06.06.2003

Ivan Villax
1925-2003

Ivan Villax, fundador da Hovione, morreu no dia 6 de Junho de 2003, aos 78 anos.

Ivan Villax gostava de dizer, não sem uma certa ironia, que deixou o seu país aos 23 anos, trazendo apenas uma escova de dentes num dos bolsos, um diploma de Engenharia Química no outro e os Russos nos seus calcanhares .

Nasceu em Magyaróvár, uma pequena cidade universitária húngara, a leste de Viena. A sua mãe era descendente de uma conceituada família austro-húngara proprietária de terras, e o seu pai um geneticista húngaro. Em 1948, estando a família num campo de refugiados em Salzburg, chega uma carta do Professor Victoria Pires, na altura Secretário de Estado da Agricultura do Governo português, convidando o seu pai a vir para Portugal. Ödon Villax viria ajudar na fundação, em Portugal, de um centro de pesquisa agronómica no campo da genética de plantas. Ivan chega a Lisboa pouco tempo depois, juntando-se assim à família, depois de finalizar uma pós graduação em microbiologia no Centre de Recherches Agronomiques de Clermont-Ferrand em França.

Já sabia que o seu futuro estava nos antibióticos e, durante a sua permanência em França, isolou do solo algumas estirpes produtoras de tetraciclinas, que mais tarde designou de Streptomyces lusitanus. Em 1952, inicia o seu trabalho no Instituto Pasteur de Lisboa, naquela época um dos mais conceituados laboratórios portugueses.

Os seus primeiros inventos foram na área de cloranfenicol e das tetraciclinas, e na fermentação da penicilina. Neste período, soube tirar partido do equipamento do Prof. Maia Loureiro, o inventor da fermentação aeróbica submergida. Esta tecnologia nacional seria decisiva para vencer os desafios industriais relacionados com a fermentação da penicilina durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1958, casa com Diane Du Boulay e, juntamente com dois outros húngaros, Nicholas de Horthy e Andrew Onody, fundam a Hovione em 1959. Durante os primeiros 10 anos, a firma era um pequeno laboratório de pesquisa, situado na cave da sua casa em Lisboa, perto das Embaixadas americana e britânica. Enquanto Ivan se dedica à investigação química, Diane processa as facturas das vendas, e durante os 45 anos que se seguem formam um casal e uma parceria admirável.

Após uma estreita colaboração com a Fermentfarma Spa, Milan – uma empresa dirigida também por refugiados húngaros – Villax é nomeado director técnico e accionista minoritário. Os processos tecnológicos no campo da fermentação e isolação das tetraciclinas são então licenciados à Imperial Chemical Industries no Reino Unido, National Fermentation na África do Sul, e International Rectifier em El Segundo, Califórnia, entre outras. Em 1967, a Rachelle Laboratories compra a Fermentfarma, e o capital proveniente da venda das acções de Ivan Villax permite-lhe construir a primeira fábrica da Hovione, nos arredores de Lisboa.

Consciente da imprevisibilidade dos processos de fermentação decide dedicar-se à síntese química. Na fábrica em Loures, desenvolve à escala industrial um processo em 18 passos consecutivos para produzir a betametasona e seus derivados. Na década de 70, a Hovione goza de uma posição privilegiada no mercado japonês, graças às patentes de processo independentes, de que Villax é inventor. À medida que o negócio vai crescendo, surgem os tempos conturbados da revolução de 1974, pelo que Ivan decide enviar os filhos para Inglaterra onde prosseguem os seus estudos. Começa então a procurar um outro local para a expansão dos negócios, o que consegue em 1978 com a abertura de um escritório de vendas em Hong Kong. Nesse mesmo ano, a Hovione visita, pela primeira vez, a Feira de Cantão. Um após o outro, os seus quatro filhos trabalham durante alguns anos no Extremo-Oriente como forma de lhes proporcionar a melhor educação possível.

