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Artigo de Imprensa / Jun 29, 2020

Carta aberta aos líderes do nosso país

Expresso Online, 29 de junho, 2020

A pandemia vai durar mais um ano ou dois. Vamos sair dela terrivelmente empobrecidos e com muita dívida - todos: as famílias, as empresas e o Estado. Quantas mais mortes e quanta dor económica vai provocar depende apenas de nós, portugueses – os líderes deste país.

Nas últimas duas semanas de março andámos às voltas sem saber como reagir. Em abril e maio tivemos uma segunda fase da pandemia, foi quando a gestão da crise mostrou a fibra do líder. Alguns souberam atuar de forma decisiva, deram direção, criaram confiança, animaram as suas pessoas e definiram metas. Outros, não.

Os exemplos mais públicos são os de Trump, Bolsonaro, Johnson, Xi e Merkel. Os três primeiros erraram sucessivamente. Angela Merkel conduziu o seu país de forma exemplar. O Presidente Xi, depois de algum atraso, soube atacar o problema de forma inovadora e decisiva. Contrariamente aos três primeiros, Angela Merkel, doutorada em Física, e o Presidente Xi, engenheiro químico, têm a manifesta vantagem da preparação técnica e científica adequada para lidar com uma pandemia.

Não é possível vencer o vírus sem uma abordagem científica do desafio. Não é possível reduzir as mortes e minimizar a dor económica apenas com iniciativas políticas top-down, ainda que estas sejam críticas. Este é um teatro de operações desconhecido. Há que ser decisivo perante a incerteza; depois da decisão tomada é preciso concretizar de imediato e, finalmente, há que saber navegar à vista com base numa análise científica dos dados que existam ou trabalhar para obter os que ainda não são conhecidos. Se na sua equipa não tem um empreendedor, um executivo e um investigador, faça substituições.

Nos primeiros dois meses, Portugal foi admirado por todo o mundo pela forma como geriu a pandemia. Rui Rio deve ser o líder da oposição mais conhecido na Europa. A sua frase “o PSD é colaboração“ passou muitas vezes nas televisões espanholas e italianas como uma lição que todos deviam aprender. Mas mais importante foi o desempenho dos portugueses. Foram os pais que por medo e prudência não deixaram as crianças ir à escola. Ou seja, o nosso confinamento começou por iniciativa popular e não por imposição legal.

Mas Portugal está agora na lista negra. Não estamos no grupo dos “estão a vencer”, nem dos que “estão quase lá”, estamos no grupo dos “precisam de entrar em ação" (1).

É difícil, mas urgente, tomar decisões. Nesta pandemia sempre que um líder tomar decisões com base em dados estará sempre a tomá-las 14 dias demasiado tarde. Quem quiser tomar decisões acertadas e atempadas tem de conhecer o vírus e modelar o futuro com os dados que tem do passado recente.

O norte do país sofreu mais no início e, por isso, ganhou maior respeito ao vírus. Até final de maio tínhamos 20.504 casos positivos no Norte e 11.142 na zona da Grande Lisboa (2). Neste mês de junh0 (3), até dia 26 o aumento de casos positivos no Norte foi de 993 e 7.219 na Grande Lisboa. A zona de Lisboa está numa situação perigosíssima. Não podemos baixar a guarda.

Acresce que esta pandemia veio para ficar: vamos ter de viver com este pesadelo pelo menos durante um, talvez dois anos. E porquê? Vão ser aprovadas várias vacinas e até mais cedo que esperávamos. No entanto: i) não há dados que levem a crer que qualquer uma delas gere imunidade por mais de três meses, ii) a vacinação exige duas ampolas por pessoa e o total da capacidade de formulação estéril de ampolas de vacina no planeta é de cerca de cinco mil milhões de ampolas por ano e iii) sendo escassa quem é que será vacinado primeiro? Os mais velhos? Os mais vulneráveis? Não: o governo dos EUA já contratou com a Moderna e a University of Oxford/Astra Zeneca a compra de vacina para os seus cidadãos. Este último consórcio obteve do governo inglês financiamento e, em troca, garantiu vacinação dos cidadãos britânicos. Este mês, o governo alemão pagou 300 milhões de euros por 23 por cento da Curevac, empresa de Berlim, que está a desenvolver vacinas para o Covid-19.

