempo, prepara uma terceira geração de líderes?

Tenho umas ideias, talvez até um pouco radicais, relativamente a essa questão. A terceira geração – são 16 – vão ser todos donos. Por isso, têm que conhecer bem a empresa que lhes há de pertencer e saber se quem a está a gerir o faz da melhor maneira. Alguns serão administradores e farão parte do board of directors. De acordo com os estatutos, estarão sempre em minoria. Estabelecemos regras bastante claras de como ingressar na empresa — os membros da família interessados nisso terão sempre que trazer valor adicional à Hovione, porque a concorrência é hoje, muito grande. Oferecemos aos membros da família internatos de três anos, depois de acabarem o mestrado. Há também uma obrigação de trabalharem fora para entrar na Hovione, trazendo conhecimentos, experiência e inovação. Numa empresa familiar há sempre um certo risco de implosão. O CEO será sempre a pessoa mais bem qualificada para levar a Empresa para a frente.  

MJA: É algo que a preocupa?

Na minha cabeça esta questão é bastante clara. Tem de ser a melhor pessoa para o cargo. Havendo na família, melhor, senão virá um profissional até haver um familiar com as qualificações, personalidade e força suficiente. A Empresa tem hoje uma certa dimensão, por isso o CEO tem de ser alguém com experiência e capacidade.

CC: Mas há também a questão de incutir o amor pela empresa e a vontade de dar seguimento ao projeto familiar. Isso consegue-se facilmente nos filhos e netos?

Isso fazemos, temos eventos bianuais e workshops familiares nesse sentido. Os meus filhos não ouviram falar de outra coisa durante a vida senão da Hovione. Quanto aos netos, alguns estão mesmo muito interessados e na generalidade todos têm ânsia de saber cada vez mais sobre a Empresa. 

CC: De todas as suas conquistas na Hovione, de qual se orgulha mais? 

De ter atingido o 60º aniversário da Hovione e de ainda estar no ativo, de ter uma empresa conhecida mundialmente e reconhecida pela sua excelência. Eu tenho tido uma vida muito completa. 

MJA: Se tivesse que caracterizar-se a si própria, como se identificaria? Parece-me ser uma lifelong learner...

Sim, sim!  Recentemente, fui com a minha filha Sofia ao IMD, em Lausanne, fazer um curso intensivo de cinco dias para high performing boards e, há dois anos, fomos ao INSEAD para uma coisa muito engraçada, sobre gerações de empresas familiares — fui eu, a minha filha e mais quatro dos meus netos, com 32, 29, 27 e 25 anos. Estavam lá mais quatro famílias, mas todas apenas com duas gerações presentes. Nunca tinha aparecido uma família abrangendo três gerações. Sou da opinião que cada vez que aprendemos algo novo percebemos que há tanto que ainda desconhecemos.

MJA: Que conselho de gestão deixaria a uma mulher empreendedora?

Acho que é muito importante ser uma pessoa organizada. Penso que temos que ser pragmáticas, sabermos quais as nossas limitações. Estar focada e ser muito conhecedora do que está a fazer é muito importante. É essencial rodearmo-nos de colaboradores muito competentes para podermos delegar as responsabilidades, sobretudo quando se chega a uma determinada dimensão. E, dentro do possível tentar saber quais os "zun-zuns" que vão circulando. Com 10 ou 50 empregados isso é fácil, mas com mais de mil é muito difícil. Na minha posição, isso não é muito fácil — e nem deveria, depois dizem-me que é micromanagement. Mas assuntos humanos tocam-me muito e há pessoas com 30 anos de casa que eu conheço bem. Gosto muito de me fazer parte do grupo e de conhecer muitos pessoalmente. 

CC: Que metas têm estabelecidas para o futuro?

Em 2008 decidimos que, em 2028, queríamos ser reconhecidos como empresa líder em soluções inovadoras e integradas para a indústria farmacêutica mundial. O nosso lema é "In it for life", o que quer dizer que estamos cá para durar e para dar saúde a quem dela precisa. Acho que é um ótimo tagline. O importante é focarmo-nos, termos o nosso nicho, expandirmo-nos e sermos excelentes no que fazemos para que os clientes voltem. 