Em 1982, a unidade fabril de Loures, em plena expansão, começa a fornecer antibióticos semi-sintéticos para o Mercado de Genéricos norte-americano, no que foi acompanhada pela fábrica de Macau para o aumento da capacidade de produção. Isto ocorreu antes da introdução do “Roche/Bolar Amendment”, e durante vários anos os colaboradores da FDA ainda se lembravam das amostras de doxiciclina serem entregues às 9h00 da manhã nos seus escritórios em Fishers Lane Rockville, Maryland, nem um minuto antes, nem um minuto depois, da hora de expiração da patente do primeiro inventor.

Na Europa, este produto deu origem a litígios de patentes em que a Pfizer processou, ao longo de vários anos, alguns clientes da Hovione em oito países diferentes. Fiel às suas convicções, Villax apresenta-se voluntariamente em todos os processos como co-defensor. Dotado de uma vontade tenaz, não desiste perante esta adversidade e finalmente, em 1992, chega a um acordo fora dos tribunais. É com desapontamento que vê esta disputa desviar a sua atenção de outros projectos inovadores, apesar de ao longo deste tempo a Indústria ter reconhecido o espírito combativo da Hovione como sendo uma característica do seu fundador. Actualmente, a indústria de genéricos mundial beneficia dos processos eficazes desenvolvidos pela Hovione para o fabrico de muitos outros princípios activos: a minociclina, a roxitromicina, o iopamidol e o iohexol são produtos que permitem à Hovione deter uma posição de líder em vários países.

Ivan Villax sempre demonstrou a sua gratidão para com o País que o acolheu e lhe permitiu iniciar uma nova vida. Sentia-se satisfeito porque, ao fornecer meios genéricos de contraste, a Hovione estava, de alguma forma, a prestar homenagem ao Prof. Egas Moniz, o pai da angiografia e o primeiro português a receber o Prémio Nobel.

Após a queda do Muro de Berlim, vai diversas vezes à Hungria. A Universidade Técnica de Budapeste, a sua Alma Mater, reconhecendo o mérito da sua obra de 40 anos na indústria farmacêutica, concede-lhe o grau de doutoramento e convida-o para membro do Senado Académico. Nessa altura, era já autor de mais de 100 patentes e artigos científicos.

Em 1995, com uma saúde mais debilitada, decide entregar a chefia da empresa ao seu filho Guy, que conta com a gestão de uma equipa altamente profissional. No entanto, Ivan Villax continua diariamente a deslocar-se à fábrica em Loures, sempre interessado em manter-se a par dos novos processos químicos e do curso dos negócios, não se furtando a apontar qualquer falha de rigor, disciplina e manutenção, tanto nos laboratórios como nas restantes instalações fabris. Acompanhado da sua mulher Diane, visitava todos os anos a fábrica de Macau, empenhando-se em encorajar a geração mais nova e a reconhecer os serviços daqueles colaboradores mais antigos.

Nos últimos anos de vida, viu a Hovione tornar-se num fabricante importante de inibidores de protease do HIV, um medicamento chave no combate à Sida, tendo tomado parte activa no desenvolvimento de muitos projectos envolvendo fármacos para fornecer o princípio activo. Em 2002, a Hovione funda uma fábrica piloto em New Jersey, não muito distante de Rahway onde, na década de 50, Villax declinara uma proposta para trabalhar nos Laboratórios de Pesquisa da Merck. Ele e a sua mulher Diane viajaram pelo mundo inteiro, onde pode satisfazer uma das suas outras paixões, coleccionar plantas de lugares exóticos, que ele próprio plantava e cuidava na sua Quinta nos arredores de Lisboa.

No passado mês de Maio, após graves complicações pulmonares, Ivan, sempre lutador e sempre determinado a controlar o seu destino, consciente de que os hospitais e a ciência nada mais podiam fazer, pediu para regressar a casa. Na sua Quinta em Manique, rodeado das suas flores e árvores, dos seus filhos, netos e da sua mulher Diane, a sua companheira de uma vida inteira, viveu duas semanas de felicidade – morreu na sexta-feira 6 de Junho.

No dia 12 de Junho, foram celebradas Missas de Sétimo Dia na Igreja Matriz em Loures e na Basílica da Estrela em Lisboa.

Para mais informações sobre a Hovione, por favor visite www.hovione.pt , www.hovione.com  ou contacte a Área de Comunicação (Isabel Pina, tel. 21 982 9362, email: ).

 

 
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