Os tratamentos - dexametasona e remdesivir - são apropriados para pacientes em fase avançada da doença, pelo que de pouco servem para evitar a hospitalização.

Só vejo duas possíveis boas surpresas. O vírus poder sofrer mutações e tornar-se menos infecioso. Sabemos que ele vive e multiplica-se nos pulmões e é aí que o antiviral deve atuar. Felizmente, estão em desenvolvimento vários antivirais administrados por inalação.

Em todas as pandemias da História o vírus saiu sempre vencedor. Se quisermos que o desfecho desta vez seja outro só há um caminho alternativo: o conhecimento. Nunca a comunidade científica trabalhou tão bem, tão depressa e de forma tão colaborativa – mas é preciso também ensinar o resto da população a não ter medo do vírus aprendendo como se consegue viver com ele.

Se as pessoas permanecerem na ignorância vão ter medo e não vão saber como defender-se. Se soubermos semear conhecimento e nutrir a confiança, então tudo se resolve: o nosso instinto de sobrevivência trata do resto. Isto aplica-se, sobretudo, aos jovens. Foi com esse objetivo que os estagiários da Hovione lançaram um concurso nacional dirigido aos alunos do ensino secundário que visa premiar os vídeos que melhor ensinem a viver com o vírus (www.abcovid.pt). O objetivo é preparar os jovens para a rentrée, em setembro, dotando-os do necessário conhecimento sobre o vírus. Precisamos de mais iniciativas educativas.

Há decisões imperativas que têm de ser tomadas ao nível do país.

Não podemos ter líderes a pregarem uma coisa e a fazerem o contrário. Os líderes devem inspirar e têm de animar quem os segue; isso apenas é possível com integridade, transparência e dando o exemplo.

Os líderes não podem ser ambíguos, têm de esclarecer as pessoas. A DGS definiu regras; elas são para cumprir. Não podemos ter conversas mansas. Para nos proteger do vírus, o único nível de tolerância aceitável relativamente a qualquer incumprimento das regras é zero.

Portugal continua a receber aviões de todos os lados. Precisamos de ter controlos efetivos nas fonteiras. Há semanas que a Áustria obriga 100% dos passageiros a pagarem 160 euros para fazer o teste PCR no aeroporto ou a autoisolarem-se durante 14 dias. Portugal tem também de ser um país seguro para os turistas.

Portugal é dos países que mais testes faz. Esses dados têm de ser disponibilizados à comunidade científica. Testar permite identificar infetados e, assim, rastrear todos os seus contactos e suster o contágio. Quantas pessoas estão adstritas ao contact tracing? Sabe-se se este esforço está a ser eficaz? A velocidade de atuação - desde o sintoma, passando pelo teste, a obtenção do resultado, o contact tracing, até ao isolamento dos contactos -, tem de ser fulgurante, medido em horas, nunca dias, se não de nada vale. Era bom que a DGS divulgasse estes dados, a transparência gera confiança.

Para quando a adoção por Portugal da app da Apple-Google como já fizeram a Alemanha e a Itália? Esta app regista momentos de possível infeção e permite automatizar a notificação de contact tracing. A Comissão de Proteção de Dados tem de ser mais outro Rui Rio a colaborar e a contribuir para a proteção da nossa saúde.