Sendo uma empresa familiar podemos fazer planos a longo prazo, sempre difícil para empresas cotadas em Bolsa. E as empresas farmacêuticas precisam mesmo de fazer planos a longo prazo porque são precisos muitos anos de desenvolvimento entre a descoberta de uma molécula e a sua comercialização.

Leia a entrevista no website womenwinwin.com

 

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O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Dos hospitais às casas dos doentes, conheça as soluções que permitem administrar biológicos de alta dosagem com mais conforto, menos dor e maior liberdade no tratamento. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Ouça aqui o sexto e último episódio do podcast, com João Pires e Joana Cristovão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.   [Transcrição] Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao sexto e último episódio de "A próxima descoberta", uma série de podcasts em que a Hovione abre as portas do seu mundo para partilhar conosco o impacto global da inovação desenvolvida a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e ao longo desta viagem falamos de processos químicos, de partículas ultrafinas e de linhas de produção revolucionárias. Hoje olhamos diretamente para o futuro da medicina. Depois de explorarmos o mundo das pequenas moléculas, entramos agora numa nova dimensão terapêutica, a dos medicamentos biológicos, baseados em moléculas maiores e mais complexas, que estão a abrir novas possibilidades de tratamento de várias doenças. E para nos explicar como esta área está a evoluir e como a ciência pode tornar estes tratamentos mais eficazes, estáveis e acessíveis para os doentes, recebo o João Pires e a Joana Cristóvão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Muito bem-vindos a ambos. João, começaria por si. Para quem nunca ouviu falar deste termo, o que são afinal os medicamentos biológicos e o que os distingue dos medicamentos de pequenas moléculas, que são mais associados à química tradicional? João Pires (JP): Sim. Se pensarmos um bocadinho naquilo que podemos encontrar hoje em dia nas farmácias, é de facto verdade que a maioria desses medicamentos são compostos por essas pequenas moléculas, estruturas mais simples, ainda que eficazes, mas que nós conseguimos desenhar e fabricar pela química chamada clássica e que desenvolveu esse conhecimento ao longo dos últimos 150 e 200 anos. Relativamente aos biológicos, são completamente diferentes. São organismos que não só pela sua complexidade, como muito maior dimensão e estrutura, são, principalmente na sua origem, bastante diferentes, porque são produzidos de organismos vivos, por exemplo, as células, que dadas certas condições ideais, podem funcionar como fábricas de biológicos e que nos permitem, tal e qual como no nosso corpo, extrair as substâncias desejadas, que podem ter uma influência terapêutica relevante para certas indicações. Beneficiam, por isso, de milhões de anos de evolução, que a química clássica não tem conseguido. NF: É a biologia que fez essa evolução. JP: É a biologia. Portanto, é a beleza também da- NF: A natureza que fez esse processo todo, esse processo por nós.  NF: Joana, por serem criados a partir de organismos vivos, podemos dizer que estes medicamentos são, entre aspas, mais inteligentes, que têm um potencial terapêutico maior? Joana Cristovão (JC): Podemos dizer que efetivamente, em alguns dos casos, têm um elevado potencial terapêutico. A vantagem destas moléculas é que são moléculas com uma capacidade de especificidade bastante elevada. Ou seja, podemos ver como se fosse uma chave para uma fechadura. Tem de ser a chave certa para a fechadura. Efetivamente, os biológicos, falando a mesma língua biológica dentro do nosso corpo, conseguem ter esta vantagem, estão a falar a mesma língua. Mas não significa que são melhores do que as pequenas moléculas. Significa que, efetivamente, sendo produzidas por micro-organismos vivos, são bastante complexas e seria muito difícil, e em alguns casos impossível, de serem produzidas pela clássica síntese química, mas têm aqui uma grande vantagem de serem bastante específicos. Exemplos de biológicos são proteínas que têm a função de comunicar dentro do nosso corpo, anticorpos monoclonais que têm a função de identificar um alvo específico e estas funções efetivamente são mais relevantes nos biológicos do que nas pequenas moléculas. NF: João, esta é uma área, pelo que percebo, um pouco emergente ainda em todo o mundo. Como é que a Hovione, sendo uma empresa historicamente ligada à síntese química e engenharia de partículas de pequenas moléculas, chegou