A covid-19 é uma doença que mata e que amplia as injustiças sociais. Os empregos que pagam o salário mínimo – por exemplo: construção, limpeza e afins – levam, por vezes, as pessoas a trabalhar para mais do que um empregador para poderem sobreviver. Estas populações, sobretudo na zona de Lisboa, moram em bairros com maior densidade populacional, exatamente o oposto do distanciamento social que se pretende. Daí assistirmos a uma concentração maior de surtos nos bairros sociais. Uma conta rápida e imprecisa diz-nos que o risco de infeção é cerca de dez vez maior para estes habitantes.

É nesta fase que cada líder vai definir onde coloca a fasquia: o Governo, o empresário, o diretor da escola, o barman, o reitor, o padre, o chefe do supermercado, mães e pais de família…

Não espere que lhe digam - não lhe vão dizer -, pense e faça! Temos de avançar com cautela e sabedoria. Ainda nem estamos a meio caminho.

As decisões que vão determinar quantas mais mortes, quanto desemprego e quanto empobrecimento teremos são as que tomarmos nas próximas semanas. Onde colocamos a fasquia vai resultar em disciplina ou falta dela, em confiança ou medo, em conhecimento ou ignorância. Qualquer atitude que mostre complacência, ligeireza ou ambiguidade é a receita certa para o desastre. Ou acertamos onde pomos a fasquia ou mais tarde será muitíssimo mais penoso elevá-la.

Temos de inverter os números de Lisboa, é uma responsabilidade que cabe a todos. Peço-vos que respeitem o vírus: ele mata, aprendam a conhecê-lo, assim poderão vencê-lo. Finalmente, tenham a coragem de ser decisivos e exigentes na gestão do distanciamento social.

Temos de nos unir em torno deste objetivo comum: salvar vidas ao mesmo tempo que salvamos empregos.

 

(1) www.encoronavirus.org/countries
(2) httpss://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/05/90_DGS_boletim_20200531.pdf visitado a 22 de Junho de 2020: Norte: 16.760+3.744= 20.504; Grande Lisboa 11,142
(3) httpss://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/06/116_DGS_boletim_20200626-1.pdf visitado a 27 de Junho de 2020: Norte: 17.441+4.056 = 21.497; Grande Lisboa 18.361

 

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ZUG, SUÍÇA, 8 de setembro de 2026 — A Hovione Holding AG anunciou hoje a nomeação de Stefan Doboczky como Chief Executive Officer (CEO), com efeitos a partir de 1 de abril de 2027. Stefan Doboczky é Presidente do Conselho de Administração da Hovione Holding AG desde 2024, tendo desempenhado um papel fundamental na definição da estratégia e da visão da empresa. Deixará a presidência do Conselho de Administração quando assumir as funções de CEO. Fundada em 1959, a Hovione é um grupo familiar de tecnologia e serviços farmacêuticos que serve a indústria à escala global, com mais de 2.600 colaboradores, quatro unidades de produção e I&D inspecionadas pela FDA-Food and Drug Administration na Europa, nos Estados Unidos e na China, e é reconhecida internacionalmente pela sua liderança tecnológica nas áreas de secagem por atomização (spray drying) e produção contínua de comprimidos (continuous tableting). Esta nomeação marca o regresso de Stefan Doboczky à indústria farmacêutica, após mais de 17 anos na Royal DSM, onde chegou a membro da Comissão Executiva, com responsabilidade pelo portefólio farmacêutico global do grupo e pelo seu crescimento na Ásia. Posteriormente, exerceu durante 11 anos funções de CEO em empresas industriais cotadas, detidas por fundos de capital privado e integradas em grupos empresariais, incluindo a Lenzing AG, a Heubach GmbH e a Borealis AG. Após a integração da Borealis, da Borouge e da NOVA Chemicals na Borouge International, assumiu as funções de Chief Commercial Officer e Vice-Presidente da Comissão Executiva do grupo resultante da fusão. Passará estas responsabilidades ao seu sucessor a 1 de outubro de 2026 e permanecerá disponível durante seis meses para apoiar a transição. Stefan Doboczky possui um mestrado em Química Técnica e um doutoramento em Ciências Naturais, ambos pela Universidade Tecnológica de Viena (TU Wien), na Áustria, e também um MBA pelo IMD, em Lausanne, na Suíça. Esta nomeação resulta de um processo de sucessão abrangente conduzido pelo Conselho de Administração e representa um passo importante na evolução da Hovione. Reflete a ambição da empresa de continuar a reforçar a sua posição internacional como fornecedor de referência de tecnologia e serviços para empresas farmacêuticas em todo o mundo. Guy Villax, Administrador Não Executivo e Presidente do Conselho de Família, em representação do principal acionista da empresa, afirmou: “Estamos muito satisfeitos por o Stefan assumir a liderança executiva da Hovione. Enquanto Presidente do Conselho de Administração, adquiriu um conhecimento profundo da empresa, da sua cultura e das suas pessoas, e contribuiu para definir a nossa orientação estratégica e as nossas prioridades. A sua experiência internacional, as suas competências comerciais e a sua comprovada capacidade para transformar empresas de forma sustentável colocam-no numa posição privilegiada para liderar a Hovione na sua próxima fase de crescimento. A sua disponibilidade para passar do Conselho de Administração para a liderança executiva é um forte sinal da sua confiança nesta empresa e nas oportunidades que tem pela frente. Stefan Doboczky, CEO designado da HOVIONE, afirmou: “É uma honra assumir o cargo de CEO da Hovione e passar da presidência do Conselho de Administração para a liderança executiva da empresa. Ao longo destes dois anos como Presidente, pude conhecer o extraordinário potencial desta organização, assente numa base tecnológica muito sólida, em pessoas talentosas e num forte compromisso com os doentes. Regressar à indústria farmacêutica, onde desenvolvi uma parte fundamental da minha carreira, e fazê-lo como CEO de uma empresa familiar com uma visão de tão longo prazo é uma oportunidade única. Agradeço ao Conselho de Administração e aos acionistas a confiança depositada em mim. Estou entusiasmado com a perspetiva de trabalhar em estreita colaboração com a equipa de liderança global da Hovione e com o Conselho de Administração para reforçar a nossa presença internacional, impulsionar a inovação e criar valor sustentável para os nossos clientes, parceiros e acionistas.” O Conselho de Administração expressa também o seu reconhecimento a Marco Gil e António Almeida pela liderança que têm assegurado durante este período como co-CEOs interinos e por garantirem a continuidade da execução bem-sucedida da estratégia da empresa até Stefan assumir funções como CEO.      