até aqui e decidiu também abraçar este desafio dos biológicos? JP: Sinceramente, tem sido uma transição muito natural. Acho que primeiro porque ao longo dos anos a Hovione desenvolveu um conjunto de especialidade, conhecimento científico muito específico em áreas também elas muito específicas de química, engenharia de partícula e formulação. E quando olhamos para os biológicos, apesar da sua maior complexidade, o problema acaba por ser mais ou menos o mesmo. Continua a precisar de materiais, processos e controles que os permitam chegar de uma forma estável e robusta aos pacientes. NF: Mas há potencial? JP: Claro que sim. Não só há potencial como há desafios. E isso vem, se calhar, o segundo ponto, que é a curiosidade. Acho que desde a história da Hovione e desde o fundador, essa curiosidade e esse desejo de abraçar desafios cada vez mais complexos, é um pouco parte da gênese, principalmente no nosso centro de inovação e desenvolvimento, e por isso é também um fator muito aliciante para quem trabalha na Hovione, poder estar a par desta transição. NF: E não está assim tão longe da sua história também. JP: Não. NF: Por isso que explicava.  NF: Joana, em que áreas terapêuticas é que estes medicamentos biológicos já tiveram um impacto mais significativo? Há doenças que vieram mudar claramente a forma como os doentes são tratados? JC: Há áreas- NF: Isto já não é ficção científica, já existe na prática. JC: Exatamente. E já existe há muito tempo em algumas áreas. Por exemplo, na oncologia existem anticorpos que são utilizados também para matar as células cancerígenas. Com especificidade. Ou seja, em vez de matarmos as células de uma maneira geral, direcionamos esta morte ao mecanismo de ação da doença. NF: Reduz efeitos secundários, imagino. JC: E que também reduz efeitos secundários. E numa vertente também diferente, o cancro é uma doença bastante esperta e evolui muito rapidamente, porque se esconde das nossas defesas e do nosso sistema imunitário. Então também existem tratamentos baseados em biológicos, cujo objetivo também é ajudar as nossas defesas a fazerem o trabalho delas, a retirar este véu invisível que alguns tumores têm, que os faz progredir muito rapidamente e a ajudar as nossas defesas a atacar. Outro exemplo, e é um exemplo clássico que já foi resolvido há 40 anos, é o exemplo da diabetes. A insulina é o tratamento mais comum utilizado para a diabetes e aqui, antes da biotecnologia, a insulina era isolada de animais e consequentemente, a sua produção era bastante limitada. Com a possibilidade de utilizar a biotecnologia para produzir os biológicos, conseguimos produzir insulina humana, a chamada insulina recombinante, porque efetivamente utilizamos micro-organismos vivos para os produzir. E esta mudança fez com que este tratamento ficasse disponível para mais pessoas e que se salvassem milhares de vidas. NF: Dois exemplos claros onde estes biológicos já estão, entre aspas, a atacar. João, hoje já estão, de facto, no mercado, mas imagino que a transposição e estabilização em laboratório trazem grandes desafios técnicos. Que desafios é que foram estes no caso dos biológicos? JP: Sendo moléculas muito complexas e, como a Joana descreveu, até de alguma forma elegantes, são também igualmente sensíveis, quase como uma flor de estufa. E portanto, a evolução biológica, como falámos há pouco, tratou de as otimizar para sobreviverem e estarem em condições muito específicas, condições essas que muitas vezes não são as que nós temos nos nossos processos industriais, de transporte ou até da administração do fármaco. E portanto, estas moléculas são tipicamente muito sensíveis ao calor, ao ar, à pressão e até só o simples fato de elas estarem muito tempo juntas, acabam por começar a interagir entre si, perder a sua estrutura e também, infelizmente, o seu efeito terapêutico. E é um bocadinho aí que nós entramos, ou seja, os clientes tipicamente vêm ter connosco com algo com potencial terapêutico muito grande, mas apenas muitas vezes só uma prova de conceito. E nós pegamos, digamos assim, nesses primeiros testes laboratoriais experimentais para tentar criar aqui controles, processos, até formulação, que permita levar isto aos milhares, milhões de unidades, sempre com obviamente bastante cuidado para um controle de qualidade e estabilidade imaculados para os fármacos. NF: Joana, mas afinal, como é que são administrados estes medicamentos? São diferentes dos outros? Tradicionalmente, muitos exigem uma ida ao hospital para uma administração intravenosa mais demorada. É assim que funcionam com os biológicos? JC: Exatamente. Tradicionalmente, estes biológicos são