Artigo de Imprensa

Hovione nomeia Stefan Doboczky como Chief Executive Officer

Set 08, 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Dos hospitais às casas dos doentes, conheça as soluções que permitem administrar biológicos de alta dosagem com mais conforto, menos dor e maior liberdade no tratamento. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Ouça aqui o sexto e último episódio do podcast, com João Pires e Joana Cristovão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.   [Transcrição] Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao sexto e último episódio de "A próxima descoberta", uma série de podcasts em que a Hovione abre as portas do seu mundo para partilhar conosco o impacto global da inovação desenvolvida a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e ao longo desta viagem falamos de processos químicos, de partículas ultrafinas e de linhas de produção revolucionárias. Hoje olhamos diretamente para o futuro da medicina. Depois de explorarmos o mundo das pequenas moléculas, entramos agora numa nova dimensão terapêutica, a dos medicamentos biológicos, baseados em moléculas maiores e mais complexas, que estão a abrir novas possibilidades de tratamento de várias doenças. E para nos explicar como esta área está a evoluir e como a ciência pode tornar estes tratamentos mais eficazes, estáveis e acessíveis para os doentes, recebo o João Pires e a Joana Cristóvão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Muito bem-vindos a ambos. João, começaria por si. Para quem nunca ouviu falar deste termo, o que são afinal os medicamentos biológicos e o que os distingue dos medicamentos de pequenas moléculas, que são mais associados à química tradicional? João Pires (JP): Sim. Se pensarmos um bocadinho naquilo que podemos encontrar hoje em dia nas farmácias, é de facto verdade que a maioria desses medicamentos são compostos por essas pequenas moléculas, estruturas mais simples, ainda que eficazes, mas que nós conseguimos desenhar e fabricar pela química chamada clássica e que desenvolveu esse conhecimento ao longo dos últimos 150 e 200 anos. Relativamente aos biológicos, são completamente diferentes. São organismos que não só pela sua complexidade, como muito maior dimensão e estrutura, são, principalmente na sua origem, bastante diferentes, porque são produzidos de organismos vivos, por exemplo, as células, que dadas certas condições ideais, podem funcionar como fábricas de biológicos e que nos permitem, tal e qual como no nosso corpo, extrair as substâncias desejadas, que podem ter uma influência terapêutica relevante para certas indicações. Beneficiam, por isso, de milhões de anos de evolução, que a química clássica não tem conseguido. NF: É a biologia que fez essa evolução. JP: É a biologia. Portanto, é a beleza também da- NF: A natureza que fez esse processo todo, esse processo por nós.  NF: Joana, por serem criados a partir de organismos vivos, podemos dizer que estes medicamentos são, entre aspas, mais inteligentes, que têm um potencial terapêutico maior? Joana Cristovão (JC): Podemos dizer que efetivamente, em alguns dos casos, têm um elevado potencial terapêutico. A vantagem destas moléculas é que são moléculas com uma capacidade de especificidade bastante elevada. Ou seja, podemos ver como se fosse uma chave para uma fechadura. Tem de ser a chave certa para a fechadura. Efetivamente, os biológicos, falando a mesma língua biológica dentro do nosso corpo, conseguem ter esta vantagem, estão a falar a mesma língua. Mas não significa que são melhores do que as pequenas moléculas. Significa que, efetivamente, sendo produzidas por micro-organismos vivos, são bastante complexas e seria muito difícil, e em alguns casos impossível, de serem produzidas pela clássica síntese química, mas têm aqui uma grande vantagem de serem bastante específicos. Exemplos de biológicos são proteínas que têm a função de comunicar dentro do nosso corpo, anticorpos monoclonais que têm a função de identificar um alvo específico e estas funções efetivamente são mais relevantes nos biológicos do que nas pequenas moléculas. NF: João, esta é uma área, pelo que percebo, um pouco emergente ainda em todo o mundo. Como é que a Hovione, sendo uma empresa historicamente ligada à síntese química e engenharia de partículas de pequenas moléculas, chegou até aqui e decidiu também abraçar este desafio dos biológicos? JP: Sinceramente, tem sido uma transição muito natural. Acho que primeiro porque ao longo dos anos a Hovione desenvolveu um conjunto de especialidade, conhecimento científico muito específico em áreas também elas muito específicas de química, engenharia de partícula e formulação. E quando olhamos para os biológicos, apesar da sua maior complexidade, o problema acaba por ser mais ou menos o mesmo. Continua a precisar de materiais, processos e controles que os permitam chegar de uma forma estável e robusta aos pacientes. NF: Mas há potencial? JP: Claro que sim. Não só há potencial como há desafios. E isso vem, se calhar, o segundo ponto, que é a curiosidade. Acho que desde a história da Hovione e desde o fundador, essa curiosidade e esse desejo de abraçar desafios cada vez mais complexos, é um pouco parte da gênese, principalmente no nosso centro de inovação e desenvolvimento, e por isso é também um fator muito aliciante para quem trabalha na Hovione, poder estar a par desta transição. NF: E não está assim tão longe da sua história também. JP: Não. NF: Por isso que explicava.  NF: Joana, em que áreas terapêuticas é que estes medicamentos biológicos já tiveram um impacto mais significativo? Há doenças que vieram mudar claramente a forma como os doentes são tratados? JC: Há áreas- NF: Isto já não é ficção científica, já existe na prática. JC: Exatamente. E já existe há muito tempo em algumas áreas. Por exemplo, na oncologia existem anticorpos que são utilizados também para matar as células cancerígenas. Com especificidade. Ou seja, em vez de matarmos as células de uma maneira geral, direcionamos esta morte ao mecanismo de ação da doença. NF: Reduz efeitos secundários, imagino. JC: E que também reduz efeitos secundários. E numa vertente também diferente, o cancro é uma doença bastante esperta e evolui muito rapidamente, porque se esconde das nossas defesas e do nosso sistema imunitário. Então também existem tratamentos baseados em biológicos, cujo objetivo também é ajudar as nossas defesas a fazerem o trabalho delas, a retirar este véu invisível que alguns tumores têm, que os faz progredir muito rapidamente e a ajudar as nossas defesas a atacar. Outro exemplo, e é um exemplo clássico que já foi resolvido há 40 anos, é o exemplo da diabetes. A insulina é o tratamento mais comum utilizado para a diabetes e aqui, antes da biotecnologia, a insulina era isolada de animais e consequentemente, a sua produção era bastante limitada. Com a possibilidade de utilizar a biotecnologia para produzir os biológicos, conseguimos produzir insulina humana, a chamada insulina recombinante, porque efetivamente utilizamos micro-organismos vivos para os produzir. E esta mudança fez com que este tratamento ficasse disponível para mais pessoas e que se salvassem milhares de vidas. NF: Dois exemplos claros onde estes biológicos já estão, entre aspas, a atacar. João, hoje já estão, de facto, no mercado, mas imagino que a transposição e estabilização em laboratório trazem grandes desafios técnicos. Que desafios é que foram estes no caso dos biológicos? JP: Sendo moléculas muito complexas e, como a Joana descreveu, até de alguma forma elegantes, são também igualmente sensíveis, quase como uma flor de estufa. E portanto, a evolução biológica, como falámos há pouco, tratou de as otimizar para sobreviverem e estarem em condições muito específicas, condições essas que muitas vezes não são as que nós temos nos nossos processos industriais, de transporte ou até da administração do fármaco. E portanto, estas moléculas são tipicamente muito sensíveis ao calor, ao ar, à pressão e até só o simples fato de elas estarem muito tempo juntas, acabam por começar a interagir entre si, perder a sua estrutura e também, infelizmente, o seu efeito terapêutico. E é um bocadinho aí que nós entramos, ou seja, os clientes tipicamente vêm ter connosco com algo com potencial terapêutico muito grande, mas apenas muitas vezes só uma prova de conceito. E nós pegamos, digamos assim, nesses primeiros testes laboratoriais experimentais para tentar criar aqui controles, processos, até formulação, que permita levar isto aos milhares, milhões de unidades, sempre com obviamente bastante cuidado para um controle de qualidade e estabilidade imaculados para os fármacos. NF: Joana, mas afinal, como é que são administrados estes medicamentos? São diferentes dos outros? Tradicionalmente, muitos exigem uma ida ao hospital para uma administração intravenosa mais demorada. É assim que funcionam com os biológicos? JC: Exatamente. Tradicionalmente, estes biológicos são administrados diretamente na veia por perfusão, muito semelhante quando nós levamos soro. Mas a indústria farmacêutica quer se focar também