administrados diretamente na veia por perfusão, muito semelhante quando nós levamos soro. Mas a indústria farmacêutica quer se focar também não unicamente em resolver os problemas e doenças, mas também tem um foco grande no doente. Esta administração envolve uma ida ao hospital, algum tempo para ser administrado e em doenças crônicas, isto repete-se ao longo da vida. E a ambição da indústria farmacêutica também é arranjar tratamentos alternativos que sejam mais confortáveis ao doente e que se crie mais autonomia para o doente. NF: Para que ele não precise, se calhar, de ir ao hospital? JC: Exatamente. O objetivo final seria então termos soluções mais injetáveis com uma ambição do próprio doente conseguir administrar sozinho. Para isso, então é preciso haver inovação na parte de tecnologia, de desenvolvimento de formulações e de dispositivos que permitam que o doente o consiga fazer. NF: João, é aqui que entra o vosso conceito de formulações de alta concentração. O que é isto na prática? E de facto, um dia já não precisaremos de um enfermeiro para uma injeção. Haverá um dispositivo para o fazermos nós próprios. JP: Sim, esperemos que sim. O conceito de formulações de alta concentração é relativamente simples. Significa colocar o máximo de medicamento no volume o mínimo possível, mínimo o suficiente que possa, por exemplo, caber num bolso, estilo um auto injetor, que hoje em dia creio que as pessoas- NF: Uma caneta. JP: Uma caneta. Creio que as pessoas, até pela nova geração de alguns medicamentos, especialmente para obesidade, etc, tornou-se relativamente popular e bastante mais familiar, apesar de ser utilizado em outras aplicações. Isto tecnicamente parece simples, colocar mais de uma coisa, menos de outra, mas obviamente, como sabemos, estas moléculas, e já falámos aqui, são bastante sensíveis e à medida que vão sendo mais concentradas, ou seja, estão mais apertadas entre si Problemas começam a surgir. Para além da estabilidade e como já falámos um bocadinho da sua alteração de estrutura, há essencialmente um problema de viscosidade. Eu acho que isto é fácil de visualizar, qualquer coisa mais concentrada tende a ser mais viscosa. NF: Mais difícil de injetar. JP: Mais difícil de injetar, o que leva à questão da dor e, portanto, mais viscosidade tipicamente leva a uma maior dor da administração. Isso viola diretamente o conceito de desenvolvermos formulações e medicamentos mais convenientes e mais user friendly. E é esse o problema que a indústria neste momento tem em mãos, arranjar soluções que consigam quebrar as barreiras da dose e baixar os volumes sem comprometer a eficácia terapêutica, mas também a conveniência e a aceitabilidade destas novas soluções de alta concentração. NF: Joana, só para terminarmos, o que sentem os cientistas quando olham para o futuro e veem também este trabalho diário da Hovione a aproximar a medicina de soluções que são cada vez mais personalizadas, mais convenientes, mais centradas na vida dos doentes, mais confortáveis para eles? Imagino que orgulhosos por esse desenvolvimento também. JC: Acho que é uma grande responsabilidade e acho que daí também vem uma grande motivação. A medicina está cada vez a tornar-se mais personalizada, mais focada nos mecanismos que levam à doença e não só focada no tratamento de sintomas, mas em ser mais dirigida àquilo que faz com que haja doença. E acho que é um grande orgulho estar em equipas que fazem parte desta jornada, que nos levam a um futuro melhor e focado no doente. NF: João, o futuro é biológico ou não só, mas também? JP: Não só, mas também. Mas claramente acho que os biológicos nos permitem novos sonhos, novas ambições, especialmente em melhores medicamentos, mais personalizados e mais eficazes e, portanto, abre todo um conjunto de possibilidades que até hoje se calhar não era possível de imaginar. NF: João Pires e Joana Cristóvão, muito obrigado por nos abrirem as portas do futuro da medicina. É com este olhar sobre o amanhã que termina a primeira temporada do podcast "A Próxima Descoberta". Ao longo destes seis episódios, viajamos desde uma cave em Lisboa em 1959, até à liderança tecnológica mundial, que todos os anos toca a vida a mais de 80 milhões de pessoas. Ficou provado que com curiosidade, rigor e talento, as próximas grandes descobertas da ciência mundial podem mesmo ter a assinatura do nosso país. Para ouvir todos os episódios desta série, pode fazê-lo em Observador.pt e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, foi um gosto acompanhar-vos nesta viagem. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP6) - Biológicos de alta dosagem: da ficção à realidade