não unicamente em resolver os problemas e doenças, mas também tem um foco grande no doente. Esta administração envolve uma ida ao hospital, algum tempo para ser administrado e em doenças crônicas, isto repete-se ao longo da vida. E a ambição da indústria farmacêutica também é arranjar tratamentos alternativos que sejam mais confortáveis ao doente e que se crie mais autonomia para o doente. NF: Para que ele não precise, se calhar, de ir ao hospital? JC: Exatamente. O objetivo final seria então termos soluções mais injetáveis com uma ambição do próprio doente conseguir administrar sozinho. Para isso, então é preciso haver inovação na parte de tecnologia, de desenvolvimento de formulações e de dispositivos que permitam que o doente o consiga fazer. NF: João, é aqui que entra o vosso conceito de formulações de alta concentração. O que é isto na prática? E de facto, um dia já não precisaremos de um enfermeiro para uma injeção. Haverá um dispositivo para o fazermos nós próprios. JP: Sim, esperemos que sim. O conceito de formulações de alta concentração é relativamente simples. Significa colocar o máximo de medicamento no volume o mínimo possível, mínimo o suficiente que possa, por exemplo, caber num bolso, estilo um auto injetor, que hoje em dia creio que as pessoas- NF: Uma caneta. JP: Uma caneta. Creio que as pessoas, até pela nova geração de alguns medicamentos, especialmente para obesidade, etc, tornou-se relativamente popular e bastante mais familiar, apesar de ser utilizado em outras aplicações. Isto tecnicamente parece simples, colocar mais de uma coisa, menos de outra, mas obviamente, como sabemos, estas moléculas, e já falámos aqui, são bastante sensíveis e à medida que vão sendo mais concentradas, ou seja, estão mais apertadas entre si Problemas começam a surgir. Para além da estabilidade e como já falámos um bocadinho da sua alteração de estrutura, há essencialmente um problema de viscosidade. Eu acho que isto é fácil de visualizar, qualquer coisa mais concentrada tende a ser mais viscosa. NF: Mais difícil de injetar. JP: Mais difícil de injetar, o que leva à questão da dor e, portanto, mais viscosidade tipicamente leva a uma maior dor da administração. Isso viola diretamente o conceito de desenvolvermos formulações e medicamentos mais convenientes e mais user friendly. E é esse o problema que a indústria neste momento tem em mãos, arranjar soluções que consigam quebrar as barreiras da dose e baixar os volumes sem comprometer a eficácia terapêutica, mas também a conveniência e a aceitabilidade destas novas soluções de alta concentração. NF: Joana, só para terminarmos, o que sentem os cientistas quando olham para o futuro e veem também este trabalho diário da Hovione a aproximar a medicina de soluções que são cada vez mais personalizadas, mais convenientes, mais centradas na vida dos doentes, mais confortáveis para eles? Imagino que orgulhosos por esse desenvolvimento também. JC: Acho que é uma grande responsabilidade e acho que daí também vem uma grande motivação. A medicina está cada vez a tornar-se mais personalizada, mais focada nos mecanismos que levam à doença e não só focada no tratamento de sintomas, mas em ser mais dirigida àquilo que faz com que haja doença. E acho que é um grande orgulho estar em equipas que fazem parte desta jornada, que nos levam a um futuro melhor e focado no doente. NF: João, o futuro é biológico ou não só, mas também? JP: Não só, mas também. Mas claramente acho que os biológicos nos permitem novos sonhos, novas ambições, especialmente em melhores medicamentos, mais personalizados e mais eficazes e, portanto, abre todo um conjunto de possibilidades que até hoje se calhar não era possível de imaginar. NF: João Pires e Joana Cristóvão, muito obrigado por nos abrirem as portas do futuro da medicina. É com este olhar sobre o amanhã que termina a primeira temporada do podcast "A Próxima Descoberta". Ao longo destes seis episódios, viajamos desde uma cave em Lisboa em 1959, até à liderança tecnológica mundial, que todos os anos toca a vida a mais de 80 milhões de pessoas. Ficou provado que com curiosidade, rigor e talento, as próximas grandes descobertas da ciência mundial podem mesmo ter a assinatura do nosso país. Para ouvir todos os episódios desta série, pode fazê-lo em Observador.pt e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, foi um gosto acompanhar-vos nesta viagem. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP6) - Biológicos de alta dosagem: da ficção à realidade

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