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O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Da asma às terapias que podem chegar ao cérebro, seguimos a viagem da Hovione pelo respiratório e pela via nasal, onde cada partícula é pensada para melhorar a vida dos doentes. Ouça aqui o quinto episódio do podcast, com Eunice Costa, diretora no Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione. [Transcrição] E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A Próxima Descoberta". Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo a "A Próxima Descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas da ciência e da inovação com impacto global. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vamos descobrir como o nosso sistema respiratório e a via nasal são usados para fazer chegar medicamentos ao nosso organismo de forma rápida e inovadora. Para isso recebemos Eunice Costa, diretora no Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Olá, Eunice, muito bem-vinda. A história da Hovione está intimamente ligada ao pulmão. Começaram há mais de duas décadas a desenvolver e a fabricar soluções para medicamentos inaláveis. Quais foram as grandes doenças cujo combate avançou significativamente também com a ajuda destas inovações? Eunice Costa (EC): Olá, Nelson. Obrigada pelo convite. De facto, para começar, as doenças do foro respiratório, as com maior incidência e com impacto societal enorme. Temos a asma e temos a doença pulmonar crônica obstrutiva, DPOC. Toda a tecnologia que é necessária para gerir estas doenças, desde o desenho das moléculas, às formulações, aos dispositivos de administração, têm em si tecnologias fundamentais para que sejam absolutamente geríveis. Obviamente com um peso substancial na vida dos pacientes diariamente, mas que são possíveis de gerir e de ter uma vida perfeitamente normal. NF: Até porque algumas não são curáveis. EC: Exatamente. NF: É o caso da doença pulmonar obstrutiva crônica. EC: Não. Os medicamentos que estão disponíveis são essencialmente de gestão, ou seja, de broncodilatação. Ficarmos com as nossas vias desobstruídas. NF: É o que faz uma bombinha da asma? EC: É o que faz a bombinha da asma, exatamente, que toda gente conhece. Acho que é o dispositivo mais paradigmático e que muitas vezes se vê nos filmes mal utilizado. NF: Sério? É também o que tomamos quando fazemos uma espirometria, não é? EC: A espirometria é já para diagnóstico. Ou seja, vai medir a nossa capacidade, que já estamos doentes. NF: Mas usam também um inalável nessa altura para fazer o exame. EC: Exatamente. NF: Muito bem. Hoje em dia, a Hovione orgulha-se também de oferecer soluções de A a Z para medicamentos inaláveis, nasais, tendo como principal destino, claro, o pulmão, como aqui falávamos. Isto significa que vocês controlam todo o processo, desde a tal síntese da molécula, como falava, até ao inalador final, até ao objeto? EC: Sim, é isso mesmo. E a jornada tem sido bastante progressiva, orgânica, digamos assim. Se dizer alguma piada orgânica, química orgânica, até fica bem. Enfim, mas continuemos. A Hovione começou pela síntese de moléculas, na sua história. E depois foi se especializando, da síntese para o controlo do que se chama o controlo do tamanho de partícula, usamos o termo engenharia de partículas, porque estes medicamentos têm que ser de facto engenheirados para que sejam de forma eficaz administrados ao pulmão. Temos a síntese. Não estamos em drug discovery, ou seja, não estamos na parte da descoberta da molécula em si. Suportamos é as outras empresas farmacêuticas na síntese, neste caso também na engenharia de partículas, que é fundamental no caso dos medicamentos inaláveis. Depois é misturar essas partículas de princípios ativos com toda uma composição para daí fazer, de facto, um medicamento, que também não é trivial. E finalmente, no inalador, no dispositivo médico, que é o mais visível, é o que nós vemos, é o dispositivo no final, que é o motor que gera o aerossol. Na bombinha de asma, que é mais conhecida, é ativo. Temos ali algo que gera o aerossol de forma ativa. Vem de um gás pressurizado, que é expelido. No caso dos dispositivos onde nós nos especializamos, são o que se chamam dispositivos passivos, e utilizamos dispositivos para gerar aerossóis de pó, em que aí é a capacidade respiratória do próprio paciente que puxa a medicação. NF: Que aspira o tal pó. EC: Que inala o pó. Portanto, ainda é um desafio que tem que haver uma combinação muito perfeita entre partícula, formulação e dispositivo para conseguir aerosolizar primeiro e ter uma deposição eficaz. E temos controlo sobre estes aspetos. NF: O pulmão parece-me ser um órgão particularmente desafiante para a administração de medicamentos. O que é que torna tão difícil garantir que o medicamento chegue exatamente ao local onde é suposto? EC: Certo. NF: Põe-se-lhe um GPS? EC: Exato. EC: Não propriamente. Era bom. Enfim, o pulmão, são milhões e milhões de anos de evolução para exatamente evitar qualquer partícula estranha, seja um patogênio, um vírus, o que seja, de qualquer partícula estranha, de facto, ser inalada. NF: É o seu comportamento normal. EC: Exatamente. Felizmente para nós. E é muito eficaz em evitar que sejamos expostos A um órgão que diz que a superfície do pulmão, se fosse toda estendida, era do tamanho de um corte de tênis. Tem uma superfície enorme. Se não tivesse mecanismos de defesa, a entrada de partículas estranhas, estaríamos numa situação difícil. Evolutivamente, o pulmão foi desenhado para manter tudo fora. Quando estamos a tentar utilizar o pulmão como via de entrada para tratar um paciente, para entregar um medicamento, temos que de alguma forma circumnavegar estes mecanismos de defesa. NF: Ou enganar o pulmão. EC: Sim, ou enganar. Falar com ele com jeitinho. E basicamente aqui o truque principal, há um número mágico, que é o aerossol, seja uma nuvem de pó, seja um aerossol líquido, esse tamanho desse aerossol tem que ser exatamente entre um a cinco mícrons. Estamos a falar 10 vezes mais pequeno que um fio de cabelo, ou ainda mais pequeno que isso. São um pó extremamente fino, são partículas extremamente pequenas. Partículas muito pequenas aglomeram, absorvem água, comportam-se de forma errática. Tem que, para já, reduzir o tamanho de partícula, depois controlar estes mecanismos. E finalmente, usar um dispositivo relativamente simples. NF: Claro. EC: Que consiga fazer esse aerossol. NF: E que qualquer pessoa consiga usar. EC: Exatamente. NF: Creio que neste percurso, o mercado do Japão voltou a cruzar-se com a história da Hovione, muito por culpa do sucesso do Inavir. Que produto é este e que impacto é que teve? EC: O Inavir é uma história já com alguns anos, e muito exemplificativa do papel da Hovione nesta área de nicho da farma. É uma área de nicho, há muitas competências que são necessárias para fazer, de facto, um produto neste espaço. E o Inavir, em particular, para contexto, é um antiviral, para o tratamento de gripe. É um medicamento que é administrado diretamente ao pulmão, que é a porta de entrada para o patogênio em causa. E a Hovione esteve envolvida exatamente nesta combinação, ou seja, no desenvolvimento do medicamento que está dentro do dispositivo e do dispositivo em si. O dispositivo, o inalador, ainda hoje continua a ser o único inalador a nível mundial que é de toma única, ou seja, é extremamente simples, porque estamos a falar numa situação em que o paciente está com gripe. Se há coisa que não faz sentido é reutilizar o inalador, é para tomar e deitar fora, porque está com gripe. Foi um desafio técnico de criar um inalador que fosse, do ponto de vista de custo e de sustentabilidade, proporcional ao uso pretendido, que é inalar uma vez. NF: E descartar. EC: E descartar. E continua a ser até hoje, desde 2010, quando foi aprovado, o único inalador de toma única. Podemos dizer que desde então, milhões de pessoas já foram tratadas com uma tecnologia feita em Portugal. O que é interessante. NF: É interessante também para o orgulho nacional. EC: Exatamente. NF: Eunice, nos últimos anos, a via nasal tem despertado um enorme interesse científico, sobretudo por esse potencial de chegar mais rapidamente a determinadas zonas do organismo, inclusive ao cérebro, ao sistema nervoso central. O que é que torna esta via tão especial? Que parece que não tem portagens. EC: Sim, exato. Tem algumas. É sempre preciso fazer um bypass aos mecanismos de defesa. O nasal é uma área interessante, porque nós associamos administrar qualquer coisa ao nariz, associamos às rinites alérgicas, aos pólens, às sinusites. NF: E às alergias. EC: As alergias, tudo que é muito tópico, é muito localizado. Mas de facto, o nariz oferece uma capacidade de absorção extremamente rápida. Começou-se a explorar como porta de entrada para tratamento de doenças não necessariamente relacionadas ao que se manifesta em sintomas no nariz. Primeiro, para situações como dor, por exemplo, a gestão de enxaquecas. Como também como estava a dizer, mesmo diretamente ao cérebro. Isto por quê? Nós temos sentido cheiro no nariz. A cavidade nasal tem uma série de nervos. NF: Mas o que nos permite cheirar está no cérebro. EC: Exatamente. Ou seja, é das poucas vias não invasivas, que permite ter ali uma estrada muito concreta do nariz até ao cérebro, através dos nervos olfatórios e outros também que são os trigeminais. E isto abre uma porta de entrada para pensar em formas muito mais simpáticas para os pacientes de tratar doenças. NF: Eunice, olhando aqui um bocadinho já para o futuro dos cuidados de saúde, esta inovação por via nasal pode vir a substituir injeções em muitas terapias. Podemos vir a dizer adeus às agulhas que são tão odiadas. EC: Eu acho que infelizmente não. Há tantas terapias inovadoras a serem desenvolvidas e as agulhas e as injeções ainda continuam a ser uma forma de assegurar que, principalmente as terapias novas e terapias biológicas, onde a eficiência de administração tem que ser basicamente 100%, tudo o que se prepara tem que entrar no paciente. Ainda estamos longe de garantir isso através do nariz ou através do pulmão. Ainda não. NF: Ainda não, mas já com muitas vantagens em algumas situações. Para que isto tudo de que estivemos a falar chegue ao mercado, a investigação não se faz, imagino que, de forma isolada. Na vossa equipa também contam com parceiros científicos, académicos, que aceleram estas descobertas na Hovione? EC: Sem dúvida. Para começar, são as parcerias com as universidades portuguesas, que têm sido uma fonte de talento e conhecimento absolutamente fundamental para os avanços que fomos fazendo ao longo dos anos e no pulmão, em particular, ou na administração respiratória. Desde as faculdades de Farmácia, seja de Lisboa ou de Coimbra, a Universidade Nova, o Técnico, têm sido parceiros fundamentais. Não só académicos, mas também empresas. Ou seja, a Hovione, principalmente dada a complexidade. Estamos a falar aqui de uma multiplicidade de disciplinas que se têm que encontrar, desde parte mecânica, fisiológica, perceber a biologia. Isto não se faz sozinho. Para fazer um passo significativo, não se faz sozinho. Colaboramos com empresas como a Precepart, na Alemanha, na área de dispositivos, por exemplo, dos inaladores, e tem sido absolutamente fundamental para o nosso sucesso na área. NF: Eunice Costa é a cientista da Hovione. Muito obrigado por nos ajudar a perceber hoje como a ciência está a transformar o pulmão e como a via nasal é também uma porta de entrada para medicamentos que podem melhorar a vida de milhões de pessoas. Este foi o quinto episódio de "A Próxima Descoberta". Na próxima semana chegamos ao último capítulo desta temporada para falar quase de ficção científica tornada realidade. Vamos descobrir os medicamentos biológicos de alta dosagem e perceber como os tratamentos contra o cancro podem passar do hospital para as nossas casas.  Todos os episódios estão disponíveis em Observador.pt e também nas plataformas de podcast. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP5) - Pulmão e via nasal: ciência que respira

Jul 16, 2026